22.1.06

Biografia de Michelangelo Buonarroti

Michelangelo Buonarroti

Michelangelo nasceu a 6 de março de 1475, em Caprese, província florentina. Se pai Ludovico di Lionardo Buonarroti Simoni era um homem violento, "temente de Deus", sua mãe, Francesca morreu quando Michelangelo tinha seis anos. Eram 5 irmãos. Michelangelo foi entregue aos cuidados de uma ama-de-leite cujo marido era cortador de mármore na aldeia de Settignano. Mais tarde, brincando, Michelangelo atribuirá a este fato sua vocação de escultor. Brincadeira ou não, o certo é que na escola enchia os cadernos de exercícios com desenhos, totalmente desinteressados das lições sobre outras matérias. Por isso, mais de uma vez foi espancado pelo pai e pelos irmãs de seu pai, a quem parecia vergonhoso ter um artista na família, justamente uma família de velha e aristocrática linhagem florentina, mencionada nas crônicas locais desde o século XII. E o orgulho familiar jamais abandonará Michelangelo. Ele preferirá a qualquer titulo, mesmo o mais honroso, a simplicidade altiva de seu nome: "Não sou o escultor Michelangelo. Sou Michelangelo Buonarroti". Aos 13 anos, sua obstinação vence a do pai: ingressa, como aprendiz, no estúdio de Domenico Ghirlandaio, já então considerado mestre da pintura de Florença. Mas o aprendizado é breve - cerca de um ano -, pois Michelangelo irrita-se com o ritmo do ensino, que lhe parece moroso, e além disso considera a pintura uma arte limitada: o que busca é uma expressão mais ampla e monumental. Diz-se também que o motivo da saída do jovem foi outro: seus primeiros trabalhos revelaram-se tão bons que o professor, enciumado, preferiu afastar o aluno. Entretanto, nenhuma prova confirma essa versão.

Florença e o Mecenato

Deixando Ghirlandaio, Michelangelo entra para a escola de escultura que o mecenas Lourenço, o Magnífico - riquíssimo banqueiro e protetor das artes em Florença mantinha nos jardins de São Marcos. Lourenço interessa-se pelo novo estudante: aloja-o no palácio, faz com que sente à mesa de seus filhos. Michelangelo está em pleno ambiente físico e cultural do Renascimento italiano. A atmosfera, poética e erudita, evoca a magnificência da Grécia Antiga, seu ideal de beleza - baseado no equilíbrio das formas -, sua concepção de mundo - a filosofia de Platão.

Michelangelo adere plenamente a esse mundo. Ao produzir O Combate dos Centauros, baixo-relevo de tema mitológico, sente-se não um artista italiano inspirado nos padrões clássicos helênicos, mas um escultor grego de verdade. Em seu primeiro trabalho na pedra, com seus frisos de adolescentes atléticos reinam a força e a beleza impassíveis, como divindades do Olimpo. Na Igreja del Carmine, Michelangelo copia os afrescos de Masaccio. Nos jardins de Lourenço, participa de requintadas palestras sobre filosofia e estética. Mas seu temperamento irônico, sua impaciência com a mediocridade e com a lentidão dos colegas lhe valem o primeiro - e irreparável - choque com a hostilidade dos invejosos. Ao ridicularizar o trabalho de um companheiro, Torrigiano dei Torrigiani - vaidoso e agressivo -, este desfechou-lhe um golpe tão violento no rosto que lhe desfigurou para sempre o nariz. Mancha que nunca mais se apagará da bua sensibilidade e da sua retina, a pequena deformação lhe parecerá dai por diante um estigma - o de um mundo que o escorraça por não aceitar a grandeza do seu gênio - e também uma mutilação ainda mais dolorosa para quem, como ele, era um sofisticado esteta, que considerava a beleza do corpo uma legitima encarnação divina na forma passageira do ser humano. Em 1490, Michelangelo tem 15 anos. É o ano em que, o monge Savonarola começa a inflamada pregação mística que o levará ao governo de Florença. O anúncio de que a ira de Deus em breve desceria sobre a cidade atemoriza o jovem artista: sonhos e terrores apocalípticos povoam suas noites. Lourenço, o Magnifico, morre em 1492. Michelangelo deixa o palácio. A revolução estoura em 1494. Michelangelo, um mês antes, fugira para Veneza. Longe do caos em que se convertera a aristocrática cidade dos Médici, Michelangelo se acalma. Passa o inverno em Bolonha, esquece Savonarola e suas profecias, redescobre a beleza do mundo. Lê Petrarca, Boccaccio e Dante. Na primavera do ano seguinte, passa novamente por Florença. Esculpe o Cupido Adormecido -- obra "pagã" num ambiente tomado de fervor religioso -, vai a Roma, onde esculpe Baco Bêbado, Adônis Morrendo. Enquanto isso, em Florença, Savonarola faz queimar livros e quadros - "as vaidades e os anátemas".

As Principais Obras

Logo, porém, a situação se inverte. Os partidários do monge começam a ser perseguidos. Entre eles, está um irmão de Michelangelo, Leonardo - que também se fizera monge durante as prédicas de Savonarola. Michelangelo não volta. Em 1498, Savonarola é queimado. Michelangelo se cala. Nenhuma de suas cartas faz menção a esses fatos. Mas esculpe a Pietá, onde uma melancolia indescritível envolve as figuras belas e clássicas. A tristeza instalara-se em Michelangelo.

Na primavera de 1501, ei-lo por fim em Florença. Nesse mesmo ano, surgirá de suas mãos a primeira obra madura. Um gigantesco bloco de mármore jazia abandonado havia 40 anos no local pertencente à catedral da cidade. Tinha sido entregue ao escultor Duccio, que nele deveria talhar a figura de um profeta. Duccio, porém, faleceu repentinamente e o mármore ficou á espera. Michelangelo decidiu trabalhá-lo. O resultado foi o colossal Davi, símbolo de sua luta contra o Destino, como Davi ante Golias. Uma comissão de artistas, entre os quais estavam nada menos que Leonardo da Vinci, Botticelli, Filippino Lippi e Perugino, interroga Michelangelo sobre o lugar onde deveria ficar a estátua que deslumbra a todos que a contemplam. A resposta do mestre é segura: na praça central de Florença, defronte ao Palácio da Senhoria. E para esse local a obra foi transportada. Entretanto, o povo da cidade, chocado com a nudez da figura, lapidou a estátua, em nome da moral.

Da mesma época data a primeira pintura (que se conhece) de Michelangelo. Trata-se de um tondo - pintura circular - cujas formas e cores fariam com que, posteriormente, os críticos o definissem como obra precursora da escola "maneirista". É A Sagrada Familia. Pode-se ver que, mesmo com o pincel, Michelangelo não deixa de ser escultor. Ou, como ele próprio dizia: "Uma pintura é tanto melhor quanto mais se aproxime do relevo". Em março de 1505, Michelangelo é chamado a Roma pelo Papa Júlio lI. Começa então o período heróico de sua vida. A idéia de Júlio II era a de mandar construir para si uma tumba monumental que recordasse a magnificência da Roma Antiga com seus mausoléus suntuosos e solenes. Michelangelo aceita a incumbência com entusiasmo e durante oito meses fica em Carrara, meditando sobre o esquema da obra e selecionando os mármores que nela seriam empregados. Enormes blocos de pedra começam a chegar a Roma e se acumulam na Praça de São Pedro, no Vaticano. O assombro do povo mistura-se à vaidade do papa e à inveja de outros artistas. Bramante de Urbino, arquiteto de Júlio II, que fora freqüentes vezes criticado com palavras sarcásticas por Michelangelo, consegue persuadir o papa a que desista do projeto e o substitua por outro: a reconstrução da Praça de São Pedro. Em janeiro de 1506, Sua Santidade aceita os conselhos de Bramante. Sem sequer consultar Michelangelo, decide suspender tudo: o artista está humilhado e cheio de dividas.

Michelangelo parte de Roma. No dia seguinte, Bramante, vitorioso, começa a edificação da praça. No entanto, Júlio II quer o mestre de volta. Este recusa, Finalmente, encontra-se com o papa em Bolonha e pede-lhe perdão por Ter-se ido. Uma nova incumbência aguarda Michelangelo: executar uma colossal estátua de bronze para ser erguida em Bolonha. São inúteis os protestos do artista de que nada entende da fundição desse metal. Que aprenda, responde-lhe o caprichoso papa. Durante 15 meses, Michelangelo vive mil acidentes na criação da obra. Escreve ao irmão: "Mal tenho tempo de comer. Dia e noite, só penso no trabalho. Já passei por tais sofrimentos e ainda passo por outros que, acredito, se tivesse de fazer a estátua mais uma vez, minha vida não seria suficiente: é trabalho para um gigante". O resultado não compensou. A estátua de Júlio II, erguida em fevereiro de 1508 diante da lgreja de São Petrônio, teria apenas quatro anos de vida. Em dezembro de 1511, foi destruída por uma facção política inimiga do papa e seus escombros vendidos a um certo Alfonso d'Este, que deles fez um canhão. De regresso a Roma, Michelangelo deve responder a novo capricho de Júlio II : decorar a Capela Sistina. O fato de o mestre ser antes de tudo um escultor não familiarizado com as técnicas do afresco não entrava nas cogitações do papa. Todas as tentativas de fugir á encomenda são inúteis. O Santo Padre insiste - segundo alguns críticos, manejado habilmente por Bramante que, dessa forma, desejaria arruinar para sempre a carreira de Michelangelo - e o artista cede mais uma vez. A incumbência - insólita e extravagante - é aceita.

Dia 10 de maio de 1508, começa o gigantesco trabalho. A primeira atitude do artista é recusar o andaime construído especialmente para a obra por Bramante. Determina que se faça outro, segundo suas próprias idéias. Em segundo lugar, manda embora os pintores que lhe haviam sido dados como ajudantes e instrutores na técnica do afresco. Terceiro, resolve pintar não só a cúpula da capela mas também suas paredes. É a fase dc Michelangelo herói. Herói trágico. Tal como Prometeu, rouba ao Olimpo o fogo de sua genial inspiração, embora os abutres das vicissitudes humanas não deixem de acossá.lo. O trabalho avança muito lentamente. Por mais de um ano, o papa não lhe paga um cêntimo sequer. Sua família o atormenta com constantes pedidos de dinheiro. A substância frágil das paredes faz logo derreter as primeiras figuras que esboçara. Impaciente com a demora da obra, o papa constantemente vem perturbar-lhe a concentração para saber se o projeto frutificava. O diálogo é sempre o mesmo: "Quando estará pronta a minha capela?" -- "Quando eu puder!" Irritado, Júlio II faz toda a sorte de ameaças. Chega a agredir o artista a golpes de bengala, que tenta fugir de Roma. O papa pede desculpas e faz com que lhe seja entregue - por fim - a soma de 500 ducados. O artista retoma a tarefa.

No dia de Finados de 1512, Michelangelo retira os andaimes que encobriam a perspectiva total da obra e admite o papa à capela. A decoração estava pronta. A data dedicada aos mortos convinha bem á inauguração dessa pintura terrível, plena do Espírito do Deus que cria e que mata. Todo o Antigo Testamento está ai retratado em centenas de figuras e imagens dramáticas, de incomparável vigor e originalidade de concepção: o corpo vigoroso de deus retorcido e retesado no ato da criação do Universo; Adão que recebe do Senhor o toque vivificador de Sua mão estendida, tocando os dedos ainda inertes do primeiro homem; Adão e Eva expulsos do Paraíso; a embriaguez de Noé e o Dilúvio Universal; os episódios bíblicos da história do povo hebreu e os profetas anunciando o Messias. São visões de um esplendor nunca dantes sonhado, imagens de beleza e genialidade, momentos supremos do poder criador do homem. No olhar do Papa Júlio II naquele dia de Finados de 1512 já se prenunciavam os olhares de milhões de pessoas que, ao longo dos séculos e vindas de todas as partes do mundo, gente de todas as raças, de todas as religiões, de todas as ideologias políticas, se deslumbrarão diante da mais célebre obra de arte do mundo ocidental.

Vencedor e vencido, glorioso e alquebrado, Michelangelo regressa a Florença. Vivendo em retiro, dedica-se a recobrar as forças minadas pelo prolongado trabalho; a vista fora especialmente afetada e o mestre cuida de repousá-la. Mas o repouso é breve: sempre inquieto, Michelangelo volta a entregar-se ao projeto que jamais deixara de amar: o túmulo monumental de Júlio II. Morto o papa em fevereiro de 1513, no mês seguinte o artista assina um contrato comprometendo-se a executar a obra em sete anos. Dela fariam parte 32 grandes estátuas. Uma logo fica pronta. É o Moisés - considerada a sua mais perfeita obra de escultura. Segue-se outra, Os Escravos, que se acha no Museu do Louvre, doada ao soberano Francisco I pelo florentino Roberto Strozzi, exilado na França, que por sua vez a recebera diretamente do mestre em 1546. Como breve foi o repouso, breve foi a paz. O novo papa, Leão X, decide emular seu antecessor coma protetor das artes. Chama Michelangelo e oferece-lhe a edificação da fachada da Igreja de São Lourenço, em Florença. E o artista, estimulado por sua rivalidade com Rafael -- que se aproveitara de sua ausência e da morte de Bramante para tornar-se o soberano da arte em Roma -, aceita o convite, sabendo que precisaria suspender os trabalhos relacionados com a tumba de Júlio II. O pior, porém, é que após anos de esforços ingentíssimos, após mil dificuldades, vê o contrato anulado pelo papa Leão X.

Só com o sucessor de Leão X, o Papa Clemente VII, Michelangelo encontra novamente um mecenas que o incita a trabalhar arduamente: deverá construir a capela e a tumba dos Medici, sendo-lhe paga uma pensão mensal três vezes superior á que o artista exigira. Mas o destino insiste em turvar seus raros momentos de tranqüilidade: em 1527, a guerra eclode em Florença e Michelangelo, depois de ajudar a projetar as defesas da cidade, prefere fugir, exilando-se por algum tempo em Veneza. Restabelecida a paz, o Papa Clemente, fiel a seu nome, perdoa-lhe os "desvarios" políticos e o estimula a reencetar o trabalho da Capela dos Médici. Com furor e desespero, Michelangelo dedica-se á obra. Quando o interrogam sobre a escassa semelhança das estátuas com os membros da poderosa família, ele dá de ombros: "Quem perceberá este detalhe daqui a dez séculos? Uma a uma emergem de suas mãos miraculosas as alegorias da Ação, do Pensamento e as quatro estátuas de base: O Dia, A Noite, A Aurora e O Crepúsculo, terminadas em 1531. Toda a amargura de suas desilusões, a angústia dos dias perdidos e das esperanças arruinadas, tada a melancolia e todo o pessimismo refletem-se nessas obras magníficas e sombrias.

Os Últimos Dias: Solidão e Produção

Com a morte de Clemente VII em 1534, Michelangelo - odiado pelo Duque Alexandre de Medici -- abandona mais uma vez Florença. Agora, porém, seu exílio em Roma será definitivo. Nunca mais seus olhos contemplarão a cidade que tanto amou. Vinte e um anos haviam passado desde sua última estada em Roma: nesse periado, produzira três estátuas do monumento inacabado de Júlio II, sete estátuas inacabadas do monumento inacabado dos Médici, a fachada inacabada da lgreja de São Lourenço, o Cristo inacabado da lgreja de Santa Maria della Minerva e um Apolo inacabado para Baccio Valori. Nesses vinte e um anos, perdeu a saúde, a energia, a fé na arte e na pátria. Nada parecia mantê-lo vivo: nem a criação, nem a ambição, nem a esperança. Michelangelo tem 60 anos e um desejo: morrer. Roma, entretanto, lhe trará novo alento: a amizade com Tommaso dei Cavalieri e com a Marquesa Vittoria Colonna, afastando-o do tormento e da solidão, permite-lhe aceitar a oferta de Paulo III, que o nomeia arquiteto-chefe, escultor e pintor do palácio apostólico. De 1536 a 1541, Michelangelo pinta os afrescos do Juízo Universal na Capela Sistina. Nada melhor que suas próprias idéias sobre pintura para definir essa obra e o homem que a criou: "A boa pintura aproxima-se de Deus e une-se a Ele... Não é mais do que uma cópia das suas perfeições, uma sombra do seu pincel, sua música, sua melodia... Por isso não basta que o pintor seja um grande e hábil mestre de seu oficio.

Penso ser mais importante a pureza e a santidade de sua vida, tanto quanto possível, a fim de que o Espírito Santo guie seus pensamentos..." Terminados os afrescos da Sistina, Michelangelo crê enfim poder acabar o monumento de Júlio II. Mas o papa, insaciável, exige que o ancião de 70 anos pinte os afrescos da Capela Paulina - A Crucificação de São Pedro e A Conversão de São Paulo). Concluídos em 1550, foram suas últimas pinturas. Durante todo esse tempo, os herdeiros do Papa Júlio II não cessaram de perseguir o artista pelo não cumprimento dos vários contratos por ele assinados para o término da obra. O quinto contrato seria cumprido. Em janeiro de 1545, inaugurava-se o monumento. O que restara da plano primitivo? Apenas o Moisés, no inicio um detalhe do projeto, agora o centro do monumento executado. Mas Michelangelo estava livre do pesadelo de toda a sua vida.

Os últimos anos do mestre ainda foram fecundos, embora numa atividade diferente: a arquitetura. Dedicou-se ao projeto de São Pedro, tarefa que lhe custou exaustivos esforços devido às intrigas que lhe tramaram seus acirrados inimigos. Projetou também o Capitólio - onde se reúne o Senado italiano - e a Igreja de São João dos Florentinos (cujos planos se perderam). Ainda encontra energias para esculpir. Renegando cada vez mais o mundo, Michelangelo busca uma união mística com o Cristo. Sua criação, como a de Botticelli no final da vida, é toda voltada para as cenas da Paixão. De pé, aos 88 anos de idade, ele elabora penosa e amorosamente uma Pietá, até que a doença o acorrente em definitivo ao leito, onde - com absoluta lucidez - dita um testamento comovente, pedindo "regressar pelo menos já morto" à sua adorada e inesquecível Florença, doando sua alma a Deus e seu corpo á terra. O seu gênio, ele já o tinha legado á humanidade.

21.1.06

Biografia de Alfred Bernhard Nobel

Alfred Nobel

Alfred Bernhard Nobel nasceu a 21 de Outubro de 1833 em Estocolmo, na Suécia. Filho de Immanuel Nobel, engenheiro civil e inventor, e de Andrietta Ahlsell, que provinha de uma família abastada. Quando tinha quatro anos de idade, Alfred, mudou-se para a Finlândia com a mãe e os irmãos e mais tarde para São Petersburgo, na Rússia, para onde o pai tinha ido trabalhar e tinha tido sucesso numa oficina de equipamento para o exército russo.

Foi em São Petersburgo que ele e os irmãos estudaram. Rapidamente se notou um elevado interesse pela Literatura e pela Química. O pai, ao aperceber-se disto, enviou-o para o estrangeiro para ganhar experiência no campo da Engenharia Química. Visitou países tais como França, Alemanha e Estados Unidos da América. Foi em Paris que conheceu o jovem químico italiano Ascanio Sobrero, que três anos antes tinha inventado a nitroglicerina. O invento fascinou Nobel devido ao seu potencial na engenharia civil.

No ano de 1852 foi trabalhar para a empresa do pai com os seus irmãos, e realizou experiências com o fim de arranjar um uso seguro e passível de vender para a nitroglicerina. Não obteve quaisquer resultados. Mas em 1863, regressou à Suécia, com o objectivo de desenvolver a nitroglicerina como explosivo. Muda-se para uma zona isolada depois da morte do irmão Emil numa das suas explosões experimentais. Tentou então tornar a nitroglicerina num produto mais manipulável, juntando-lhe vários compostos, que a tornaram de facto numa pasta moldável, a dinamite* (Alfred Nobel : Us Patent) . A sua invenção veio facilitar os trabalhos de grandes construções tais como túneis e canais.A dinamite expandiu-se rapidamente por todo o mundo. No entanto Nobel dedicava muito tempo aos seus laboratórios, de onde sairam outros inventos (já não relacionados com explosivos), tais como a borracha sintética.

O trabalho intenso durante todo a sua vida não lhe deixou muito tempo para a vida pessoal; tinha apenas uma grande amiga, Bertha Kinsky, que lhe transmitiu os seus ideais pacifistas. Isto iria contribuir para a criação de uma fundação com o seu nome, que promovesse o bem-estar da Humanidade.Faleceu a 10 de Dezembro de 1896 vítima de uma hemorragia cerebral, na sua casa em San Remo (Itália). No seu testamento havia a indicação para a criação de uma fundação que premiasse anualmente as pessoas que mais tivessem contribuído para o desenvolvimento da Humanidade. Em 1900 foi criada a Fundação Nobel que atribuía cinco prémios em áreas distintas: Química, Física, Medicina, Literatura (atribuídos por especialistas suecos) e Paz Mundial (atribuído por uma comissão do parlamento norueguês). Em 1969 criou-se um novo prémio na área da Economia (financiado pelo Banco da Suécia). O vencedor recebe uma medalha Nobel em ouro e um diploma Nobel. A importância do prémio varia segundo as receitas da Fundação obtidas nesse ano. Assim, nasceu o Prémio Nobel, concedido todos os anos pela Real Academia de Ciências da Suécia.

Alfred Nobel, O Inventor da Dinamite

Químico autodidata, inventou a dinamite e acumulou uma das maiores fortunas da Suécia com as suas fábricas de armamentos. Mas deixou um prêmio aos que lutam pela paz.

A Alfred Nobel detestava prêmios. Se, por algum milagre, pudesse voltar à vida e, na sua qualidade de químico e inventor da dinamite, fosse indicado para receber o prêmio que leva o seu nome, ficaria, na certa, profundamente contrariado. Desdenhava qualquer tipo de honraria ou de publicidade. Quando lhe pediam dados biográficos ou fofos, respondia invariavelmente com a negativa, alegando, por exemplo, que "nestes tempos de publicidade gritante e despudorada, apenas os particularmente dotados para esse gênero de coisas devem permitir que os jornais Ihes publiquem a fotografia".

Nunca mandou pintar o próprio retrato, iniciativa praticamente obrigatória para os homens de sua condição no seu tempo, e o único quadro que o representa foi realizado após sua morte. Recebeu várias condecorações, mas não mostrava o menor respeito por elas. Gostava de afirmar que ganhara a Estrela do Norte da Suécia pelo fato de ter um bom cozinheiro, capaz de agradar a estômagos influentes, e a Ordem Brasileira da Rosa porque fora apresentado casualmente ao imperador Pedro II.

Tinha, aliás, um estranho senso de humor, e nunca se sabia muito bem se estava falando a sério ou brincando. Certa vez, na presença do rei Oscar, da Suécia, desenvolveu uma teoria segundo a qual a crosta terrestre deveria ter nos pólos duas grandes cavidades, por causa da rotação do globo. Freqüentemente falava de seus planos de mandar construir em Paris um luxuoso estabelecimento onde os candidatos ao suicídio pudessem afastar-se da vida com dignidade. Segundo Nils Oleinikoff-Nobel, sobrinho-neto do inventor e último sobrevivente da família, nos últimos anos de vida Alfred Nobel levara a excentricidade a tal ponto que só ia a suas fábricas aos domingos para não ter o constrangimento de se encontrar com seus próprios operários.

Parecia-se de certa forma com o pai, Immanuel Nobel, uma espécie de gênio autodidata, que passou a vida idealizando invenções e grandes projetos. Alguns eram estapafúrdios, como ensinar focas a guiar torpedos submarinos; outros, perfeitamente sensatos e lucrativos. Alternou períodos de sérias dificuldades econômicas com anos de rápida prosperidade. Immanuel teve quatro filhos: Robert, Ludvig, Alfred e Emil. Alfred, o criador do Prêmio Nobel, nasceu em 1833, numa década de efervescência tecno-científica, mas em plena crise familiar — a primeira falência paterna.

Quatro anos depois, a família Nobel muda-se para São Petersburgo, na Rússia, e monta uma pequena metalúrgica. Prospera, então, fabricando minas submarinas, graças, sobretudo, à sociedade com um general influente e às gigantescas encomendas recebidas durante a guerra da Criméia — 1854/1856. Terminada a guerra, acabam as encomendas e os Nobel vão à falência pela segunda vez. Alfred estava com 26 anos. Não recebera educação formal. A bem dizer, freqüentou apenas o primeiro ano do primário numa escola paroquial, na sua Suécia natal.

Mas, com o auxilio de excelentes professores particulares, estudando em casa, tornou-se excepcionalmente bem-preparado. Falava fluentemente sueco, russo, inglês, francês e alemão, sendo atraído pela literatura e pela filosofia. Quando a situação financeira de seu pai era favorável, viajou pelo mundo durante dois anos. Conheceu os Estados Unidos e, sobretudo, Paris, onde fez estágios em diversos laboratórios de química. Interessou-se desde cedo por explosivos e, já em 1863, requereu sua primeira patente importante: um detonador de percussão conhecido como processo Nobel.

A patente foi obtida na Suécia, para onde parte da família voltara, na tentativa de relançar os negócios em novas bases, depois da falência na Rússia. Instalados na pequena localidade de Helensburgo, nas vizinhanças de Estocolmo, Alfred, o irmão caçula Emil e o pai começaram a fabricar nitroglicerina. Essa substância, preparada pela primeira vez em 1846 pelo italiano Ascanio Sobrero, tem uma fórmula aparentemente muito simples: certa quantidade de glicerina adicionada a uma mistura de ácido nítrico e ácido sulfúrico.

Mas sua preparação é extremamente arriscada. Qualquer choque ou uma alteração brusca de temperatura provocam violenta explosão. Foi assim que, em 1864, mal começara a produção dos Nobel, a fábrica foi pelos ares, matando Emil, o irmão caçula, e quatro homens. Semanas mais tarde, o velho pai sofreu um derrame do qual nunca se recuperou. Alfred, no entanto, não se deixou abater. Conseguiu um sócio e voltou a fabricar nitroglicerina. Como a prefeitura de Estocolmo negou-lhe permissão para o funcionamento, instalou a nova fábrica numa balsa ancorada num lago das vizinhanças, fora da jurisdição municipal. Os negócios prosperaram rapidamente. Alfred mudou-se para Hamburgo, de onde dirigia os negócios da firma enquanto prosseguia suas pesquisas.

Os riscos de acidentes continuaram elevados até 1867, quando Alfred teve a idéia de misturar à nitroglicerina uma substância inerte, na esperança de evitar explosões acidentais. Deu certo. A nova mistura, denominada dinamite, iria revolucionar a técnica da explosão de minas, a construção de estradas e a sorte das guerras. Além de trazer rios de dinheiro à empresa de Alfred Nobel. Como se tudo isso não bastasse, a sorte também favorecia os negócios de Ludovic e Robert, os dois irmãos que haviam permanecido na Rússia depois da segunda falência familiar.

Robert conseguira reabrir a fábrica de equipamentos militares e, graças a seus antigos contatos, convertera-se, em poucos anos, num dos maiores fornecedores do Exército russo. Além de canhões, granadas, minas e munições diversas, chegou a produzir mais de 500 mil fuzis. Como na Rússia Central, onde estava instalada a indústria, não existia madeira adequada para a coronha desses fuzis, Robert enviou o irmão Ludovic ao Cáucaso, onde, segundo estava informado, as nogueiras cresciam em quantidade. A informação revelou-se inexata: as nogueiras eram raras. Em compensação, Ludovic encontrou petróleo jorrando espontaneamente do solo, junto ao mar Cáspio, na região de Baku.

Não foi bem uma descoberta. O petróleo de Baku já era conhecido desde o tempo de Marco Polo. Mas foi para Ludovic Nobel um achado extremamente feliz, porque feito na hora certa, justamente quando a humanidade, que utilizava a lâmpada de querosene, começava a apreciar o valor do petróleo. Ludovic encontrou Baku praticamente virgem. Logo se apossou das melhores terras, montou uma refinaria e encomendou petroleiros que partiram pelos sete mares. Alfred Nobel, que financiara parte dos investimentos do irmão e já era multimilionário com suas fábricas de dinamite, tornou-se, igualmente, um dos primeiros magnatas do petróleo.

Mas nunca foi feliz. Sua vida sentimental, ao que tudo indica, permaneceu um deserto. Em 1876, pôs num jornal austríaco um anúncio no qual "um senhor de certa idade, rico e muito instruído, residente em Paris", dizia procurar "mulher experiente e de certa classe, que conheça línguas estrangeiras, para Ihe servir de secretária e dama de companhia". Respondeu a esse anúncio a condessa Bertha Kinski von Chinic und Tettau, descendente de uma família arruinada da aristocracia austríaca. Falava alemão, francês, inglês e italiano e, aos 33 anos, sua beleza era fora do comum.

Compreende-se que o solitário Alfred tenha se apaixonado. Conforme conta a condessa em suas memórias, ele teria chegado a se declarar de maneira indireta. Mas não teve sorte. Uma semana depois do primeiro encontro, Alfred partiu em viagem e a condessa fugiu para se casar com seu namorado — Arthur von Suttner —, de quem se afastara temporariamente por pressões da família do rapaz. Apesar de decepcionado, Alfred tornou-se depois um grande amigo do casal Suttner, com quem trocaria, ao longo dos anos, vasta correspondência.

Foi por influência de Bertha, pacifista convicta, que Nobel incluiu no seu testamento um prêmio dedicado à paz, com o qual a própria condessa foi agraciada, em 1905. Pessoalmente, ele não tinha muitas ilusões quanto a esse tipo de iniciativa. Foi um dos primeiros a admitir a teoria do equilíbrio do terror. Escreveu a Bertha: "No dia em que exércitos inimigos possam aniquilar-se em um segundo, todas as nações civilizadas — ao menos é de se esperar — evitarão a guerra e desmobilizarão seus soldados. Por isso, minhas fábricas podem pôr termo à guerra mais rapidamente que seus congressos pela paz".

Com o tempo, menos ilusões sobre a humanidade restavam a Alfred Nobel. Em outra carta, lamenta: "Onde estão os meus numerosos amigos? No fundo lodoso das ilusões perdidas ou demasiado ocupados em escutar o retinir do metal sonante de suas economias? Creia-me, só fazemos numerosos amigos entre os cães que nutrimos com a carne alheia, ou entre os vermes que alimentamos com a nossa própria substância. Os estômagos saciados e os corações arrependidos são irmãos gêmeos". No fim da vida, uma série de contrariedades Ihe acentuaram ainda mais o temperamento sombrio.

Sofria de acessos lancinantes de dor de cabeça, que atribuía ao contato com a nitroglicerina e, a partir dos 50 anos, de crises cada vez mais freqüentes de angina do peito. Além disso, em 1891, viu-se expulso da França, onde residira durante dezessete anos, acusado de espionagem industrial em favor da Itália. Perde, também, um processo nos tribunais ingleses referente a uma valiosíssima patente de um tipo de pólvora sem fumaça. Passa os últimos anos de vida entre a localidade de Bjorkbörn, a 80 quilômetros de Estocolmo, onde cuida do soerguimento da fábrica de armas Bofors, e sua casa italiana em San Remo.

É em San Remo que ele vem a falecer. Como sempre temera, morreu cercado apenas por seus empregados, sem nenhum parente ou amigo, às 2 horas da madrugada de 10 de dezembro de 1896. Um ano antes, assinara a terceira e última versão de seu testamento, dispondo que os rendimentos dos 31 milhões de coroas suecas de sua fortuna deveriam ser "distribuídos anualmente às pessoas que mais benefícios houvessem prestado à Humanidade". Nobel, o homem que detestava prêmios, deixou seu nome ligado ao prêmio mais prestigiado de todos os tempos.

A invenção da dinamite

Alfred e seu pai montam um pequeno laboratório de pesquisas em Helenborg, perto de Estocolmo, e começaram a trabalhar num líquido novo e perigoso, capaz de explodir com o simples aumento do calor ou à menor agitação. Era a Nitroglicerina.

Em pouco tempo, Alfred descobriu um jeito eficaz de provocar a detonação dessa substância. Mas teve que pagar um preço trágico pelas experiências: uma explosão mandou pelos ares todo o laboratório; várias pessoas morreram – entre elas, um irmão de Alfred. Por causa do acidente, o pai teve um ataque apoplético que o deixaria paralizado pelo resto da vida.

Agora só, Alfred continua o trabalho, instalando fábricas de nitroglicerina na Alemanha e Noruega. Mas os acidentes não cessam: a fábrica da Alemanha pega fogo; um navio explode no Panamá; mais explosões nos Estados Unidos e na Austrália. Os governos começam a ficar preocupados e tomam providências para prevenir novos desastres: a Bélgica e a França simplesmente proíbem a fabricação da Nitroglicerina em seus territórios; a Suécia impede seu transporte; e a Inglaterra restringe severamente sua utilização. Tudo fazia crer que Alfred perdera seu tempo.

Mas, finalmente, entre 1866 e 1867, Nobel resolve i problema, acrescentando à nitroglicerina certas substâncias absorventes, de modo que se torna possível armazená-la e transportá-la sem riscos: só explodiria mediante um detonador especial. Nobel batizou o produto, sob nova forma, de dinamite (do grego Dynamis, que significa força). Para o povo, tinha outro nome: "a pólvora de segurança de Nobel".

O invento permite-lhe multiplicar sua fábricas. Em 1875, é dono de centros produtores de dinamite em todos países da Europa e nos Estados Unidos. E continua a pesquisar. Seus estudos levam-no a outra invenção de importância: a balistile, uma pólvora não fumarenta, derivada da nitroglicerina. Patenteada em 1887, logo foi usada pela maioria dos países para fins militares.

Inventor da dinamite, da gelatina explosiva e de outros detonantes, Nobel ficou famoso ao criar o mais importante prêmio do mundo, concedido anualmente a personalidades que hajam contribuído para a paz e para o progresso de diversos ramos do saber.

Alfred Bernhard Nobel nasceu em Estocolmo, Suécia, em 21 de outubro de 1833. Fez seus primeiros estudos em Estocolmo e na cidade russa de São Petersburgo, onde o pai, Alfred Nobel engenheiro, instalou uma fábrica de nitroglicerina. Aos 16 anos já era químico competente e falava fluentemente inglês, francês, alemão e russo, além de sueco. Completou a especialização em química na França e depois trabalhou nos Estados Unidos, sob a direção de John Ericsson, que construiu a belonave blindada Monitor. De volta a São Petersburgo, trabalhou na fábrica do pai, onde tentou aperfeiçoar a nitroglicerina líquida, inventada em 1846 pelo italiano Ascanio Sobrero.

Após a falência do estabelecimento do pai, em 1859, Alfred Nobel regressou à Suécia e trabalhou na fabricação de explosivos à base de nitroglicerina líquida. Um acidente com a substância provocou a morte de seu irmão caçula, Emil. Proibido pelo governo de reconstruir a fábrica e estigmatizado como "cientista louco", Nobel continuou a pesquisar a maneira de minimizar o perigo de manusear a nitroglicerina, o que conseguiu ao misturá-la com um material inerte e absorvente. Pôde então aperfeiçoar a dinamite e o detonador e desenvolver um explosivo mais poderoso, a nitroglicerina gelatinizada.

Biografia de Charlie Chaplin

Charlie Chaplin

Chaplin como "O vagabundo"Sir Charles "Charlie" Spencer Chaplin - também conhecido por Carlitos no Brasil - (16 de abril, 1889 - 25 de dezembro, 1977) foi o mais famoso ator dos primeiros momentos do cinema hollywoodiano, e posteriormente um notável diretor. Era canhoto. Seu principal personagem foi "The Tramp" (O Vagabundo): um andarilho com as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro que vestia um casaco firme, calças e sapatos mais largos que o seu número, um chapéu ou uma cartola, uma bengala de bambu e sua marca pessoal, um bigode. Chaplin foi uma das personalidades mais criativas da era do cinema mudo; ele atuou, dirigiu, escreveu, produziu e eventualmente financiou seus próprios filmes. O cineasta foi também um talentoso jogador de Xadrez e chegou a enfrentar o campeão americano Sammuel Reshevsky. O QI de Chaplin era muito alto: 140, nível de superdotado.

Nascido Charles Spencer Chaplin em Walworth, Londres, Inglaterra dos pais Sr. Charles e Hannah Harriette Hill, ambos animadores do Music Hall. Seus pais separaram-se logo após seu nascimento, deixando-o aos cuidados de sua mãe cada vez mais instável emocionalmente. Em 1896, ela ficou desempregada e não conseguia encontrar outro emprego; Charlie e seu meio-irmão mais velho Sydney tinham de ser deixados em uma casa de trabalho em Lambeth, mudando-se após várias semanas para a Escola Hanwell para Crianças Órfãs e Destituídas. Seu pai faleceu com problemas de vício em bebida quando Charlie estava com 12 anos de idade, e sua mãe ficou com sérios problemas mentais e mais tarde foi admitida no Asilo Cane Hill próximo a Croydon. Ela faleceu em 1928.

Chaplin subiu ao palco pela primeira vez aos 5 anos, em 1894, quando representou no Music Hall diante de sua mãe, que lhe ensinou a cantar e representar. Ainda criança ele esteve de cama por duas semanas devido a uma séria doença quando, à noite, sua mãe sentava-se na janela e representava o que acontecia fora de casa. Em 1900, com 11 anos, ele conseguiu com a ajuda do irmão o papel cômico do gato em uma pantomima, Cinderela no "London Hippodrome". Em 1903 ele participou de "Jim, a romance of cockayne", após o que assumiu seu primeiro trabalho regular, como o entregador de jornal Billy em Sherlock Holmes, um papel que representou até 1906.

A este, seguiu-se o Court Circus de Casey, um show de variedades e, no ano seguinte, ele se tornou o palhaço em "Fun Factory" de Fred Karno, Companhia de comédia slapstick. De acordo com registros de imigração, ele chegou na América com o trupe de Karno em 2 de outubro, 1912. Na Companhia de Karno estava Arthur Stanley Jefferson, que se tornaria conhecido e amado como Stan Laurel. Chaplin e Laurel preferiram compartilhar um quarto em uma pensão. A atuação de Chaplin foi eventualmente vista pelo produtor de filmes Mack Sennett, que o contratou para seu estúdio, o Keystone Film Company. Embora inicialmente Chaplin tivesse dificuldade para se ajustar ao estilo de ação da Keystone filme, ele logo se adaptou e floresceu no meio. Isto foi possível, em parte, por Chaplin ter desenvolvido o personagem trampolim dele, eventualmente ganhando o controle de direção e criação em cima dos filmes dele que o permitiram tornar-se a grande estrela e talento da Keystone.

De acordo com registros de imigração, Chaplin chegou nos Estados Unidos com o grupo Karno em 2 de Outubro de 1912. Na Karno Company estava Arthur Stanley Jefferson, que se tornaria conhecido e amado como Stan Laurel. Charles e Stan dividiriam um quarto numa pensão. Enquanto Chaplin inicialmente teve dificuldades em se ajustar ao estilo Keystone de atuar, ele logo se adaptou e floresceu. Isso foi possível graças ao personagem "vadio" que criou. Chaplin começou a ter mais controle sobre seus filmes o que permitiu que se tornasse um dos mais importantes atores da Keystone.

O histórico do seu salário sugere como rapidamente ele se tornou mundialmente famoso, e a habilidade do seu irmão, Sydney Chaplin, de ser o seu agente.
1914: Keystone, trabalha por US$150 por semana
1914-1915: Essanay Studios, US$1250 por semana, mais um bónus significante de US$10,000
1916-1917: Mutual, US$10,000 por semana, mais um bónus significante de US$150,000
1917: Primeiro nacional, US$1 milhão — primeiro actor a ganhar tal soma.
Em 1919 fundou o estúdio United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith.
Em 1919, fundou o estúdio United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith. Apesar de filmes falados terem se popularizado em 1927, Chaplin resistiu a usá-los até os anos 1930.

O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) foi o seu primeiro filme com som. Foi, também, uma afronta a Adolf Hitler e ao fascismo que se reinava na época. Foi filmado e lançado nos Estados Unidos um ano antes da entrada do país na Guerra. O papel de Chaplin era duplo: o de Adenoid Hynkel, clara alusão ao nome de Hitler, e de um barbeiro judeu que é cruelmente perseguido pelos nazistas. Hitler era um grande fã de filmes, e sabe-se que ele tenha visto o filme duas vezes (segundo registros de seu cinema particular). Após o descobrimento do Holocausto, Charles revelou que não conseguiria brincar com o regime nazista como brincou no filme se soubesse da extensão do problema. O posicionamento político de Chaplin sempre pendeu para a esquerda. Vários de seus filmes, principalmente Tempos Modernos (Modern Times, 1936), que foi uma crítica à situação da classe operária e dos pobres em geral. Chaplin viajou para a Inglaterra em 1952, mas seu retorno foi proibido pelo Serviço de Imigração, devido a acusações de "atividades não-americanas", na época do macarthismo. Foi um processo encabeçado por J. Edgar Hoover. Decidiu, então, permanecer na Europa, e foi morar na Suíça.

No cinema

Chaplin e Jackie Coogan em "O Garoto/O Miúdo" (1921)Chegou a retornar aos Estados Unidos em 1972 para receber seu Oscar, que ganhou duas vezes. O primeiro foi recebido em 16 de Maio de 1929, por The Circus. Outro filme seu que recebeu o prêmio foi The Jazz Singer. Seu segundo prêmio veio 44 anos depois, em 1972, pelo "seu incalculável efeito na indústria do cinema". Ele se viu livre de seu exílio e recebeu seu prêmio menos de um mês antes da morte de J. Edgar Hoover. Chaplin também foi nomeado sem sucesso para Melhor Filme, Melhor Ator, e Melhor Roteiro Original em O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940), e novamente por Melhor Roteiro Original em Monsieur Verdoux, de 1947. Em 1973, recebeu um Oscar de Melhor Trilha Sonora em Filme Dramático pelo filme Limelight, de 1952. Devido às dificuldades de Chaplin com o macarthismo, o filme não estreou em Los Angeles quando foi produzido. Isso só foi acontecer em 1972. Seus últimos filmes foram A King in New York, de 1957 e A Countess from Hong Kong, de 1967, estrelando Sophia Loren e Marlon Brando.

Vida pessoal

Seus sucessos profissionais tiveram reflexos diretos em sua vida pessoal por várias vezes. Em 23 de Outubro, 1918, Chaplin casou-se aos 28 anos de idade com Mildred Harris, de 16. Tiveram um filho que morreu ainda bebê. Divorciaram-se em 1920. Aos 35, apaixonou-se por Lita Grey, também de 16 anos, durante as preparações de The Gold Rush. Casaram-se em 26 de Novembro de 1924, quando ela ficou grávida. Tiveram dois filhos. Divorciaram-se em 1926, enquanto a fortuna de Chaplin chegava a US$ 825.000. O estresse do divórcio somado com os impostos que não paravam terminaram por deixar os cabelos de Charles brancos.

Chaplin casou-se secretamente aos 47 anos com Paulette Goddard, de 25, em Junho de 1936. Depois de alguns anos felizes, este casamento também terminou em divórcio, em [1942]]. Durante este período, Chaplin namorou Joan Barry, atriz de 22 anos. A relação terminou quando Barry começou a perturbá-lo. Em Maio de 1943, ela informou a Chaplin que estava grávida, e exigiu que ele assumisse a paternidade. Exames comprovaram que Chaplin não era o pai, mas na época tais testes não tinham muita validade, e ele se viu forçado a pagar US$ 75 por semana até que a criança fizesse 21 anos. Depois, conheceu Oona O'Neill, filha do dramaturgo Eugene O'Neill. Casaram-se em 16 de Junho de 1943. Ele tinha 54 anos enquanto ela tinha 17. Este casamento foi longo e feliz, com oito filhos.

Em 4 de Março de 1975, depois de muitos anos de exílio, foi condecorado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II. Tal honra foi proposta pela primeira vez em 1956, mas vetada pelo departamento de imigração britânico, já que acreditava-se que Chaplin era comunista. Charles Chaplin faleceu no dia de Natal (25 de Dezembro) de 1977 em Vevey, Suíça e foi enterrado no Cemitério Corsier-Sur-Vevey em Corsier-Sur-Vevey, Vaud, Suíça. Depois meses depois, em 3 de Março de 1978, seu corpo foi roubado do cemitério, numa tentativa de extorquir dinheiro de sua família. O plano falhou, e os ladrões foram capturados e o corpo recuperado onze semanas depois, no Lago Geneva. Há uma famosa estátua de Chaplin em Vevey. Em 1992, um filme sobre sua vida foi feito, com o título Chaplin, dirigido por Sir Richard Attenborough, estrelando Robert Downey Jr., Dan Aykroyd, Geraldine Chaplin (filha de Chaplin, interpretando sua própria avó), Anthony Hopkins, Milla Jovovich, Moira Kelly, Kevin Kline, Diane Lane, Penelope Ann Miller, Paul Rhys, Marisa Tomei, Nancy Travis, e James Woods.

Filmografia

Curta-metragens

1914

Between Showers
A Busy Day
Caught in a Cabaret
Caught in the Rain
Cruel, Cruel Love
Dough and Dynamite
The Face on the Barroom Floor
The Fatal Mallet A Film Johnnie
Gentlemen of Nerve
Getting Acquainted
Her Friend the Bandit
His Favorite Pastime
His Musical Career
His New Profession
His Prehistoric Past
His Trysting Place
Kid Auto Races at Venice
The Knockour
Laughing Gas
Mabel at the Wheel
Mabel's Busy Day
Mabel's Married Life
Mabel's Strange Predicament
Making a Living
The Masquerader
The New Janitor
The Property Man
Recreation
The Rounders
The Star Boarder
Tango Tangles
Those Love Pangs
Twenty Minutes of Love

1915
The Bank
Charlie Chaplin's Burlesque on Carmen
By the Sea
The Champion
His New Job
His Regeneration
In the Park
A Jitney Elopement
Mixed Up A Night Out
A Night in the Show
Shanghaied
The Tramp
A Woman
Work

1916
Behind the Screen
The Count
The Fireman
The Floorwalker
One A.M.
The Pawnshop
Police!
The Rink
The Vagabond

1917
The Adventurer
The Cure
Easy Street
The Immigrant

1918
The Bond
Chase Me Charlie
A Dog's Life
Triple Trouble

1919
A Day's Pleasure
Sunnyside

1921
The Idle Class

1922
Pay Day

1923
The Pilgrim

Filmes
(como ator e diretor, exceto nos indicados)
Tillie's Punctured Romance (1914) (ator)
Shoulder Arms (1918)
The Kid (1921)
The Nut (1921) (participação especial)
Souls For Sale (1923) (participação especial)
A Woman of Paris (1923) (participação especial, direção)
The Gold Rush (1925)
A Woman of the Sea (1926) (produtor)
The Circus (1928)
Show People (1928) (participação especial)
City Lights (1931)
Modern Times (1936)
The Great Dictator (1940)
Monsieur Verdoux (1947)
Limelight (1952)
A King in New York (1957)
A Countess From Hong Kong (1967)

19.1.06

Biografia de João Calvino

João Calvino (10 de Julho de 1509 - 27 de Maio de 1564)

João Calvino (que é o aportuguesamento de Jean Cauvin, dito Calvin) (10 de Julho de 1509 - 27 de Maio de 1564) fundou o Calvinismo, uma forma de Protestantismo cristão, durante a Reforma Protestante. Esta variante do Protestantismo seria bem sucedida em países como a Suíça (país de origem), Países Baixos, África do Sul (entre os Afrikaners), Inglaterra, Escócia e EUA. Nasceu em Noyon, Picardia, França, com o nome de Jean Cauvin. A transposição do nome "Cauvin" para o Latim (Calvinus) deu a origem ao nome "Calvin" pelo qual ele é conhecido. Calvino foi inicialmente um humanista. Nunca foi ordenado sacerdote. Depois do seu afastamento da Igreja católica, este intelectual começou a ser visto, gradualmente, como a voz do movimento protestante, orando em igrejas e acabando por ser reconhecido por muitos como "padre". Vítima das perseguições aos protestantes na França, fugiu para Genebra em 1536, onde faleceu em 1564. Genebra tornou-se definitivamente num centro do protestantismo Europeu e João Calvino permanece até hoje uma figura central da história da cidade e da Suíça. Martinho Lutero escreveu as suas 95 teses em 1517, quando Calvino tinha 8 anos de idade. Para muitos, Calvino terá sido para a língua francesa aquilo que Lutero foi para a língua alemã - uma figura quase paternal. Lutero era dotado de uma retórica mais directa, por vezes grosseira, enquanto que Calvino tinha um estilo de pensamento mais refinado e geométrico, quase de filigrana. Citando Bernard Cottret, biógrafo (francês) de Calvino: "Quando se observa estes dois homens podia-se dizer que cada um deles se insere já num imaginário nacional: Lutero o defensor das liberdades germânicas, o qual se dirige com palavras arrojadas aos senhores feudais da nação alemã; Calvino, o filósofo pré-cartesiano, percursor da língua francesa, de uma severidade clássica, que se identifica pela clareza do estilo".

Nyon

O avô de João Calvino trabalhava numa cantina em Point-l'Évêque, nas proximidades de Noyon. Teve três filhos: Richard, que foi serralheiro e se instalou em Paris, Jacques, igualmente serralheiro e, finalmente, Girard Cauvin, pai de João Calvino, que foi aquele que talvez mais se destacou dos três, tendo feito carreira em Nyon como funcionário administrativo. Girard Cauvin estabeleceu-se em Noyon em 1481. Foi inicialmente um simples secretário da chancelaria. Seria, depois, advogado representante do bispado de Nyon; mais tarde, funcionário relacionado com a cobrança de impostos e, finalmente, o promotor (representante) do bispado, antes de entrar em conflito com este. Faleceu em 1531 após uma disputa com o bispado, pela qual foi excomungado. A autorização para o seu funeral seria deveras dificultada devido a esta querela. A mãe de Calvino, Jeanne Le Franc, de seu nome de solteira, era filha de um dono
de uma hospedaria em Cambrai, que tinha enriquecido. Jeanne faleceu em 1515, quando João Calvino tinha apenas 6 anos de idade.

Girard e Jeanne tiveram quatro filhos:

Charles, o mais velho, foi padre. Faleceu em 1536.
João Calvino. Antoine - Iria mais tarde viver em Genebra, junto do irmão.
François - Morreu ainda em tenra idade.

Haveria ainda duas irmãs, que nasceram do segundo casamento de Girard. Uma chamou-se Maria e iria também viver em Genebra. Da outra irmã sabe-se pouco. João Calvino nasce a 10 de julho de 1509, nos últimos anos do reinado de Luís XII. Freqüentou inicialmente o "Collège des Capettes" em Nyon, onde adquiriu conhecimentos básicos de latim. Em 1 de Janeiro de 1515 o rei Francisco I de França (François, roi des françois), sucedeu a Luís XII. Inicialmente moderado em matéria de religião, a postura deste rei foi endurecendo ao longo do seu reinado, terminando na perseguição declarada dos protestantes. Pela Concordata de Bolonha, assinada no início do seu reinado, o papa Leão X concedia ao rei da França o direito a nomear os titulares dos rendimentos da igreja. Em contrapartida, o Papa via reforçados os seus direitos sobre a Igreja em França.

Paris

Em 1521, com 12 anos, João Calvino ganhou o direito a uma "benefice", ou seja, um rendimento anual que era concedido a elementos e familiares da hierarquia da igreja. No seu caso, consistia numa determinada quantia anual de
cereais pagos por uma comunidade de La Gésine.

Em 1521 ou 1523 (data incerta) o pai enviou-o para a Paris. Terá provavelmente vivido inicialmente com o tio Richard, na zona de Sain-Germain-l'Auxerrois. Calvino começa por frequentar o College de la Marche, onde foi aluno de Maturin
Cordier, um grande pedagogo do tempo. Estabeleceu, aí, amizade com as crianças da família d'Hangest, do bispo de Nyon, que se assumia, de certa forma, como protetor dos Cauvins. Os seus amigos eram Joachin, Yves e Claude, a quem mais tarde dedicaria o seu comentário a "De Clementia" de Séneca, um autor conhecido pelo seu estoicismo.

Foi, de seguida, admitido no Collège Montaigu, uma escola de má reputação, conhecida pela sua rigidez, pelas sovas e má comida. A lista de professores em Montaigu, nesta época, incluía o espanhol Antonio Coronel e o escocês John Mair
(que foi professor de Inácio de Loyola), mas não há provas definitivas de que eles tenham sido professores de Calvino. Em fevereiro de 1525, o rei Francisco I foi encarcerado temporariamente em Pavia pelas tropas do imperador Carlos V. Com a intervenção do papa Clemente VII a favor de Francisco, a influência papal junto do rei de França aumenta consideravelmente. Numa bula de 17 de Maio de 1525 dirige-se a Francisco para que tome providências contra o crescente número de "blasfemos" em França e contra os ataques a imagens religiosas. Em 1 de Junho de 1528 teve lugar em Paris o caso da Rue des Roisiers. Uma figura de madeira situada nessa rua (uma madona) foi decapitada por desconhecidos. O rei reage de forma veemente, organizando procissões, que passaram a ser repetidas anualmente.
O incidente ainda era lembrado no século XIX.

Orleães

Em 1529, pouco antes de atingir os vinte anos de idade, a vida de Calvino sofreu uma súbita viragem. Tendo vindo inicialmente para Paris com uma renda anual concedida pela Igreja, com o fim de estudar Teologia, ficará a saber que o pai mudou de planos em relação ao seu futuro e quer que ele siga Direito. A "ciência das leis torna normalmente ricos aqueles que se debatem com ela", referia o seu pai (ele próprio um advogado do bispado), segundo as próprias palavras de Calvino. Cumpriu a vontade do pai e foi estudar Direito para Orleães, mas nunca deixou de preferir a teologia. Como disse mais tarde: "Se Deus me deu forças para que eu cumprisse a vontade de meu pai, determinou ele pela providência oculta que eu tomasse finalmente um outro caminho" (o da Teologia). Inicialmente Calvino preparava-se para ser padre, enveredaria pelo estudo do direito, mas Deus trouxe-o de novo ao caminho da Teologia.

O biógrafo francês de Calvino, Bernard Cottret, escreve: "Direito e leis: Calvino, o teólogo, é no fim, também, Calvino, o jurista. O seu pensamento fica marcado pela austeridade, a adstringência e a geometria da lei, pelo seu fascínio ou aspiração a ela. No início do século XVI assiste-se no Direito a uma verdadeira revolução. A retórica de Cícero toma a primazia sobre a filosofia medieval, que se sustenta nos seus silogismos. Com a interpretação de textos jurídicos, Calvino toma contacto pela primeira vez com a Filologia humanista". O humanismo e o renascimento são, pois, os movimentos culturais que o vão influenciar em primeiro lugar.

Em Orleães, Calvino foi influenciado pelo seu professor Pierre de l'Estoile. Em 1529, dirige-se também a Bourges, para assistir a aulas do famoso professor de direito italiano Andrea Alciati, onde também assiste a aulas do alemão Gräzist
Wolmar, que o entusiasmou pela literatura grega da antiguidade. Em 1529, Louis de Berquin foi queimado vivo em Paris, numa altura em que o rei, Francisco, estava fora da cidade.

Em 1531, Calvino, num prefácio ao livro de um amigo, toma partido pelo seu professor Pierre de l'Estoile num texto que explora a disputa entre este e Andrea Alciati, talvez por lealdade e nacionalismo. O que prova que o Calvino de
1531 ainda não é um reformador mas, acima de tudo, um humanista. Neste mesmo ano morre o pai, Gerard Cauvin. Calvino vai a Bourges, a Orleães e regressa de novo a Paris, onde se instala em Chaillot.

O humanista Erasmo de Roterdão também se interessou pela obra de SénecaEm 1532, foi doutorado em Direito em Orleães. O seu primeiro trabalho publicado foi um comentário sobre o texto do filósofo romano Séneca "De Clementia". Calvino cobre os custos da publicação do livro com dinheiro do seu próprio bolso. Aos 23 anos era já um famoso humanista, seguindo os passos de Erasmo de Roterdão, que também oscreveu sobre Séneca nestes anos. Em "De Clementia" não há da parte de Calvino uma alusão explicitamente religiosa. É antes uma obra que reflecte o estoicismo de Séneca e a predestinação no sentido estóico. Séneca escrevera o texto como forma de apelar Nero à moderação e à razão.

Até 1532 não há, como se viu, qualquer indício de que Calvino tenha aderido à nova fé - nos seus diferentes focos e graus que surgem pela Europa - onde o Luteranismo surge como um movimento mais moderado e os anabaptistas como uma força mais radical.

A conversão de Calvino ao protestantismo permanece envolta em mistério. Sabe-se apenas que ela se deu entre 1532 e 1533 (Calvino tem 23 ou 24 anos). Um texto escrito por Calvino em 1557 como prefácio ao seu comentário sobre os salmos oferece-nos alguns parcos pormenores: "Após tomar conhecimento da verdadeira fé e de lhe ter tomado o gosto, apossou-se de mim um tal zelo e vontade de avançar mais profundamente, de tal modo que apesar de eu não ter prescindido dos outros estudos, passei a ocupar-me menos com eles. Fiquei estupefato, quando antes mesmo do fim do ano, todos aqueles que desejavam conhecer a verdadeira fé me procuravam e queriam aprender comigo - eu, que ainda estava apenas no início! Pela minha parte, por natureza algo tímido, sempre preferi o sossego e permanecer discreto, de modo que comecei a procurar um pequeno refúgio que me permitisse recolher dos Homens. Mas, pelo
contrário, todos os meus refúgios se tornavam em escolas públicas. Em resumo, apesar de eu sempre ter pretendido viver incógnito, Deus guiou-me por tais caminhos, onde não encontrei sossego, até que ele me puxou para a luz forte,
contrariando o meu caráter, e como se costuma dizer, me colocou em jogo. E, na verdade, deixei a França e dirigi-me para a Alemanha para que ali pudesse viver em local desconhecido, incógnito, como sempre tinha desejado."

Note-se que a França e Alemanha não existiam no sentido de hoje mas sim em termos de zonas de língua francófona ou alemã. Entretanto, o papa Clemente VII pressionava o rei de França a reprimir os protestantes franceses. Em bulas de 30 de Agosto de 1533 e de 10 de Novembro do mesmo ano, o papa exortava à "aniquilação da heresia Luterana e de outras seitas que ganham influência neste reino". Os dois encontram-se, então, nesse mesmo ano, em Marselha, onde discutem entre outras coisas a "guerra contra os turcos, lá fora, e a repressão das heresias cá dentro".

O discurso de Nicolas Cop

A 1 de Novembro de 1533, o novo reitor da Universidade de Paris, o humanista Nicolas Cop, proferiu um discurso de abertura do ano letivo na Igreja dos Franciscanos, em Paris, frente aos mais altos representantes das 4 faculdades:
Teologia, Direito, Medicina e Artes. O seu discurso fazia eco de temas facilmente associados à nova teologia da reforma. Nesse discurso, Nicolas fez, particularmente, o paralelismo entre a perseguição aos primeiros cristãos e a
que ocorria agora, século XVI, na França, e que visava os cristãos protestantes. Argumentava: Não eram também chamados de heréticos os primeiros seguidores do cristianismo? O resultado foi a perseguição do próprio Nicolas Cop, que teve de se refugiar em Basiléia.

Simultaneamente, João Calvino fogia também de Paris. O seu quarto no Collège de Fortet é revistado, e seus papéis e correspondência são confiscados. Calvino encontra refúgio em Angoulême, em casa do seu amigo Du Tillet. Não foi até hoje esclarecido completamente o que se passou. Encontrou-se, contudo, em Genebra, um fragmento do discurso de Nicolas Cop, escrito pela mão de Calvino. O documento original completo encontra-se em Estrasburgo. Foi levantada a tese de que Calvino poderia, pelo menos, ter participado na elaboração do discurso. Calvino permanece em Angoulême até Abril de 1534, altura em que se dirige a Nérac, onde se encontra com Lefèvre d'Étaples. Regressa depois a Noyon, onde em Maio de 1534 renuncia às suas "benefices". Volta, então, a Paris e a Orleães.

A Psychopannychia

Em 1534, Calvino escreve o seu segundo livro, que será também o primeiro sobre religião. Chamar-se-á Psychopannychia" e é relativamente pouco conhecido, em comparação com as outras obras de Calvino. Calvino faz uma crítica severa aos anabaptistas, que acusa de serem uma seita tresmalhada. O livro coloca questões teológicas, mais do que oferecer respostas. Calvino, nos seus 24 anos de idade, está em processo de busca. Defende a imortalidade da alma. O título completo era: "Psychopannychia - tratado pelo qual se prova que as almas permanecem vigilantes e vivas uma vez que tenham deixado os corpos, o que contraria o erro de alguns ignorantes que sustentam que elas dormem até ao último momento" - o que é, também, um ataque aos anabaptistas. Apesar de escrito em 1534, o livro
seria apenas publicado em 1542.

O caso dos cartazes de 1534

Em 18 de Outubro de 1534, a história do protestantismo francês vive um dos seus momentos fulcrais, com o caso dos cartazes. Cartazes de 37 por 25 cm que criticam a celebração da missa tal como ela é feita oficialmente pela Igreja
católica são afixados em vários locais. É particularmente atacada a repetição cerimonial da morte de Cristo, simbólica, no altar. Se o sacrifício já foi consumado, por que se apoderam os sacerdotes católicos deste ritual simbólico?
Os argumentos teológicos dos protestantes fundamentam-se na Epístola de São Paulo aos Hebreus. A propaganda protestante pretende transmitir a idéia de que a eucaristia é uma blasfémia, uma vez que a morte de Cristo não se deixa repetir. Esta demanda foi o resultado da ação de Antoine Marcourt, Pastor de Neuchâtel, também ele um natural da Picardia. A situação tornou-se particularmente crítica e descambou numa reação brutal por parte da Igreja católica e do estado francês. Protestantes franceses seriam encarcerados e assassinados. Em Janeiro de 1535, o rei Francisco I organiza uma procissão macabra pelas ruas de Paris. A procissão pára em 6 locais distintos. Em cada uma das paragens há um pódio onde o rei, os embaixadores e dignos membros do "parlement" se instalam para assistir à morte pela fogueira de 6 "heréticos" envolvidos no caso dos cartazes do ano anterior.

Basileia

Emblema da cidade de Basiléia Em Janeiro de 1535, Calvino dirige-se a (ou foge para ?) Basiléia, cidade onde vive até Março de 1536. Uma cidade conhecida por ter sido o lar de Erasmo de Roterdão e do reformador Johannes Oekolampad, falecido em 1531, sendo o seu seguidor Oswald Mykonius.

A tradução da bíblia de Olivétan

Em 1535 é publicada a primeira bíblia escrita por um protestante, em francês. Tratava-se de uma tradução directa do Hebraico (o antigo testamento) e do Grego (o novo testamento) - línguas originais das escrituras - e não das versões então em uso, em latim. Algo totalmente natural no século do humanismo e de Erasmo de Roterdão. O autor é Olivétan, aliás Pierre Robert (1506-1538), primo de João Calvino e proveniente também de Noyon. Foi publicada em Neuchâtel por Pierre de Vingle. Apesar de Pierre Robert ter demonstrado um bom conhecimento de Hebraico e Grego, o seu estilo de escrita foi considerado de difícil compreensão, além de uma certa falta de fluidez discursiva. O texto seria revisto (com a colaboração de Calvino) e publicado novamente em 1546.

O Édito de Coucy

Em 16 de Julho de 1535, o rei Francisco I faz publicar o Édito de Coucy, uma medida de contemporização para com os protestantes e que corresponde também a uma nova guerra de Francisco I contra Carlos V (Guerra de 1535-1538).
Necessitando do apoio dos protestantes alemães para o esforço de guerra e não convinha, necessariamente, perseguir os "Luteranos" em França. É prometido que se deixarão os protestantes em paz desde que vivam como "bons cristão" e renunciem à sua fé. Mas, em Dezembro de 1538, o Édito de Coucy é suspenso e as perseguições aos protestantes retomam a intensidade anterior.

Institutio religionis Christianae


Em Março de 1536 é publicada em Basiléia a primeira edição de "Institutio religionis Christianae". No prefácio menciona a sua estadia em Basiléia, "enquanto na França são queimados na fogueira crentes e pessoas santas". Fala de
santos mártires. Dirige-se no livro ao Rei Francisco I, que procura convencer das boas intenções da reforma. Ao mesmo tempo, a sua teologia começa a adquirir contornos mais marcados e mais autônomos em relação ao Luteranismo. Uma tendência que se fortalecerá no futuro. Critica a vida dos mosteiros, que compara a bordéis. Calvino pretende não só a reforma da Igreja mas de todos os indivíduos. A institutio é "a organização da sociedade daqueles que acreditam em
Jesus Cristo".

Em Março de 1536, Calvino viaja até Ferrara na companhia de Louis Du Tillet. Calvino esperava um acolhimento aberto às idéias protestantes na sua estadia em Ferrara. Enganava-se. Teria de interromper a visita logo em Abril. Foi então até Paris. Mas Calvino não tem futuro em França. Numa carta ao amigo Nicolas Duchemin, compara a sua citação com a dos judeus no Egito. A França era o seu Egito. Queixa-se na mesma carta dos rituais da missa, considerando-os idólatras. Calvino sai definitivamente da França em 1536, procurando terras politicamente independentes da França e de espíritos mais abertos para a reforma. Dirige-se, então, para cidades dos territórios que hoje constituem a Suíça.

A reforma em Genebra

Genebra é nesta altura já uma cidade de espíritos progressivos e abertos para a reforma protestante. Politicamente, a cidade está desde 1285 sob vassalagem aos condes de Sabóia ou à casa episcopal (ao bispo de Genebra), quase sempre ocupada por um bispo também da casa de Sabóia desde que o papa Félix V (Amadeu VIII de Sabóia) se auto-nomeou bispo da cidade. Na prática, no entanto, Genebra é quase uma cidade-estado, uma república que desde cedo se emancipou na conquista da sua liberdade municipal. Em 1522 inicia-se um conflito entre os pejorativamente
chamados "mamelucos", que são conservadores e partidários da casa de Sabóia e os "confederados" (alemão: Eidgenossen; francês: Eidguenot) de onde possivelmente se formará a palavra Huguenotes (francês: huguenot). Estes últimos opõem-se a Sabóia. Em 1524, Karl III, Duque de Savóia, tinha ocupado militarmente Genebra.
Porém, em 1526, Genebra decide-se pela união com Berna e Friburgo, iniciando-se no caminho helvético. A reforma protestante não terá tido um papel determinante neste processo, segundo Cottret. Mas a partir daqui começam a reunir-se em Genebra elementos da Reforma. Em 1533 há a primeira missa protestante de que há conhecimento nesta cidade. São então cunhadas moedas com a inscrição: "Post tenebras lux" (após a escuridão, a luz).

O ano de 1536 marca uma viagem a cidade de Genebra. Neste ano, a reforma é adotada oficialmente pela cidade. Os cléricos da igreja católica são intimados a deixar de celebrar a missa como o faziam, com o cerimonial papista e seus abusos (idolatria, aos olhos dos protestantes) e a juntarem-se aos protestantes. Num novo fôlego de zelo religioso, as raparigas são obrigadas a usar o véu, cobrindo os seus cabelos. Já desde 1532 que se registravam ataques e destruições de imagens religiosas, estátuas, figuras, etc. A adoração destas figuras era vista pelos protestantes como idolatria. Há um episódio carismático deste fenômeno: num destes ataques à "idolatria papista", uma multidão apodera-se de cerca de 50 hóstias de um padre, dando-as a comer a cão. "Se as hóstias pertencem mesmo ao
corpo de Deus, não se irão deixar comer por um cão!" - é argumentado. Em Junho de 1536, são abolidos em Genebra, por decisão de um conselho, todos os feriados, exceto os domingos. Todas estas transformações deram-se sem a influência de Calvino. Aliás, ainda nem sequer aí tinha chegado.

Chegada de Calvino a Genebra

Genebra nos dias de hoje, uma das cidades mais ricas do mundo 1536 é também o ano da chegada de Calvino a Genebra. Calvino tem nessa altura 26 anos. Após a estadia em Ferrara, na Primavera de 1536, Calvino tinha estado em Paris, aproveitando-se de um período de relativa calma na perseguição aos protestantes. Tratou de assuntos pessoais e da família. Em junho faz em Paris uma procuração em nome do seu irmão. Em Julho de 1536, João Calvino, pretendendo dirigir-se a Estrasburgo, inicia a viagem, juntamente com o irmão Antoine e a irmã Marie. Em vez de tomar o caminho mais curto, Calvino faz um desvio pelo sul, evitando a área onde a guerra entre as forças de Francisco I e Carlos V são uma ameaça. Por coincidência, Calvino chega a Genebra, onde permaneceu, apesar de ter inicialmente pretendido continuar viagem, o que foi vivamente desaconselhado pelo reformador Guillaume Farel (na altura de 47 anos de idade). O caminho para Estrasburgo encontrava-se inseguro por causa da guerra. A Genebra que Calvino
encontra vive ainda a agitação dos conflitos entre Mamelucos e Confederados. João Calvino já tinha viajado até Estrasburgo durante as guerras otomanas, e passado através dos cantões da Suíça. A quando da sua estadia em Genebra, Guillaume Farel pediu ajuda a Calvino na sua causa pela igreja. Calvino escreveu sobre este pedido: "senti como se Deus no céu tivesse colocado a sua poderosa mão sobre mim para barrar-me o caminho"". 18 meses depois, as mudanças de Calvino e Farel levariam à expulsão de ambos.

A disputa teológica de Lausanne

Entre 1 e 8 de Outubro de 1536, tem lugar na Catedral de Notre-Dame em Lausanne uma disputa teológica entre protestantes e católicos, na qual Calvino e Farel vão participar. Este tipo de conferências de disputa tem por modelo os debates que Ulrich Zwingli tinha organizado em Zurique (1523) e Berna (1528). Do lado católico encontra-se Pierre Caroli, que iria acusar, em Berna, Calvino e Farel de heresia. Calvino é também acusado de arianismo.

A saída atribulada de Genebra

A 16 de Janeiro de 1537, as autoridades da cidade de Genebra aprovam o documento escrito pelo líder protestante Farell, que se destina a servir de confissão de fé e orientação para todos os habitantes de Genebra. Calvino faz também algumas sugestões, parte das quais são rejeitadas. Cerca de vinte artigos dispõem, entre outras coisas, que os idolatras, querulantes, assassinos, ladrões, bêbados (entre outros) sejam futuramente excomungados. As lojas devem fechar ao domingo, assim que soem os sinos da missa. Estas disposições, apesar de aceites pelas
autoridades vão criar atritos com Farell e Calvino. O estigma da excomunhão é extremamente discriminador e destruidor de relações sociais no século XVI. Em Março, os líderes anabaptistas de origem holandesa Hermann de Gerbihan e Benoît d'Anglen são expulsos de Genebra, juntamente com os seus seguidores. Em Abril de 1537, por sugestão de Calvino, é constituido um "syndic" (síndico) que tem por objectivo ir de casa em casa e inquirir sobre a confissão dos moradores. A ação é contestada. Alguns moradores recusam-se a pronunciar-se sobre a sua fé. Em
junho de 1537 as autoridades de Genebra decidem que o Domingo é o único dia feriado. Futuramente nenhum outro feriado será considerado. 30 de Outubro é definido como o prazo para todos os moradores de Genebra se pronunciarem quanto à sua religião. Aqueles que não reconhecem os decretos de Farell são obrigados a deixar a cidade em 12 de Novembro. Após esta data, a situação complica-se para Farell e Calvino. Particularmente provocante é o fato de um estrangeiro (francês), como Calvino, decidir sobre a excomunhão e expulsão de habitantes naturais de Genebra. As autoridades, perante estes protestos, passam a ser mais críticas para com os líderes protestantes. A 3 de Fevereiro de 1538 são eleitos para as autoridades da cidade de Genebra 4 pessoas que são inimigos de Calvino e dos protestantes. Em Março, estas novas autoridades proíbem Calvino e Farell de se pronunciarem sobre assuntos não religiosos. Calvino e Farell negam-se a celebrar a comunhão de acordo com a tradição de Berna. São proibidos de celebrar a missa. No entanto, no Domingo seguinte, 21 de Abril de 1538, Farell e Calvino celebram a missa como habitualmente, Farell na Igreja de Saint-Gervais e Calvino na de Saint-Pierre. As autoridades dar-lhes-ão três dias para saírem da cidade.

Estrasburgo

Em 1538, Farell irá refugiar-se em Neuchâtel. Calvino dirige-se a Estrasburgo, após ter inicialmente pretendido ir para Basiléia. Estrasburgo era na altura parte da zona de língua alemã, mas a proximidade da fronteira com a França
significava que ali se tinha desenvolvido uma comunidade de exilados franceses. Tal como em Genebra Farell reconhecera o potencial de Calvino, em Estrasburgo Martin Bucer será o protetor de Calvino. Durante três anos Calvino dirigiu em Estrasburgo uma igreja de protestantes franceses, a convite de Bucer. Segundo o biógrafo Courvoisier, Estrasburgo é a cidade onde Calvino se torna verdadeiramente Calvino. O seu sistema de pensamento é aqui consubstanciado em algo de mais marcadamente original. A sua obra Instituto é aqui re-editada 1539). É agora três vezes maior do que a primeira edição. Em Outubro de 1539, Pierre Caroli chega a Estrasburgo, onde permanece pouco tempo. Caroli e Calvino, inimigos desde há anos, têm uma disputa. Caroli está agora algures entre o catolicismo e o protestantismo. Ele acusa Calvino de o ter confundido na sua fé. Calvino sofre uma crise nervosa. Neste Outono de 1539, Calvino escreve também um comentário à carta de Paulo aos Romanos. Este tema é particularmente querido do
protestantismo, porque ali se encontra a justificação através da fé como a base de sustentação do movimento protestante, pois somente a fé salva e justifica. A igreja é por este prisma mais uma comunidade de crentes do que um enquadramento jurídico. Os sacramentos só recebem o seu sentido através da fé. Sem fé não têm qualquer efeito. Já Lutero tinha destacado a carta de Paulo aos romanos como o cerne do Novo Testamento e o mais alto do evangelho. Em Estrasburgo, Calvino casa-se em Agosto de 1540 com a viúva Idelette de Bure, que tinha sido previamente adepta do anabaptismo. Traz duas crianças do seu prévio casamento. Calvino tem 31 anos de idade. A cerimônia do casamento foi dirigida por Guillaume Farel. Em 1541 a peste negra (ou peste bubônica) recrudesce em Estrasburgo. Idelette e as duas crianças procuram abrigo em casa de um irmão dela, nas redondezas.

Regresso a Genebra

Após a expulsão de Calvino, Genebra tinha adotado os ritos de Berna. O natal, ascensão de Cristo e outras festividades cristãs voltaram a ser praticadas. Mas os católicos e os anabaptistas continuavam a ser perseguidos e "convidados" a
deixar a cidade. A 18 de Março de 1539 o jogo tinha sido proibido em Genebra. Pedintes e vagabundos eram expulsos da cidade. A ausência de Calvino não tinha significado qualquer laxismo na moral estrita imposta na cidade. As relações de Genebra com Berna permanecem tensas. Entretanto, os líderes que se opunham a Calvino (os chamados "artichoques") começam a perder influência. São acusados de simpatia por Berna. Jean Philip, um de seus líderes, é torturado e decapitado em 1540. Os oponentes, favoráveis a Calvino, chamados de "Guillermins" ganham o
poder. Calvino foi convidado em Outubro de 1540 a regressar a Genebra, para reaver o seu posto na igreja, tal como o tivera antes da expulsão. A 13 de Setembro de 1541 Calvino chegou, pela segunda vez, a Genebra, mas, desta vez,
definitivamente. Começou, então, a organizar e estruturar, de acordo com as linhas bíblicas, os ministérios e a ação dos professores e diáconos.

Zelo Religioso Radical

São ainda de 1541 as propostas de Calvino, no sentido da reorganização da igreja. As "Ordonnances de 1541" dispõem a formação de 4 corpos:

Pasteurs (pastores, que pregam)
Docteurs (ensinam)
Anciens (os mais velhos, que chamam à ordem aqueles que prevaricam)
Diacres (diáconos, que ocupam-se dos pobres e doentes) - mendigar é estritamente proibido

É decidida também a criação de um consistório - composto de elementos da igreja e de laicos - que se reúne regularmente para julgar os comportamentos individuais, como um tribunal, "de acordo com a palavra de Deus", sendo a excomunhão de pessoas a mais grave sentença que pode decidir. A eucaristia só é praticada 4 vezes por ano. Em 1542, Calvino publica em Genebra o seu livro de catecismo: "Catéchisme de l'Église de Genève, c'est-a-dire, le formulaire d'instruire les enfants en la chrétienté". A chave do projeto de Calvino passa pela pedagogia. O seu objetivo é a profunda transformação das mentalidades. Cada resquício de superstição, de práticas de magia, ou de catolicismo é perseguido como idolatria. O consistório, do qual Calvino fazia parte, ocupava-se desses e de outros casos. Refiram-se alguns: Em 1542, uma mulher chamada Jeanne Petreman é acusada de se recusar a participar da eucaristia, de dizer o pai-nosso em língua "romana" e de proclamar que a Virgem Maria era a sua defensora. Diz também que se nega a acreditar noutra fé que não a sua. É excomungada.

Em 2 de Setembro de 1546, aparece em Genebra um franciscano que pedia na rua um jantar em nome de Deus e da Virgem Maria. Devemos pressupor que ele obteve o seu jantar mas foi também levado ao consistório, que logo constatou que o "papista" mal conhecia a bíblia, além de ser inofensivo. Foi expulso da cidade, para o lado da fronteira, com os católicos.

A 23 de Junho de 1547 comparecem perante o consistório várias mulheres que tinham sido apanhadas a dançar - uma delas era a esposa de um dos membros do consistório. O caso ganhou contornos de escândalo. As mulheres foram condenadas a alguns dias de prisão, apesar de vários apelos. Em reação à decisão, são colocados na cidade cartazes contra Calvino. O autor dos cartazes, Jacques Gruet, é torturado. Depois de confessar a sua autoria, é executado.

Em 1548, Louis Le Barbier é interrogado sobre a sua fé. Declara que não tem fé. Entretanto, descobrem livros de bruxaria e de escárnio na sua posse. É admoestado perante o consistório mas não será perseguido. Os nomes de batismo são regulamentados. Têm de ser nomes que aparecem na Bíblia. Um decreto de 22 de Novembro de 1546 dispõe que certos nomes são proibidos, entre os quais:

Suaire, Claude, Mama (lembram a idolatria)
Baptistes, Juge, Evangéliste
Dieu le Fils, Espoir, Emmanuel, Sauveur, Jésus (destinados apenas a nosso senhor)
Sépulcre, Croix, Noel, Pâques, Chrétien (nomes estúpidos ou absurdos)

O luxo e a pompa são desprezados. Em setembro de 1558, Nicolas de Gallars, um amigo de Calvino, inicia uma grande campanha na cidade em desprezo do supérfluo, as modas entre as mulheres e as más leituras. São queimados vários exemplares do livro "Amadis de Gaula", na posse de um comerciante. O zelo religioso tomava a forma de censura moral.

Peste Negra em Genebra

Em 1542, há um surto de peste negra em Genebra. A peste negra permanecia então um fenômeno incompreensível - para lidar com a epidemia, era normal que se multiplicassem os casos de feitiçaria e de rituais contra a peste. Este tipo de práticas já era conhecido em Genebra antes da reforma e, tal como antes, os protestantes replicam com a perseguição, tortura e morte dos suspeitos. Aquelas que são identificadas como bruxas são queimadas vivas, enquanto se propaga a idéia de que estas desgraças são um castigo de Deus. Em 1542, o filho de Calvino, Jacques, morre pouco depois de nascer em 28 de
Julho.

Crescimento demográfico

A partir de 1542 e sobretudo na década de 1550, a cidade de Genebra vai conhecer um grande crescimento demográfico, com a chegada de refugiados franceses, protestantes perseguidos em França. Conseqüentemente, há uma fase de expansão econômica (relojoaria, tecelagem...) e a língua francesa começa a ter preponderância sobre o dialeto franco-provençal da região. Mas é também uma época marcada pelo crescimento de sentimentos xenófobos, em parte devidos a ressentimentos contra Calvino: Em Janeiro de 1546 é preso Pierre Ameaux, que tinha injuriado publicamente Calvino, ao referir-se a este como um "picard", pregador de uma falsa fé.

Um outro senhor Ameaux é preso mais tarde por razões semelhantes. Este senhor tinha boas razões para não gostar do extremo zelo religioso imposto por Calvino, já que era fabricante de cartas de jogo. Foi condenado a percorrer a cidade de uma ponta à outra, descalço, em camisa, com uma vela na mão. A 23 de Setembro de 1547, François Favre comparece em tribunal por ter afirmado que Calvino se auto-nomeara bispo de Genebra e que os franceses tinham
escravizado a sua cidade natal. Mais tarde, em 1548, um senhor chamado Nicole Bromet declara que os franceses
deveriam ser todos colocados num barco e enviados pelo rio Reno abaixo. Em 1547, Henrique II de França sucede a Francisco I. Henrique será um rei menos reconhecido, em comparação com Francisco. É caracterizado como menos
carismático, menos entusiasta pelas artes e ciências, mais introvertido e frio. Em 29 de Março de 1549 morre Idellete Calvino, após doença. Calvino não voltará a casar. Dedica-se ainda mais decididamente ao trabalho. Em 1550 a repressão dos huguenotes em França cresce. É estabelecida a chambre ardente. A censura é fortalecida.

O caso Miguel Servet

Miguel Servet era um homem de cultura, um médico, interessado, entre muitas outras coisas, na religião. Como livre pensador, defendia que o dogma da Trindade não fazia qualquer sentido, sendo apenas um sofisma inventado no
Primeiro Concílio de Niceia. Será perseguido pela Igreja Católica em França, através da Inquisição, por causa das suas tese. Escapa e dirige-se a Genebra, mas os protestantes mostraram-se não menos intolerantes para com as suas idéias. A história da ligação entre Servet e Calvino começa já em 1534, ano em que ambos estiveram em Paris. Esteve nessa altura planeado um encontro que não chegou a realizar-se. No entanto, trocariam correspondência por vários anos. O debate foi tornando-se numa azeda discussão. Um dos pontos principais da discussão epistolar continuava a ser a Santíssima Trindade. Perante a sua proposta para que Calvino lesse o manuscrito do seu Livro Restitutio" (tendo-o enviado pelo correio), Calvino diz-lhe que deveria ler o seu "Institutio". Servet fê-lo e escreveu comentários críticos nas margens do texto que foram depois enviados a Calvino. Calvino recebeu o manuscrito mas não lhe respondeu. Nem sequer devolveu o manuscrito do Restitutio, que Servet lhe pedia que remetesse. Calvino não tinha aparentemente argumentos e manteve o seu silêncio, cultivando o ódio em relação a Servet e às suas "heresias". Teria, mais tarde, a sua oportunidade de se vingar. No princípio de Abril de 1553 a Inquisição francesa recebeu
misteriosamente a posse de documentos que compromentiam Servet. Entre eles, as cartas de Servet a Calvino. Ainda em 5 de Abril, Servet é ouvido pelos inquisidores. A 7 de Abril, porém, consegue escapar-se da prisão. Dirigiu-se a
Genebra, talvez por pensar que entre os protestantes estaria a salvo da Inquisição. Enganou-se. Foi preso pelas autoridades da cidade de Genebra a 13 de Agosto. O seu julgamento tornou-se um caso discutido. Foi pedida a opinião a padres de Berna, Zurique e outras cidades. A maioria desprezava Servet - a trindade era, na sua opinião, indiscutível. Calvino, também acusado pelos católicos de arianismo, poderá ter visto aqui a oportunidade de mostrar que defendia o conceito trinitário, ao mesmo tempo que mostraria que também estava empenhado em perseguir os "heréticos". Um herético do lado de lá da fronteira também é um herético dentro da cidade. A 27 de Outubro de 1553 o "herético"
Miguel Servet é queimado vivo em Genebra.

Relacionamento com a reforma inglesa

Por volta de 1550, Calvino escreve ao rei Eduardo VI de Inglaterra, um protestante, encorajando-o nas suas reformas. O rei Eduardo VI fez acolher protestantes franceses, perseguidos no país natal. Após o reinado de Eduardo VI
(1547-1553) o catolicismo regressa à Inglaterra sob a liderança de Maria Tudor.

Novas dificuldades

Entre 1553 e 1555, em Genebra, a relação tensa entre a igreja - particularmente o consistório, onde Calvino é uma figura de relevo - e as autoridades seculares da cidade, eleitas entre os habitantes (ricos) da cidade, atinge o seu auge. Discutia-se, então, a questão de saber se o consistório teria ou não o direito de excomungar pessoas, algo que se vinha a passar com relativa freqüência. As amargas trocas de palavras entre estes dois pólos multiplicaram-se. Por um lado, o zelo religioso dos Calvinistas, do outro, a autoridade política da cidade. Em Janeiro de 1555 há uma procissão noturna de pessoas em Genebra, caminhando de vela na mão, com a pretensão de ridicularizar Calvino.

Apesar disso, e em parte por causa do peso relativo da população protestante francesa que se tinha refugiado na cidade, as eleições dos 4 novos "Syndics" de Genebra em Fevereiro de 1555 é favorável aos Calvinistas, que se impõem contra os "Enfants de Genève" sob a liderança de Perrin. Após as eleições, porém, há desacatos na rua entre as duas partes. Perrin e outros líderes da revolta são presos e serão decapitados e esquartejados. Os pedaços dos cadáveres foram, depois, exibidos nas ruas da cidade. Também a doutrina da Predestinação foi muito atacada nestes anos, principalmente por um monge carmelita chamado Hiérome Bolsec, nascido em Paris, que se tinha estabelecido em Genebra. Argumentava que se Deus fosse o responsável por tudo o que se passa, então, também seria
responsável pelos nossos pecados. Calvino responde que nunca disse isso e as autoridades apóiam-no. Em Berna, os críticos de Calvino são expulsos da cidade em 1555.

Em 1555 são erguidas as primeiras igrejas calvinistas em França, nomeadamente em Paris, Meaux, Angers, Poitiers e Loudun. Nos três anos seguintes surgem as comunidades de Orleães, Rouen, La Rochelle, Toulouse, Rennes e Lyon.

A 8 de Junho de 1558, Calvino escreve a Antoine de Bourbon, o Rei de Navarra e consorte de Jeanne d'Albret, exortando-o a seguir na sua vida privada os mesmos valores ascéticos que os seus súbditos. Entre 26 e 29 de Maio de 1559 realiza-se em Paris um sínodo nacional protestante. Cerca de 30 paróquias aparecem aí representadas. O sínodo será responsável pela elaboração de um texto de linhas orientadoras (com a participação de Calvino na sua criação), que se chamará Confession de La Rochelle (texto confirmado nesta cidade em 1571). Em 1559 Calvino fundou uma escola e um hospital. Em Abril de 1559 é assinado o pacto de paz entre a França e a Espanha, em Cateau-Cambrésis.

Falecimento

Nos seus últimos anos de vida, a saúde de Calvino começou a vacilar. Sofrendo de enxaquecas, hemorragia pulmonar, gota e pedras nos rins foi, por vezes, levado carregado para o púlpito. Calvino continuava a ter detractores declarados que lhe dirigiam ameaças constantes. Entretanto, apreciava passar os seus tempos livres no lago de Genebra, lendo as
escrituras e bebendo vinho tinto. No final de sua vida disse a seus amigos que estavam preocupados com o seu regime diário de trabalho: "Qual quê? Querem que o senhor me encontre ocioso quando ele chegar?" João Calvino faleceu em Genebra a 27 de Maio de 1564. Foi enterrado numa sepultura simples e não marcada, conforme o seu próprio pedido.

Publicações de Calvino

De Clementia - Obra anotada de Séneca (1532)
Psychopannychia (1534)
Institutos da Religião Cristã
publicado em Latim: 1536
publicado em Francês: 1541
Catéchisme de l'Église de Genève (1542)
Calvino também publicou vários volumes de comentários sobre a Bíblia

Calvinismo
(Artigo principal: Calvinismo)

As suas publicações espalharam as suas ideias de uma igreja correctamente reformada, para muitas partes da Europa. O calvinismo tornou-se a religião maioritária na Escócia (Ver: John Knox), nos Países Baixos e em partes da
Alemanha, tendo sido influente na Hungria e na Polónia. A maioria dos colonos de certas zonas do novo mundo, como Nova Inglaterra, eram igualmente calvinistas, incluindo os puritanos e os colonos neerlandeses que se estabeleceram em Nova Amsterdam (Nova Iorque). A África do Sul foi fundada em grande parte por colonos neerlandeses (também com franceses e portugueses) calvinistas do início de século XVII, que ficaram conhecidos como Afrikaners.

Na França, os calvinistas eram chamados de Huguenotes. A Serra Leoa foi em grande parte colonizada por colonos calvinistas da Nova Escócia. John Marrant tinha organizado a congregação local sob o auspício da conexão Huntingdon. Os colonos eram na sua maioria loialistas negros, afro-americanos que tinham combatido pelos ingleses na guerra da independência americana.

Biografia de Mahatma Gandhi

Mahatma Gandhi (1869 – 1948)

Mohandas Karamchand Gandhi, mais conhecido como "Mahatma" (grande alma) Gandhi, liderou mais de 250 milhões de hindus. Mohandas Karamchand Gandhi nasceu no dia 2 de outubro de 1869 na Índia ocidental. Seu pai era um político local, e a mãe dele era uma Vaishnavite religiosa. À idade de 13, Mohandas foi casado com uma menina da mesma idade dele e começou uma vida de sexo ativa. Depois de um pouco de educação indistinta foi decidido que ele deveria ir para a Inglaterra para estudar Direito. Ele ganhou a permissão da mãe, prometendo se conter de vinho, mulheres e carne, mas ele desafiou os regulamentos de sua casta que proibiam a viagem para a Inglaterra.

Cursou a faculdade de Direito em Londres. Procurando um restaurante vegetariano, havia descoberto na filosofia de Henry Salt um argumento para o Vegetarianismo e se tornou convencido. Ele organizou um clube vegetariano e as pessoas se encontravam com teósofos e interesses altruísticos. Sua primeira leitura do Bhagavad-Gita estava em Edwin Arnold, a tradução poética: "A Canção Celestial". Esta escritura hindu e o Sermão da Montanha, se tornaram mais tarde as suas bíblias e guias de viagens espirituais. Ele memorizou o Gita em suas meditações diárias, logo após escovar os dentes e freqüentemente recitou seu sânscrito original em suas orações. Quando Gandhi voltou à Índia em 1891 a mãe dele houvera falecido, e ele não obteve êxito a exercer na Índia sua profissão legal como advogado devido sua timidez. Assim ele aproveitou a oportunidade de ir para África do Sul durante um ano, representando uma firma hindu em Natal durante um processo judicial naquela terra . África do Sul, imóvel notório para discriminação racial, deu para Gandhi os insultos que despertaram sua consciência social. Como advogado Gandhi fez o melhor para descobrir os fatos.

Depois de resolver um caso difícil, ele passou deste modo a ser "visto" e comentado. Segundo ele: " eu tive um aprendizado que me levou a descobrir o lado melhor da natureza humana e entrar nos corações dos homens. Eu percebi que a verdadeira função de um advogado era unir rivais de festas a parte". Ele também teimou em receber a verdade dos clientes dele, e se ele descobrisse que eles tivessem mentido, ele derrubaria os casos de seus clientes. Acreditava que o dever do advogado era ajudar o tribunal a descobrir a verdade, não tentar provar o culpado inocente. Ao término do ano durante uma festa de adeus antes que ele fosse viajar para a Índia, Gandhi notou no jornal que uma lei estava sendo proposta e que privaria os hindus do voto. Os amigos dele o insistiram: "fique e conduza a briga para os direitos de nossos compatriotas na África do Sul." Gandhi fundou em Natal o Congresso hindu em 1894, e seus esforços eram uma vigorosa advertência para a imprensa. Quando Gandhi retornou à África após buscar a esposa e filhos na Índia em janeiro de 1897,os sul-africanos tentaram interromper suas atividades de maneiras sórdidas, como subornando e ameaçando o agropecuário Dada Abdulla Sheth; mas Dada Abdulla era cliente de Gandhi, e finalmente depois de um período de quarentena, Gandhi recebeu permissão para aterrissar. A turba de espera reconheceu Gandhi, e alguns brancos começaram a espancá-lo até que a esposa do Superintendente Policial veio ao salvamento dele. A turba ameaçou lincha-lo, mas Gandhi escapou usando um disfarce.

Depois ele se recusou processar os que haviam lhe espancado, permanecendo firme ao principio de ego-restrição com respeito a uma pessoa infratora; além de que, tinha sido os líderes da comunidade e do governo Natal que haviam causado o problema. Não obstante Gandhi sentia o dever de apoiar o povo britânico durante a Guerra bôer, organizando e conduzindo um Corpo médico hindu para alimentar os feridos no campo de batalha. Quando trezentos hindus e oitocentos criados foram contratados, os brancos foram surpreendidos. Gandhi acabou permanecendo vinte anos na África do Sul defendendo a minoria hindu, liderando a luta de seu povo pelos seus direitos . Ele experimentou o celibato durante trinta anos de sua vida, e em 1906 levou o juramento de Brahmacharya para o resto da vida dele. O primeiro uso de desobediência civil em massa ocorreu em setembro de 1906.

O Governo de Transvaal quis registrar a população hindu inteira. Os hindus formaram uma massa que se encontrou no Teatro Imperial de Joanesburgo; eles estavam furiosos com a ordem humilhante, e alguns ameaçaram exercer uma resposta violenta a ordem injusta. Porém, eles decidiram em grupo a se recusarem a obedecer as providências de inscrição; havia unanimidade completa, apenas alguns se registraram. Ainda, Gandhi sugeriu aos indianos que levassem um penhor em nome de Deus; embora eles fossem hindus e muçulmanos, todos acreditavam em um e no mesmo Deus. Gandhi decidiu chamar esta técnica de recusar submeter a injustiça de Satyagraha que quer dizer literalmente: "força da verdade" . Uma semana depois de desobediência, as mulheres Asiáticas foram dispensadas do registro. Quando o governo de Transvaal finalmente pôs em pratica o Ato de Inscrição Asiático em 1907, Gandhi e vários outros hindus foram presos. A pena dele foi de só dois meses sem trabalho duro, dedicando-se durante esse período à leitura. Durante a vida , Gandhi passaria um total de mais de seis anos como prisioneiro. Enquanto lendo em prisão Gandhi descobriu a "Desobediência Civil" de Thoreau e os trabalhos de Tolstoy.

Logo ele começou a perceber cada vez mais as possibilidades infinitas do "amor universal". O movimento de protesto para a conquista dos direitos indianos na África do Sul continuou crescendo; em um certo ponto foram presos 2.500 indianos dos 13,000 existentes na província, enquanto 6,000 tinham fugido de Transvaal. Sendo civil aos oponentes durante a desobediência, Gandhi desenvolveu o uso de ahimsa que significa "sem dor " e normalmente é traduzido "não violência ". Gandhi seguiu o Ódio de preceito " o pecado e não o pecador . Desde que nós vivemos espiritualmente, ferir ou atacar outra pessoa são atacar a si mesmo. Embora nós possamos atacar um sistema injusto, nós sempre temos que amar as pessoas envolvidas. Assim ' ahimsa' é a base da procura para verdade". Gandhi também foi atraído a vida agrícola simples. Ele começou duas comunidades rurais em Satyagrahis-Phoenix Farm e Tolstoy Farm. Escreveu e editou o diário "Opinião indiana", para elucidar os princípios e a prática de Satyagraha. Três assuntos foram apontados: a indagação para direitos dos hindus na África do Sul; sobre a proibição de imigrantes Asiáticos; e por fim, sobre o invalidamento de todos casamentos não Cristãos. Em novembro de 1913 Gandhi conduziu uma marcha com mais de duas mil pessoas. Gandhi foi preso e solto por pagar fiança. Logo após o prenderam novamente e o libertaram, e novamente foi preso depois de quatro dias de liberdade.

Foi então condenado ao trabalho forçado durante três meses, mas as greves continuaram, envolvendo aproximadamente 50.000 operários e milhares de índianos foram escravizados na prisão. Alguns missionários Cristãos doaram todo seu dinheiro para o movimento. Foram libertados Gandhi e outros líderes, e foi anunciada outra marcha. Porém, Gandhi recusou tirar proveito através de uma greve em uma estrada de ferro dos "brancos" (já que certa vez Mohandas Gandhi havia sido expulso de um compartimento de primeira classe de um trem, ao se recusar a "ceder" o seu lugar à um branco e se mover para a terceira classe), sendo que Gandhi cancelou a marcha, apesar de estar "quebrando" o penhor de Sujeira (1908). "Perdão é o ornamento do valente", Gandhi explicou. Finalmente através de negociação os assuntos estavam resolvidos. Todos os matrimônios independente da religião eram válidos; os impostos em atrasos foram cancelados e inclusive os operários contratados; e foi concedida mais liberdade aos indianos. Gandhi constatou o poder do método de Satyagraha e profetizou como poderia transformar a civilização moderna. "É uma força que, se ficasse universal, revolucionaria ideais sociais e anularia despotismos e o militarismo." Enquanto isso a Índia ainda estava sofrendo debaixo de regra colonial britânica. Gandhi sugere que a Índia pode ganhar sua independência por meios não violentos e por via da ego-confianca.

Ele rejeita a força bruta e sua opressão e declara que a força da alma ou amor e que se mantém a unidade das pessoas em paz e harmonia. De volta a Índia em 1915, Gandhi passou a exercer o papel de conscientizador da sociedade hindu e muçulmana na luta pacífica pela independência indiana, baseada no uso da não violência. O uso da não violência baseava-se no uso da desobediência civil. Gandhi estava pronto para morar nas ruas sujas intocáveis se necessário, mas um benfeitor anônimo doou bastante dinheiro que duraria um ano. Passa a ajudar os necessitados e as crianças carentes. Em 1917 Gandhi ajudou as pessoas que trabalhavam em tecelagens, diante exploração injusta dos proprietários sobre esses trabalhadores. Ele foi detido, mas logo perceberam que o Mahatma era o único que poderia controlar as multidões. Reformas foram ganhas novamente por meio da desobediência civil. Os trabalhadores têxteis de Ahmedabad também eram economicamente oprimidos.

Gandhi sugeriu uma greve, e como os trabalhadores temiam as conseqüências dela, ele faz um jejum para encorajar que eles continuem a greve. Gandhi explicou que ele não jejuou para coagir o oponente, mas fortalecer ou reformar esses que o amaram. Ele não acreditou que jejuando resultaria em salários mais altos. O primeiro desafio de Gandhi contra o governo britânico na Índia estava em resposta contra os poderes arbitrários do Rowlatt Act em 1919. A Índia tinha cooperado com a Inglaterra durante a guerra, no entanto estavam sendo reduzidas as liberdades civis. Guiado por um sonho ou experiência interna Gandhi decidiu pedir um dia de greve geral. Porém, a filosofia de Mahatma não foi bem entendida pelas massas, e violências estouraram em vários lugares. O Mahatma se arrependeu declarando que tinha feito "um erro de cálculo", e ele cancelou a campanha. Gandhi fundou e publicou dois semanários sem anúncios - a Índia Jovem em inglês e o Navajivan em Gujarati. Em 1920 Gandhi iniciou uma campanha de âmbito nacional de não cooperação com o governo britânico que para o camponês significou o não pagamento de impostos e nenhuma compra de bebida alcóolica, desde que o governo ganhou toda a renda de sua venda. Gandhi realizou várias viagens ao longo de todo território índio, com a função de conseguir a conscientização em massa de todas as pessoas, mostrando a necessidade da prática da desobediência civil e do uso da não violência.

Durante finais dos anos 20, Ghandi escreve uma auto-bibliografia retratando suas experiências vividas. Ele é bastante sincero nesse livro, chegando ao ponto de se humilhar pelos erros cometidos, mostrando o esforço de os superar. Nas falas ele mostra o programa de cinco pontos dos dedos da mão : "igualdade; nenhum uso de álcool ou droga; unidade hindu-mulçumano; amizade; e igualdade para as mulheres. Esses pontos (os cinco dedos representando o sistema) estavam conectados ao pulso, simbolizando a não violência. Finalmente em 1928, ele anunciou uma campanha de Satyagraha em Bardoli contra o aumento de 22% em impostos britânicos. As pessoas se recusaram a pagar os impostos, sendo repreendidas pelo governo britânico. No entanto os indianos continuavam não violentos. Finalmente, após vários meses, os britânicos cancelaram os aumentos, libertaram os prisioneiros, e devolveram as terras e propriedades confiscadas; e os camponeses voltaram a pagar seus tributos. Ainda nesse ano, o congresso indiano quis a autonomia da Índia e considerou guerra aos ingleses para conseguir esse fim. Gandhi recusou a apoiar uma atitude como esta, porém declarou que se a Índia não se tornasse um Estado independente ao final de 1929, então ele exigiria sua independência. Por conseguinte em 1930, Mahatma Gandhi informou ao vice-rei, de que a desobediência civil em massa iniciaria no dia 11 de março. "Minha ambição é nada menos que converter as pessoas britânicas à não violência, e assim lhe faz ver o mal que fizeram para a Índia. Eu não busco danificar as pessoas.". Gandhi decidiu desobedecer as Leis Salgadas que proibiram os índios de fazer seu próprio sal; este monopólio britânico golpeou especialmente ao pobre.

Começando com setenta e oito sócios, Gandhi iniciou uma marcha para o mar de 200 milhas, que levaria mais de vinte e quatro dias. Milhares tinham se juntado no começo, e vários milhares uniram-se durante a marcha. Primeiro Gandhi e, então outros juntaram um pouco de água salgada na beira-mar em panelas, deixando ao sol para secar. Em Bombaim o Congresso teve panelas no telhado; 60.000 pessoas juntaram-se ao movimento, e foram presas centenas delas. Em Karachi onde 50.000 assistiram o sal sendo feito, a multidão era tão espessa que impedia a policia de efetuar alguma apreensão. As prisões estavam lotadas com pelo menos 60,000 ofensores. Incrivelmente lá "não havia praticamente nenhuma violência por parte da população; as pessoas não queriam que Gandhi cancelasse o movimento. Gandhi foi preso antes de que pudesse invadir os Trabalhos Dharasana Sal, mas o amigo dele Sr. Sarojini Naidu conduziu 2.500 voluntários e os advertiu não resistir às interferências da polícia.

De acordo com uma testemunha ocular, o repórter Miller de Webb, eles continuaram marchando até serem detidos abaixo do aco-shod lathis, por quatrocentos policiais, mas eles não tentaram lutar . Tagore declarou que a Europa tinha perdido a moral e o prestígio na Ásia. Logo, mais de 100.000 índios estavam na prisão, incluindo quase todos líderes. Gandhi foi chamado à uma reunião com o Vice-rei Irwin em 1931, e eles firmaram um acordo em março. A Desobediência civil foi cancelada; foram libertados os prisioneiros; a fabricação de sal foi permitida na costa; e os líderes do Congresso assistiriam à próxima Conferência de Mesa Redonda em Londres. Gandhi viajou para Londres onde ele conheceu Charlie Chaplin, George Bernard Shaw, e Maria Montessori, entre outros. Em transmissão de rádio para os Estados Unidos, ele falou que a força não violenta é um modo mais consistente, humano e digno.

Discutindo relações com os britânicos, ele disse que ele não quis somente a independência, mas também a interdependência voluntária baseada no amor. Enquanto, preso em 1932, Gandhi entrou em um jejum em nome dos Harijans porque a eles tinha sido determinado um eleitorado separado. Poderia ser um jejum até morte, a menos que ele pudesse despertar a consciência hindu. O assunto estava resolvido, e até mesmo templos hindus intocáveis eram abertos pela primeira vez. No próximo ano, Gandhi fez um jejum de vinte e um dias para purificação, e os funcionários britânicos, amedrontados de que ele pudesse morrer, colocaram-no na prisão. Gandhi anunciou que não se ocuparia da desobediência civil até que sua oração fosse completada. Mesmo com a Segunda Guerra Mundial se aproximando, Gandhi havia confirmado seus princípios pacifistas. Ele mostrou como a Abissínia (Etiópia) poderia ter usado a não violência contra Mussolini, e ele recomendou isto para os Tchecos e para os Chineses. "Se é valente, como é, para morrer a um homem que luta contra preconceitos, é ainda bravo para recusar briga e ainda recusar se render ao usurpador" Já em 1938 ele exortou os judeus para defender os direitos deles e se necessário morrer como mártires. "Um manhunt degradante pode ser transformado em um posto tranqüilo e determinado, oferecendo aos homens e mulheres desarmados, a força dada a eles por Jehovah." Mahatma recomenda o uso de Métodos não violentos aos britânicos para combater Hitler; já que não podia dar seu apoio a qualquer tipo de guerra ou matança. O Congresso prometeu a Gandhi que ele ficaria fora da prisão, mas outros 23.223 indianos foram presos, inclusive Vinoba Bhave, Nehru, e Patel. Em 1942, Gandhi sugeriu modos para resistir não violentamente aos japoneses.

Ele propôs uma atração às pessoas japonesas, a causa da "federação mundial da fraternidade sem a qual não poderia haver nenhuma esperança para a humanidade". Porém, Gandhi continuou exercendo uma revolução não violenta para a Índia, e em 1942 ele e outros lideres foram presos. Ele decidiu jejuar novamente, sendo que apenas ele sobreviveu. Quando a guerra terminou, ele afirmou da necessidade de "uma paz real baseada na liberdade e igualdade de todas as raças e nações". Nos últimos anos de sua vida, se tornou mais do que um socialista. Ele havia dito, "Violência é criada por desigualdade, a não violência pela igualdade". Ele foi a uma peregrinação para Noakhali para ajudar aos pobres.Independência para a Índia era agora iminente, mas Jinnah o Líder muçulmano estava exigindo a criação de um estado separado: o Paquistão. Gandhi prega para unidade e tolerância, até mesmo lendo às reuniões um Alcorão de orações. Os hindus o atacaram porque pensaram que ele era a favor dos muçulmanos, e os muçulmanos exigindo dele a criação do Paquistão. Gandhi foi para Calcutá para acalmar a discussão e a violência entre hindus e muçulmanos. Mais uma vez ele jejuou até que os lideres da comunidade assinaram um acordo para manter a paz. Antes de que eles assinassem, ele os advertiu de que se rebelassem ele jejuaria até a morte.

Gandhi também, em janeiro de 1948 fez muito para acalmar os conflitos entre hindus e muçulmanos, permitindo a divisão da Índia em dois países. Embora este ódio religioso entristeceu a Gandhi, a Índia tinha conquistado sua independência no dia 15 de agosto de 1947 que realizando a maior revolução não violenta da historia mundial.

Finalmente, Gandhi era assassinado por um hindu enfurecido em 30 de janeiro de 1948 numa reunião de oração; com seu último suspiro o Mahatma cantou o nome de Deus.

14.1.06

Biografia de Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci (1452 - 1519)

"Os meus segredos." Era assim que, em 1482, um jovem artista se referia às suas aptidões, em carta enviada ao duque de Milão, Ludovico Sforza. Num tom frio e calculado, ele oferecia seus serviços para tempos de guerra e de paz. Dizia-se capaz de construir pontes portáteis para perseguir o inimigo, cavar túneis por baixo de rios e destruir fortalezas. Afirmava ter inventado um novo tipo de bombarda, uma carreta blindada e um navio à prova de bombas. Também tinha planos para a construção de estranha arma submarina de defesa e ataque. Além disso, proclamava que, em época de paz, poderia realizar obras de pintura e escultura ao nível de qualquer artista importante da época.

Ludovico mandou chamar o audacioso jovem que lhe escrevera e, assombrado, pôde confirmar a universalidade de seus conhecimentos. Leonardo da Vinci não exagerara sua apresentação; aliava a uma personalidade fascinante a capacidade de escultor, pintor, arquiteto, engenheiro, músico, anatomista, matemático, naturalista, inventor, astrônomo e filósofo.

Explorador de todos os ramos do conhecimento, Leonardo não concebia limites para seus sonhos ou fantasias. E disso resultou sua glória e tragédia. Idealizou inúmeros projetos, mas completou apenas alguns. Abandonava os trabalhos ao perceber que a execução não correspondia ao desejado. Sua vida foi repleta de fragmentos de obras, alguns extraordinários. Pouco antes de morrer, escreveria amargurado: "Nunca terminei um só trabalho".

Contudo, deixou cinco mil páginas de manuscritos que abrangem temas tão diversos como as causas das marés, o mecanismo do movimento do ar nos pulmões, os hábitos noturnos das corujas, as leis físicas da visão humana e a natureza da Lua. Apresentou, também, planos de urna máquina voadora, uma série de teoremas geométricos, diversos estudos hidráulicos, projeto para uso do vapor como meio de propulsão, poemas, fábulas e máximas filosóficas. Seu trabalho é completado por obras consagradas pela história da Arte, como a Mona Lisa e a última Ceia. (Pintou ainda: Baco, São João Batista, Leda, Santana, a Virgem e o Menino e A Virgem dos Rochedos.)

Leonardo nasceu a 15 de abril de 1452, na pequena vila de Vinci, perto de Florença. Filho ilegítimo de Piero da Vinci, escrivão do modesto vilarejo ao norte da Itália, manteve-se sempre muito apegado ao pai e à mãe, Caterina, que se casou, posteriormente, com Pieró del Vacca.
O extraordinário e diversificado talento de Leonardo manifestou-se nos primeiros anos de vida: belo e forte, era excelente esportista - ótimo nadador e cavaleiro; engenhoso artesão e mecânico, logo revelou seus dons inventivos; o desenho e a pintura também atraíram seu interesse, demonstrando seus dotes artísticos.

Em 1470, Piero da Vinci levou alguns desenhos do filho a Andrea del Verrocchio, célebre professor, embora um tanto medíocre como pintor. Del Verrocchio percebeu o talento de Leonardo e recebeu o jovem de dezoito anos em sua casa, corno aprendiz. Até 1477, Leonardo permaneceu sob a orientação do professor, aprendendo não só os segredos da pintura e da escultura, mas também técnicas artesanais (como as de ferreiro e de mecânico).
Os passos seguintes da vida de Leonardo não podem ser estabelecidos com muita precisão. Sabe-se, entretanto, que, após deixar o estúdio de Verrocchio, permaneceu vários anos em Florença, como protegido de um Medici, Lourenço, o Magnífico.

Talvez impelido por seu espírito aventureiro, ou por considerar que os conterrâneos não estavam apreciando devidamente seu talento (o projeto que elaborara para a canalização do Arno fora rejeitado por Lourenço), Leonardo resolveu mudar-se para Milão, onde Ludovico Sforza, o Mouro, tinha-se firmado no poder. E escreveu-lhe a carta de apresentação de suas habilidades.

Segundo alguns biógrafos, o principal :motivo da acolhida de Ludovico a Leonardo foi um projeto para erguimento de uma estátua em homenagem a Francesco Sforza, pai do duque. Outros historiadores, porém, afirmam ter sido o duque atraído sobretudo pelas habilidades musicais de Leonardo.

Em Milão, Leonardo pintou a Última Ceia, considerada por muitos sua obra prima. Conta-se a esse respeito que, impaciente com a demora de Leonardo em terminar essa obra, o prior do convento de Santa Maria delle Grazie (onde estava sendo executada) foi queixar-se ao duque Ludovico. Chamado ao palácio para as devidas explicações, Leonardo citou, entre os vários motivos para a delonga, a dificuldade de encontrar um modelo para fazer a figura de Judas. Afirmou então, que, se não houvesse outro recurso, tomaria por modelo o prior impaciente e importuno. O sacerdote calou-se e o artista pôde terminar sossegado o seu trabalho.

Em 1499, quando Milão foi conquistada por Luís XII, Leonardo abandonou a cidade. Depois de breve permanência em Mântua, onde contou com a proteção da duquesa Isabella Gonzaga, dirigiu-se a Veneza, residindo aí até abril de 1500. Informado da derrota definitiva e prisão do duque Ludovico Sforza, desistiu de voltar a Milão e seguiu para Florença. Só voltaria àquela cidade em 1506, a convite de Charles d'Amboise, marechal de Chaumont, e braço-direito do rei da França na Lombardia. Mas, em setembro do ano seguinte, regressou a Florença para resolver um problema de família: a divisão dos bens de seu pai, que falecera sem deixar testamento. Permaneceu na terra natal até 1511, fazendo nesse período amizade com Francesco Melzi, a quem confiaria, ao morrer, todos os seus manuscritos.

Em 1512, Leonardo resolveu transferir-se para Roma, onde havia intenso movimento cultural. Além disso, Leão X - um Mediei recém-eleito papa era seu grande admirador desde os primeiros tempos de Florença, e arranjou-lhe local adequado para seu trabalho e de seus alunos.

Aparentemente favorável, o ambiente romano acabou se revelando adverso a Leonardo. Talvez interessado na compressibilidade dos gases, mandava secar vísceras de animais e, enchendo-as de ar, por meio de um fole de ferreiro, estudava-lhes o comportamento. Mas, além de suas experiências científicas serem mal interpretadas, uma geração mais jovem - que tinha como expoentes Michelangelo e Rafael - conquistava as preferências dos nobres. Não hesitou, portanto, em aceitar o convite de Francisco I (sucessor de Luís XII no trono da França) para morar em Cloux, perto de Amboise, no castelo com que o soberano o presenteara.
Na França, Leonardo viveria seus últimos dias. Morreu a 2 de maio de 1519, após receber os sacramentos da Igreja - e, ao que se conta, nos braços do rei Francisco I.

Em Florença, Milão, Roma ou Amboise - onde quer que estivesse Leonardo tinha sempre um hábito: reunir pequena multidão em praça pública, para expor suas idéias de engenheiro, pintor, escultor, Filósofo, músico ou poeta. Ele sabia prender seu público com anedotas e fábulas espirituosas que inventava, e com as músicas que tirava com grande perfeição de sua lira. "Quem não ama a vida não a merece", dizia ele.

Mais do que com anedotas e músicas, Leonardo deixava o público boquiaberto com seus ambiciosos e mirabolantes projetos de máquinas para fazer o homem voar, de barcos capazes de navegar sob a água, de infernais armas de guerra. O "engenheiro" ia mais além, ao profetizar conquistas só alcançadas vários séculos depois:
"Com pedra e ferro, tornar-se-ão visíveis coisas que não aparecem." "Homens falarão a outros de longínquos países e obterão respostas."

Os projetos de Leonardo ficaram famosos pela audácia: os estudos sobre o vôo das aves e a concepção de que o homem poderia um dia voar imitando a habilidade dos pássaros não foram as únicas. idéias grandiosas que se tornaram realidade quando a técnica alcançou o necessário desenvolvimento.

Em 1502, contratado como engenheiro por César Bórgia, Leonardo viajou por toda a Itália central, projetando e fiscalizando obras, corno a construção de canais e a restauração do palácio de Frederico II. Os estudos sobre drenagem de pântanos, os mapas minuciosamente desenhados, os esquemas sobre o canal do porto de Cesenatico atestara sua vasta atividade nessa época. Na França, Leonardo desenhou a planta de um palácio e projetou um canal para ligar o Loire ao Saône.

Para Leonardo, a pintura era uma ciência, enquanto a escultura não passava de uma "arte mecanicíssima". Por encarar a pintura como ciência, foi levado a estudar a fundo a Cinemática, visando dar às suas figuras uma perfeita idéia de movimento. Defendia que, para conhecer o movimento dos organismos vivos, era necessário primeiro estudar o movimento em si, independentemente da vida ou da vontade. Procurou, então, interpretar o movimento dos corpos inanimados, observando mesmo, com auxílio de instrumentos, o deslocamento dos corpos celestes.

A partir dessas observações, Leonardo intuiu as idéias de impulso e quantidade de movimento: "Impulso é impressão de movimento transferido do motor ao móvel".
Analisando-se acuradamente os textos de Leonardo chega-se à conclusão de que ele concebeu também o princípio da inércia, embora sem o rigor que caracterizaria o enunciado de Galileu - o primeiro a dar uma explicação racional e fundamentada para os movimentos e suas causas.
Leonardo limitou-se a teorizar vagamente sobre movimento e força, usando termos como "impressão de movimento" e "potência":"Nenhuma coisa se move por si mesma, mas seu movimento é produzido por outros." "Todo movimento espera ser mantido, ou seja, todo corpo em movimento move-se enquanto conserva a impressão da potência de seu motor."

Para a física moderna, o enunciado de Leonardo que mais se aproxima do princípio da inércia ("Todo corpo isolado permanece em seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme") prende-se a suas conjeturas sobre o centro da Terra - que ele definia como ponto para o qual todos os corpos são atraídos. Reconheceu que, uma vez aberto um túnel de uma extremidade a outra de um diâmetro da Terra, um corpo jogado num dos extremos não pararia no centro terrestre, mas continuaria seu movimento, devido ao que ele chamava de "ímpeto". E isso pode ser interpretado como decorrência da lei da conservação do momento (ou quantidade de movimento), que eqüivale à lei da inércia.

Mas nem todas as idéias de Leonardo sobre a gravidade foram corretas: muitas delas refletiam ainda fortes influências do dogmatismo aristotélico, que sé seria definitivamente abandonado, em favor do racionalismo de Galileu e Newton, no século XVII.

Os estudos de Leonardo sobre mecânica dos fluidos apresentam um destaque especial em sua obra. Tinha várias idéias sobre a forma de remover a água de um lugar para outro e comprovou seus conhecimentos de Hidrodinâmica com projetos para a construção de canais. Para tanto, estudou extensamente o movimento dos corpos através dos fluidos e discutiu os movimentos da água devidos à gravidade (ela tende sempre a dirigir-se ao local mais baixo). Formulou teorias sobre a formação das chuvas, tendo observado o congelamento da água e a evaporação devida ao calor.

Como inúmeros estudiosos de sua época, Leonardo buscou uma resposta para a questão: por que existe água no alto das montanhas? Em seu tempo ainda vigorava a teoria dos antigos filósofos gregos, segundo a qual o Universo seria formado pelos elementos terra, água, ar e fogo, dispostos nessa ordem. Assim, a terra estaria na parte "mais baixa", logo acima viria a água, seguida dos dois outros elementos.

A teoria explicava a existência de fontes no alto de montanhas admitindo que a superfície dos oceanos estaria acima do pico da mais alta montanha, sendo natural, portanto, que a água chegasse até lá, por canais subterrâneos.

Leonardo chegou a compartilhar essa explicação, calculando inclusive o desnível entre um mar e outro. Abandonou-a, no entanto, por chegar à conclusão contrária: considerou a água "embaixo" e afirmou que a superfície dos mares está em nível inferior ao das terras firmes. "O mar", dizia ele, é eqüidistante do centro da Terra e é a mais baixa superfície do mundo."
Ao colocar a água "embaixo" e a terra "em cima", Leonardo teve dificuldades em dar explicação para a existência de água no alto das montanhas. Tentou uma analogia com o que ocorre no corpo humano: "Assim corno o suor e o sangue sobem à superfície da face com o calor, é também pelo calor que a água "sobe pelas entranhas da Terra". Para demonstrar sua teoria, pôs uma bacia cheia de água dentro de um forno aquecido na parte superior. Com o calor, a água "subia" (evaporava-se) e saía por um tubo lateral.

Leonardo pensou em escrever um tratado sobre a água, mas deixou apenas anotações. Nelas indica explicitamente que o escoamento de um líquido num tubo ou num canal de seção irregular será mais rápido nas partes mais estreitas que nas mais largas. E exemplifica: "Se uma multidão caminha por um corredor em cujo extremo há duas saídas, uma dando passagem para um só homem e outra para quatro, é necessário que os que passam pela primeira o façam quatro vezes mais rapidamente do que os que vão pela segunda, para que o escoamento seja uniforme nas duas aberturas".

Leonardo reconheceu também a flutuabilidade dos cornos menos densos nos mais densos. Intuiu ainda o princípio da sustentação do "mais pesado que o ar", como conseqüência do movimento relativo (que estabelece uma diferença de pressão). Fez estudos sobre o vôo dos pássaros, acompanhando-os de desenhos muito pormenorizados; formulou teorias sobre a sustentação e a resistência, e suas hipotéticas aplicações num engenho que fizesse o homem voar.
Embora aceitasse a idéia dos quatro elementos (terra, ar, água e fogo), ainda em voga na Idade Média, Leonardo refutou com seu raciocínio crítico muitas das fantasias que envolviam a organização e constituição do Universo. Não acatou, por exemplo, a teoria de Ptolomeu, segundo a qual o Universo seria formado de esferas concêntricas, tendo como centro a Terra, girando umas em torno de outras. Segundo Leonardo, o movimento relativo acabaria desgastando essas esferas.

Contestou igualmente a afirmação do filósofo grego Heráclito de Éfeso de que o Sol teria apenas 33 centímetros de diâmetro. Analisando os eclipses da Lua e o enorme curso do Sol, concluiu que esse astro não poderia ser tão pequeno assim.
Comparando a cor da luz solar com a do bronze fundido (tanto mais branco quanto mais quente), invalidou as teorias que defendiam ser o Sol uma estrela fria, pela simples razão de não exibir "cor de fogo".

Observou ainda que os raios solares atravessam o ar e a água (esta, em pequenas quantidades) sem sofrer absorção. Concluiu que os planetas, ainda chamados de estrelas, não têm luz própria, mas refletem a do Sol.

Enganou-se, entretanto, ao supor que a Lua não era atraída para a Terra, como as demais "coisas", por constituir em si mesma um "astro completo", possuindo terra, água, ar e fogo. A explicação para a permanência do satélite em sua órbita (decorrente do princípio da inércia) escapou inteiramente a Leonardo da Vinci.

"Este cavalheiro estudou anatomia mais do que qualquer pessoa, demonstrando por meio de desenhos a estrutura dos músculos, nervos, veias, juntas e intestinos de corpos, tanto de homens como de mulheres", dizia De Beatis a respeito de Leonardo, depois de visitá-lo no castelo de Cloux.

Como artista que levava o desejo da perfeição aos limites da obsessão, Leonardo estudou profundamente a anatomia, não só humana como de animais,
principalmente de cavalos. Segundo o testemunho de De Beatis, dissecou "mais de trinta corpos de homens e mulheres de todas as idades", numa época em que a dissecação era prática rara e mesmo mal vista, tendo sido condenada pelo papa Leão X.
Pesquisou a estrutura dos ossos, representando, em figuras, o tórax, a bacia, a coluna vertebral e o crânio que dissecou e desenhou segundo planos que ainda costumam ser usados em atlas anatômicos.

Examinou e descreveu os espaços vazios do maxilar superior e do osso frontal; observou alterações ósseas com a idade do indivíduo; estudou a posição dos ossos (particularmente dos artelhos) durante o movimento. Dedicou cento e quarenta desenhos à localização dos diversos músculos, que classificou em voluntários e involuntários; estudou a posição relativa de vasos, músculos e nervos.

Descobriu a glândula tiróide, embora não tenha entendido seu funcionamento. Percebeu a existência de outras glândulas, tendo-lhe escapado, no entanto, o pâncreas.
Analisando o sistema urogenital, fez observações notáveis sobre a placenta, o cordão umbilical e as vias de nutrição letal. Examinou ainda o sistema nervoso central e periférico, bem como os órgãos dos sentidos.

Estudou o coração, concluindo que esse órgão é massa muscular alimentada por artérias, possuindo veias, como os outros músculos.
Curiosamente, em Fisiologia, Leonardo não teve a mesma lucidez que em Anatomia. Alguns autores atribuem-lhe a descoberta da circulação sangüínea, mas, embora ele tenha descoberto todos os pormenores do aparelho circulatório, inclusive veias capilares, não chegou a perceber a função do coração como bomba propulsora do sangue. E isso talvez se devesse à analogia que fazia questão de ressaltar entre o sangue nos animais, a seiva nas plantas e a água no "corpo" da Terra.

Impressionado com sua descoberta de 24 músculos na língua, procurou analisar a posição desse órgão, dos lábios, dentes, traquéia e cordas vocais na pronúncia dos diversos fonemas, especialmente das vogais. Sejam ou não verdadeiras ou fundamentadas suas teorias, é notável que ele tenha se preocupado com assuntos ligados à Foniatria e Fonoaudiologia - ramos que foram estruturados como disciplinas científicas somente no século XX, e cujo campo de pesquisa é ainda muito vasto.

A Botânica também constituiu objeto de estudo para Leonardo. Conhecia certas propriedades dos vegetais, estudou a origem dos ramos menores a partir dos maiores, e a influência do ar, da luz solar, do orvalho e dos sais da terra na vida das plantas.

A Química (na época, ciência rudimentar) também mereceu a atenção de Leonardo, que desenvolveu estudos sobre transformações das substâncias. Realizou, ainda, experiências sobre a elasticidade e compressibilidade dos corpos, e reconheceu a água como incompressível.
Atribuiu grande importância à aplicação da Matemática para expressar as leis físicas, afirmando que "investigação alguma pode ser chamada de verdadeira ciência se não passar pelas demonstrações matemáticas". Menosprezava as ciências meramente verbais, dizendo que elas morrem ao nascer, e aconselhava que o estudo de uma ciência devia preceder qualquer de suas aplicações práticas.

Um aspecto curioso de grande parte dos manuscritos de Leonardo ilustra uma faceta de sua estrutura de pensamento: sendo ambidestro, ele escrevia as linhas tanto da esquerda para a direita como vice-versa. O modo incomum de redigir tornava mais difícil a leitura de seus manuscritos (era necessário recorrer a um espelho), mas, segundo Stefano De Simone, essa intenção escapou inteiramente a Leonardo. Ao escrever com a mão direita, ele expressava os resultados do estudo e da reflexão crítica; escrevendo com a mão esquerda, da direita para a esquerda, traduzia o que lhe vinha à mente espontaneamente.

Biografia de Isaac Newton 

Isaac Newton (1642 - 1727)

O homem de cabelos brancos fechou o caderno, onde, com com escrita regular e miúda, se alinhavam seus cálculos, e recostou-se na cadeira. Naqueles cálculos, naquele caderno fechado que lhe custara tantos esforços e deduções, mais um mistério fora revelado aos homens. E talvez tenha sentido grande orgulho ao pensar nisso.

Esse ancião grisalho, Isaac Newton, era reverenciado na Inglaterra do século XVIII como o maior dos cientistas. Para seus contemporâneos, representava o gênio que codificara as leis do movimento da matéria e explicara como e por que se movem os astros ou as pedras. Uma lenda viva, recoberto de honras e glória, traduzido e reverenciado em toda a Europa, apontado como exemplo da grandeza "moderna" contraposta à grandeza "antiga" que Aristóteles representava. Ainda hoje, seus Princípios constituem um monumento da história do pensamento, só comparável às obras de Galileu e Einstein.

Mas o trabalho que Newton, velho e famoso, acabara de concluir - um dos tantos aos quais dedicou boa parte de sua vida e ao qual atribuía tanta importância - nada tinha a ver com ciência. Era um Tratado sobre a Topograjta do Inferno. Lá estavam deduzidos tamanho, volume e comprimento dos círculos infernais, sua profundidade e outras medidas. Essa prodigiosa mente científica envolvia-se também num misticismo sombrio e extravagante, que atribuía ao inferno uma realidade física igual à deste mundo.

Newton, entretanto, era acima de tudo um tímido e poucos souberam dessa obra, que só nos anos vinte deste século começou a ser divulgada.


Isaac Newton nasceu em Woolsthorpe, no Lincolnshire, Inglaterra, no Natal do ano em que morria Galileu: 1642. Seu pai, um pequeno proprietário rural, havia morrido um pouco antes; três anos mais tarde, a mãe casou-se outra vez, e, mudando de cidade, deixou o pequeno Isaac aos cuidados da avó. Até os doze anos de idade, o menino freqüentou a escola de Grantham, aldeia próxima a Woolsthorpe.

Em 1660, foi admitido na Universidade de Cambridge, conseguindo o grau de bacharel em 1665; nesse ano, uma epidemia de peste negra abateu-se sobre toda a Inglaterra, e a Universidade viu-se obrigada a fechar suas portas. Newton voltou então para casa, onde se dedicou exclusivamente ao estudo, fazendo-o, segundo suas próprias palavras, "com urna intensidade que nunca mais ocorreu". A essa época remontam suas primeiras intuições sobre os assuntos que o tornariam célebre: a teoria corpuscular da luz, a teoria da gravitação universal e as três leis da Mecânica.

Newton retornou a Cambridge em 1667, doutorando-se em 1668. No ano seguinte, um de seus professores, o matemático Isaac Barrow, renunciou às suas funções acadêmicas, para dedicar-se exclusivamente ao estudo da teologia; nomeou Newton seu sucessor, que, assim, com apenas 26 anos de idade, já era catedrático, cargo que ocuparia durante um quarto de século.
Em 1666, enquanto a peste assolava o país, Newton comprou, na feira de Woolsthorpe, um prisma de vidro. Um mero peso de papel, que iria ter grande importância na história da Física. Observando, em seu quarto, como um raio de sol vindo da janela se decompunha ao atravessar o prisma, Newton teve sua atenção atraída pelas cores do espectro. Colocando um papel no caminho da luz que emergia do prisma apareciam as sete cores do espectro, em raias sucessivas: vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta. A sucessão de faixas coloridas recebeu do próprio Newton o nome de espectro, em alusão ao fato de que as cores que se produzem estão presentes, mas escondidas, na luz branca.


Newton foi além, repetindo a experiência com todas as raias correspondentes às sete cores. Mas a decomposição não se repetia: as cores permaneciam simples. Inversamente, ele concluiu que a luz branca é, na realidade, composta de todas as cores do espectro. E provou isso reunindo as raias coloridas de duas maneiras diferentes: primeiro, mediante uma lente, obtendo, em seu foco, a luz branca; e, depois, através de um dispositivo mais simples, que passou a ser conhecido como disco de Newton. Trata-se de um disco dividido em sete setores, cada um dos quais pintado com uma das cores do espectro. Fazendo-o girar rapidamente, as cores se superpõem sobre a retina do olho do observador, e este recebe a sensação do branco.

Nos anos que se seguiram, já de novo em Cambridge, Newton estudou exaustivamente a luz e seu comportamento nas mais variadas situações. Desenvolveu, assim, o que passaria a se chamar teoria corpuscular da luz; a luz se explicaria como a emissão, por parte do corpo luminoso, de um número incontável de pequenas partículas, que chegariam ao olho do observador e produziriam a sensação de luminosidade. Como subproduto dessas idéias, Newton inventaria o telescópio refletor: ao invés de usar como objetiva umas lente - que decompondo a luz causa aberrações cromáticas emprega um espelho côncavo, que apenas reflete a luz.

Até 1704 - ano em que apareceu sua Optica - Newton não publicou nada sobre a luz; mas isso na impediu que suas idéias fossem sendo divulgadas entre os colegas e alunos de Cambridge.
Havia, na época, outra hipótese sobre a natureza da luz: a teoria ondulatória do holandês Christiaan Huygens. Contemporâneo de Newton, Huygens supunha a. luz formada de ondas, que são emitidas pelo corpo luminoso. Pensava que sua propagação se dá da mesma forma que para as ondas sonoras, apenas muito mais rapidamente que estás últimas.

A posteridade viria demonstrar que, apesar de nenhuma das duas teorias ser integralmente acertada, Huygens andava mais perto da verdade que Newton. Contudo, quando, em 1672, Newton foi eleito membro da Royal Society, seu prestígio já o havia antecedido, e ele quase não encontrou oposição à sua teoria da luz. Mas os poucos opositores - sobretudo Robert Hooke, um dos maiores experimentalistas ingleses obrigaram Newton a enfrentar uma batalha em duas frentes: contra eles e contra a própria timidez.

Seu desgosto pela controvérsia revelou-se tão profundo que, em 1675, escreveu a Leibnitz: "Fui tão irnportunado com discussões a respeito de minha teoria sobre a luz, que condenei minha imprudência em me desfazer de minha abençoada tranqüilidade para correr atrás de uma sombra". Essa faceta de sua personalidade iria fazê-lo hesitar, anos mais tarde, em publicar sua obra máxima: os Princípios.

Por mais de um milênio - desde que, juntamente com o Império Romano, a ciência antiga fora destruída - o pensamento europeu demonstrou-se muito pouco científico. A rigor, é difícil afirmar que a Idade Média tenha, de fato, conhecido o pensamento científico. O europeu culto, geralmente um eclesiástico, não acreditava na experimentação, mas na tradição. Para ele, 'tudo quanto havia de importante a respeito de ciência já havia sido postulado por Aristóteles e mais alguns cientistas gregos, romanos ou alexandrinos, como Galeno, Ptolomeu e Plínio. Sua função não era colocar em dúvida o que tinham afirmado, mas transmiti-lo às novas gerações.
Em poucos séculos - do XI ao XV - o desenvolvimento do comércio e, posteriormente, do artesanato, da agricultura e das navegações, fez desabar a vida provinciana da Idade Média, prenunciando o surgir da Idade Moderna, na qual a ciência foi adquirindo importância cada vez maior.

Os dois grandes nomes que surgem como reformadores da ciência medieval são Johannes Kepler e Galileu Galilei. Kepler, embora um homem profundamente medieval - tanto astrólogo quanto astrônomo - demonstrou, entretanto, que o sistema astronômico dos gregos e dos seus seguidores estava completamente errado. Galileu fez o mesmo com a física de Aristóteles.
A mecânica de Aristóteles, assim como quase toda sua obra científica, baseava-se principalmente na intuição e no "bom senso". Dessa forma, suas análises não iam além dos aspectos mais superficiais dos fatos. A experiência cotidiana sugeria-lhe, por exemplo, que, para conservar um corpo em movimento, é necessário mantê-lo sob a ação de uma influência, empurrá-lo ou puxá-lo. E ele o diz explicitamente em sua Mecânica: "O corpo em movimento chega à imobilidade quando a força que o impele não mais pode agir de modo a deslocá-lo". No entanto, é fato indiscutível que uma pedra pode ser arremessada à distância, sem que seja necessário manter a ação de uma força sobre ela. Aristóteles contornava essa dificuldade dizendo que a razão pela qual a pedra se movimenta repousa no fato de que ela é empurrada pelo ar que ela afasta, à medida que avança. Por menos plausível que fosse essa explicação, ela permaneceu incontestada até o aparecimento de Galileu.

O sábio florentino, percebendo as incongruências das teorias aristotélicas, atacou o problema de maneira oposta. Seu raciocínio foi bastante simples: suponha-se que alguém empurre um carrinho de mão por uma estrada plana. Se ele repentinamente parar de empurrar, o carrinho percorrerá ainda uma certa distância antes de cessar seu movimento. E essa distância poderá ser aumentada, se a estrada for tornada muito lisa e as rodas do carrinho estiverem bem lubrificadas. Em outros termos, à medida que se diminuir o atrito entre o eixo do carrinho e suas rodas, e entre estas e a estrada, a redução de sua velocidade será cada vez menor. Galileu supôs, então, que, se o atrito entre o carrinho e a estrada fosse eliminado por completo, o carrinho deveria - uma vez dado o impulso inicial - continuar indefinidamente em seu movimento.
Quarenta anos após a morte de Galileu, Isaac Newton formulou mais precisamente esse conceito, que passou a ser conhecido como o Primeiro Principio da Mecânica: "Qualquer corpo permanece em repouso ou em movimento retilíneo uniforme, a não ser que sofra uma ação externa".

Galileu havia tentado ir mais além, estudando a maneira como o movimento de um corpo varia quando este está sob a ação de uma força - por exemplo, a queda de um corpo sobre a superfície da Terra. Contudo, ele não pôde separar claramente nas suas experiências o dado principal dos acessórios. Foi Newton quem despiu o problema de seus aspectos não essenciais, e viu na massa do corpo esse dado.

Um mesmo corpo, submetido a forças de valores diferentes, move-se com velocidades diversas. Uma bola parada, ao receber um chute, adquire maior ou menor velocidade, num certo lapso de tempo, conforme o chute seja forte ou fraco. Como a variação da velocidade com o tempo mede a aceleração, a força maior comunica à bola uma aceleração maior.

Por outro lado, dois corpos de massas diferentes, quando sob a ação de forças de igual valor, também se movem diversamente: o de maior massa fica submetido a uma aceleração menor. Ou seja, a aceleração provocara por uma força que atua sobre um corpo tem a direção e o sentido desta força, e é diretamente proporcional ao valor dessa força e inversamente proporcional à massa do corpo.

Esse é o enunciado do Segundo Princípio da Mecânica, que permite, em última análise, descrever todo e qualquer movimento, desde que se conheçam as massas dos corpos envolvidos e as forças a que eles estão sujeitos. A partir dele, podem-se derivar todas as relações entre a velocidade de um corpo, sua energia, o espaço que ele percorre em determinado intervalo de tempo, e assim por diante.

Entretanto, além do problema da massa, Newton foi obrigado a resolver outra questão: como se manifesta o estado de movimento de um corpo, num tempo infinitamente curto, sob a influência de uma força externa? Somente assim poderia estabelecer fórmulas gerais aplicáveis a qualquer movimento. Esta preocupação levou-o a inventar o cálculo diferencial, a partir do qual obteve também o cálculo integral.

O contraste entre a simplicidade do enunciado e a profundidade de sua significação é ainda mais evidente no seu Terceiro Principio da Mecânica: "A toda ação corresponde uma reação igual e em sentido contrário " Este é o postulado mais simples e mais geral de toda a Física. Ele explica, por exemplo, por que uma pessoa dentro de um barco, no meio de um rio, quando quer se aproximar da terra firme, "puxa a margem" e o resultado visível é que a margem "puxa o barco". Em outras palavras, quando o indivíduo laça com uma corda uma estaca da margem e começa a puxar a corda, está, na verdade, exercendo uma força (ação) sobre a margem; esta, por sua vez, aplica uma força igual em sentido contrário (reação) sobre o barco, o que faz com que este se movimente.

Pode parecer extraordinário que algo tão evidente tivesse que esperar o surgimento de Newton para ser estabelecido; mas, na verdade, ele só pôde fazer suas afirmações depois que Galileu tornou claro o papel que as forças desempenham no movimento. Galileu foi, assim, o precursor de Newton, e este seu herdeiro e continuador.

O papel de Newton como sintetizador repetiu-se em outro dos episódios importantes de sua obra: o descobrimento da lei da gravitação universal. Desta vez, o pioneiro foi Kepler.
Enquanto Galileu lutou contra Aristóteles, Kepler insurgiu-se contra Ptolomeu, um dos maiores astrônomos alexandrinos e, também - embora involuntariamente -, o principal obstáculo ao desenvolvimento da astronomia na Idade Média.

Pltolomeu acreditava no sistema das esferas concêntricas: a Terra era o centro do Universo; à sua volta, giravam a Lua, o Sol, os planetas e as estrelas. E, o que é mais importante do ponto de vista cosmológico, tinha a certeza de que os movimentos dessas esferas deveriam realizar-se em círculos perfeitos, com velocidade uniforme. Sua certeza originara-se em Platão e tinha razões de ordem religiosa: Deus só pode fazer coisas perfeitas, e apenas o movimento circular é perfeito.
Essa visão do Universo prevaleceu por tempo espantosamente longo, considerando-se as evidências em contrário. O primeiro passo efetivo contra esse estado de coisas foi dado por Nicolau Copérnico, no princípio do século XVI: ele questionou o dogma de que a Terra é o centro do Universo, transferindo para o Sol este papel. Mas não viveu - nem lutou - para ver sua idéia prevalecer. Quem fez isso foi Kepler.

Colocar o Sol no centro do Universo, com a Terra e os demais planetas girando em torno dele, não foi a tarefa mais árdua de Kepler; o pior foi descrever como se dá o movimento dos planetas, já que as trajetórias circulares evidentemente não eram obedecidas. E Kepler lutou a vida inteira contra seus contemporâneos - e contra seus próprios preconceitos astrológico-mágicos para concluir que os planetas descrevem elipses em torno do Sol, obedecendo a três leis matemáticas bem determinadas.

Trinta anos após a morte de Kepler e vinte depois da de Galileu, Newton, com apenas vinte anos de idade, atacou o quebra-cabeças legado por seus dois precursores. As peças-chave eram: as leis dos movimentos dos corpos celestes, de Kepler. e as leis dos movimentos dos corpos na Terra, de Galileu. Mas os dois fragmentos não se ajustavam, pois, de acordo com as leis descobertas por Kepler, os planetas se moviam segundo elipses, e, conforme Galileu, segundo círculos. Por outro lado, as leis da queda dos corpos de Galileu não possuíam relação aparente com o movimento dos planetas ou dos cometas.

Newton atacou o problema, estabelecendo uma analogia entre o movimento da Lua ao redor da Terra e o movimento de um projétil lançado horizontalmente na superfície do planeta. Qualquer projétil assim lançado está sob a ação de dois movimentos: um movimento uniforme para a frente em linha reta, e um movimento acelerado devido a força de gravidade que o atrai para a Terra. Os dois movimentos interagindo produzem uma curva parabólica, conforme demonstrou Galileu, e o projétil termina por cair ao chão. Cairá mais perto do lugar onde foi disparado se a altura de lançamento foi pequena e a velocidade inicial do corpo foi baixa; cairá mais longe, se a situação se inverter.

Newton perguntou-se, então, o que sucederia se a altura do lançamento fosse muito grande, comparável, por exemplo, com a distância da Terra à Lua. E sua resposta foi a de que o corpo deveria cair em direção à Terra, sem, contudo, atingir sua superfície.
O porquê reside no seguinte: se o corpo for lançado além de uma certa altura - e esse é o caso, por exemplo, dos satélites artificiais -, a parábola descrita pelo corpo não o trará de volta à Terra, mas o colocará em órbita. Assim, o satélite artificial está sempre caindo sobre o planeta, sem nunca atingi-lo. O mesmo acontece com a Lua, que um dia tangenciou a Terra e nunca mais deixou de "cair" sobre 'ela.

Com esse raciocínio, Newton ligou dois fenômenos que até então pareciam não ter relação entre si- o movimento dos corpos celestes e a queda de um corpo na superfície da Terra. Foi assim que surgiu a lei da gravitação universal.

Tudo isso foi-lhe aparecendo gradualmente, até que, em 1679, pôde responder a Halley, seu amigo e discípulo, que lhe perguntara se conhecia um princípio físico capaz de explicar as leis de Kepler sobre os movimentos dos planetas. E sua resposta foi a seguinte: a força de atração entre dois corpos é proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa. "Percebi", escreveu Halley a Newton, "que você tinha feito uma demonstração perfeita."

Halley induziu, então, o amigo não sem alguma dificuldade, pois Newton tinha bem presente o episódio da polêmica com Hooke - a reunir em uma só obra seus trabalhos sobre a gravitação e as leis da Mecânica, comprometendo-se a custeear, ele mesmo, as despesas de publicação.

Embora se tratasse de resumir e ordenar trabalhos em grande parte já escritos, sua realização consumiu dois anos de aplicação contínua. O compêndio, chamado Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, os Princípios, compõe-se de três livros. O primeiro trata dos princípios da Mecânica; é nele que aparecem as três leis do movimento de Newton. O segundo cuida da mecânica dos fluidos e dos corpos neles imersos. Finalmente, o terceiro situa filosoficamente a obra do autor e traz alguns resultados do que foi estabelecido nos dois anteriores.

Nesse terceiro livro, Newton analisa os movimentos dos satélites em tomo de um planeta e dos planetas ao redor do Sol, baseando-se na gravitação universal. Mostra que é possível deduzir, da forma de tais movimentos, relações entre as massas dos planetas e a massa da Terra. Fixa a densidade da Terra entre 5 e 6 (o valor admitido atualmente é 5,5) e calcula a massa do Sol, bem como a dos planetas dotados de satélites. Avalia em 1/230 o achatamento da Terra nos pólos - hoje sabemos que este valor é de 1/270.

A estrada: de Newton em direção à execução da obra que o imortalizou foi plana e isenta de acidentes de maior importância. Newton não teve que enfrentar sozinho, como Galileu, a oposição de seus contemporâneos, nem conheceu, como o florentino, a iniqüidade das retratações perante os tribunais religiosos. Não precisou, como Kepler, travar lutas consigo próprio, para fazer coincidir suas idéias sobre astrologia e seus preconceitos místicos com os resultados das observações.

Newton, como se descobriria depois, foi tão obcecado pelo misticismo quanto Kepler. Só que ele manteve ciência e religião completamente separados em sua mente. Uma não influía sobre a outra.

Newton sempre teve o apoio do mundo científico de sua época, usufruindo de todas as honrarias que podem ser concedidas a um homem de ciência: em 1668, foi nomeado representante da Universidade de Cambridge, no Parlamento; em 1696, assumiu o cargo de inspetor da Casa Real da Moeda, tornando-se seu diretor em 1699; nesse mesmo ano foi eleito membro da Academia Francesa de Ciências; em 1701, deixou sua cátedra em Cambridge, e, a partir de 1703, até sua morte, foi presidente da Royal Society.

Mas, ao assumir mais cargos e receber mais gratificações, sua atividade científica passou a diminuir e sua preocupação com religião e ocultismo tendeu a aumentar. Depois da publicação dos Princípios, suas contribuições se tornaram cada vez mais esparsas e, na maior parte das vezes, insignificantes quando comparadas com a obra anterior.

No início de 1727, Newton, cuja saúde declinava há anos, ficou gravemente enfermo. Morreu no dia 20 de março desse ano, tendo sido sepultado na Abadia de Westminster com o seguinte epitáfio: "É uma honra para o gênero humano que um tal homem tenha existido."

Biografia de Sócrates

Sócrates

Sócrates - (470-399 a.C). A biografia de Sócrates é contada por Xenofonte e Platão principalmente nos livros Apologia de Sócrates e Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates do primeiro e Apologia de Sócrates e Fédon do segundo. Era Ateniense, filho de uma parteira chamada Fenarete, e de um escultor, chamado Sofronisco. Recebeu uma educação tradicional e desde a juventude interessou-se pela filosofia. Conhecia o pensamento anterior e contemporâneo dos filósofos gregos e interessava-se pela conversa em locais públicos. Fazia muitas andanças conversando nas praças e mercados. Participou do movimento de renovação da cultura e foi um educador popular. Nunca trabalhou e só pensava no presente. Muitas vezes, só comia quando seus discípulos o convidavam para suas mesas. Foi casado com Xantipa, mas não parava em casa. Teve três filhos. Participou, como soldado, de incursões militares como as de Potidéia, Delos e Anfipólis. Recebeu reconhecimento por alguns feitos de bravura, como quando salvou Xenofonte (ou segundo outras fontes Alcíbiades), tombado, com seu próprio corpo. De ínicio, interessava-se pelos ensinamentos dos filosófos da natureza, como Anaxágoras, mas depois revoltou-se contra eles, pois eles haviam sido filósofos físicos, que procuravam respostas nas causas exteriores e gerais da natureza. Achava que existe algo mais digno para se estudar, existe a psyche, ou a mente do homem. Por isso, sondou a alma humana , em questões como a da facilidade de justiça dos atenienses, porque esses lidam com tanta facilidade com a vida e a morte, honra, patriotismo, moralidade. Em que se baseiam? E o que entendem por eles próprios? Assim descobriu que o homem é sua alma, e não o corpo, pois o que manipula o corpo é a alma. Foi contra os sofistas, por achar que a verdade é apenas uma, e condenavam seu relativismo.

Sócrates usava nas suas conversas com os cidadãos um método chamado maiêutica, que consiste em forçar o interlucutor a desenvolver seu pensamento sobre uma questão que ele pensa conhecer, e po-lo em contradição. Tem uma frase famosa "Só sei que nada sei". Já a frase "Conhece-te a ti mesmo", apesar de muitas vezes a ele atribuída, era um dos pilares da sabedoria grega, sendo por isso inscrita no pórtico do Oráculo de Delfos. O verdadeiro filósofo sabe que sabe muito pouco, e ele se autodenominava assim. A palavra filosofia significa amizade ao saber. As etapas do saber seriam: ignorar sua ignorância, conhecer sua ignorância, ignorar seu saber e conhecer seu saber. As opiniões não são verdades pois não resistem ao diálogo crítico. Conversar com Sócrates podia ser expor-se ao ridículo, e ser apanhado numa complexa linha de pensamento exposta através de palavras, ficar totalmente envolvido. No diálogo Teeteto de Platão, compara sua atividade à de uma parteira (como sua mãe), que embora não desse a luz à um bebê, ajudava no parto.

Ele diz que ajudava as pessoas a parirem suas próprias idéias. Diz que Atenas era uma égua preguiçosa, e ele um pequeno mosquito que lhe mordia os flancos para provar que estava viva. Achava que a principal tarefa da existência humana era aperfeiçoar seu espírito. Acreditava ouvir uma voz interior, de natureza divina (um daimon), que lhe contava a verdade, e para ele só existia um deus. Era capaz de ficar horas imerso em si mesmo, em profundos momentos de reflexão. Não foi por acaso que a Pitía, do oráculo de Delfos, o proclamou como o homem mais sábio de Atenas quando o amigo de juventude de Sócrates, Querefonte, foi interrogá-la. Sócrates foi convidado para o Senado dos quinhentos, e manifestou sua convicção de liberdade combatendo as medidas que considerava injustas. A democracia estava se implantando em Atenas, e Sócrates respondia qual era o melhor Estado, como poderia se salvá-lo. Os homens mais sábios deviam governá-lo, pois eles podem controlar melhor seus impulsos violentos e anti-sociais. Assim, nos afastaríamos do comportamento de um animal.
O Estado não confiava na habilidade e reverenciava mais o número do que o conhecimento. Portanto, Sócrates era aristocrático, pois há inteligência que baste para se resolver os assuntos do Estado.

A reação do partido democrático de Atenas não poderia ser outra. Em um juri de cinquenta pessoas, foi acusado, condenado por negas os deuses do Estado e por "perverter a juventude de Atenas". Muitos jovens seguiam Sócrates, e tornavam-se seus discípulos. Anito, um líder democrático tinha um filho discípulo de Sócrates, que ria dos deuses do pai, voltava-se contra eles. Sócrates foi considerado, aos setenta anos, líder espiritual do partido revoltoso. Foi condenado a morte, e devia tomar cicuta (um veneno). Podia ter fugido da prisão, ou pedido clemência, ou ter saído de Atenas, mas não quis. Assim, se tornou o primeiro mártir da filosofia. Não deixou nenhuma obra escrita. Sua morte nos é contada por Platão, que foi um de seus discípulos, e fiz aqui um resumo:

"(...) Ele se levantou e se dirigiu ao banheiro com Críton, que nos pediu que esperássemos, e esperamos, conversando e pensando
(...) na grandeza de nossa dor. Ele era como um pai do qual estávamos sendo privados, e estamos prestes a passar o resto da vida orfãos.
(...) A hora do pôr do sol estava próxima, pois ele tinha passado um longo tempo no banheiro .(...) Pouco depois, o carcereiro entrou e se postou perto dele, dizendo:
-A ti, Sócrates, que reconheço ser o mais nobre, o mais delicado e o melhor de todos os que já vieram para cá, não irei atribuir sentimentos de raiva de outros homens
(...) de fato, estou certo de que não ficarás zangado comigo, porque como sabes, são os outros , e não eu o culpado disso. E assim, eu te saúdo, e peço que suportes sem amargura aquilo que precisa ser feito, sabes qual é a minha missão - e caindo em prantos, voltou-se e retirou-se.
Sócrates olhou para ele e disse: - Retribuo tua saudação, e farei como pedes.- E então, voltando-se para nós disse:- Como é fascinante esse homem; desde que fui preso, ele tem vindo sempre me ver,e agora vede a generosidade com que lamenta a minha sorte. Mas devemos fazer o que ele diz; Críton, que tragam a taça, se o veneno estiver preparado.
(...) Críton, ao ouvir isso fez um sinal para o criado, o criado foi até lá dentro, onde se demorou algum tempo; depois voltou com o carceireiro trazendo a taça de veneno. Sócrates disse:
-Tu, meu bom amigo, que tem expêriencias nesses assuntos, irá me dizer como devo fazer.
O homem repondeu:
- Basta caminhar de um lado para outro, até que tuas pernas fiquem pesadas., depois deita-te e o veneno agirá.-Ao mesmo tempo estendeu a taça a Sócrates, (..) que segurou-a
(...) E então levando a taça aos lábios, bebeu rápida e decididamente o veneno.
Até aquele instante a maioria de nós conseguira segurar a dor; mas agora, vendo-o beber e vendo, também que ele tomara toda a bebida, não pudemos mais nos conter; apesar de meus esforços, lágrimas corriam aos borbotões.
(...) Apolodoro, que estivera soluçando o tempo todo, irorrompeu num choro alto que transformou-nos a todos em covardes.
(...) E então, o próprio Sócrates apalpou as pernas e disse:
-Quando chegar ao coração, será o fim.-
(...) e disse aquelas que seriam as suas últimas palavras: - Críton, eu devo um galo a Esculápio, vais lembrar de pagar a dívida?
-A dívida será paga - disse Críton.
(...) Foi esse o fim de nosso amigo, a quem posso chamar sinceramente de o mais sábio, mais justo e melhor de todos que conheci. "

Biografia de Sigmund Freud

Sigmund Freud

Sigmund Freud (Viena,1856 – Londres, 1939), médico austríaco e fundador da psicanálise. Nascido em Freiberg, na Moravia (ou Pribor, na República Tcheca), em 6 de maio de 1856, e chamado Schlomo (Salomo) Sigismund, Sigmund Freud era filho de Amália Freud e de Jacob Freud, e filho mais velho do terceiro casamento de seu pai. Circuncidado ao nascer, o jovem Sigmund recebeu uma educação judaica não tradicionalista e aberta à filosofia do Iluminismo. Era adorado pela mãe, que o chamava “meu Sigi de ouro”, e amado pelo pai, que lhe transmitiu os valores do judaísmo clássico. Tinha uma afeição especial por sua governanta tcheca e católica, Monika Zajic, apelidada Nannie, que o levava para visitar igrejas, falava-lhe do “bom Deus” e lhe revelou outro mundo além do judaísmo e da judeidade.

Talvez ela também tenha desempenhado um papel em sua aprendizagem da sexualidade.Freud nasceu em uma família de abastados comerciantes judeus. Sempre se destaca a complexidade das relações intrafamiliares. Seu pai, Jakob Freud, que exercia o ofício de comerciante de lã e têxteis, casou-se, pela primeira vez, aos 17 anos e teve dois filhos (Emmanuel e Philippe). Viúvo, casa-se novamente com Amália Nathanson, de 20 anos, idade do segundo filho de Jakob. Freud será o mais velho dos oito filhos do segundo casamento de seu pai, e seu companheiro preferido de brinquedos foi seu sobrinho, que tinha um ano a mais do que ele. Do casamento de Jacob e Amália nasceram os seguintes irmãos de Freud: Julius, Anna, Débora (Rosa), Marie (Mitzi), Adolfine (Dolfi), Pauline (Paula) e Alexander.

Quando tinha 3 anos, em outubro de 1859, Jacob e a família deixaram Freiberg, onde seus negócios não prosperavam em virtude da introdução do maquinismo e do desenvolvimento da industrialização o que provocou uma queda dos rendimentos familiares . Instalou-se então em Leipzig, esperando encontrar nessa cidade melhores condições para o comércio de têxteis. Para Freud, essa partida permanecerá sempre dolorosa. Merece ser lembrado um ponto que ele próprio menciona: o amor sem desfalecimentos que sua mãe sempre lhe votou, ao qual atribui a confiança e a segurança que demonstrou em todas as circunstâncias.Por sua vez, Emanuel e Philipp emigraram para Manchester. Um ano depois, não tendo conseguido modificar sua má situação econômica, Jacob decidiu estabelecer-se em Leopoldstrasse, o bairro judeu de Viena. Entre 1865 e 1873, o jovem Sigmund freqüentou o Realgymnasium e depois o Obergymnasium, onde ficou conhecendo Eduard Silberstein, com quem manteve sua primeira grande correspondência intelectual, notadamente a respeito de Franz Brentano.

Nessa época, apaixonou-se por Gisela Fluss, filha de um negociante amigo do seu pai. Mais tarde, fez amizade com Heinrich Braun (1854-1927), que despertaria seu interesse pela política e depois se orientaria para o socialismo.Foi um aluno muito bom em seus estudos secundários, e foi sem uma vocação especial que no outono de 1873, Freud começou seu estudo de medicina. Devem se destacar duas coisas, uma ambição precocemente formulada e reconhecida e “o desejo de contribuir com alguma coisa, durante sua vida, para o conhecimento da humanidade” (“Psicologia dos Estudantes”,1914). Sua curiosidade, “que visava mais às questões humanas do que às coisas da natureza” (“Um Estudo Autobiográfico” [Selbstdarstellung],1925) leva-o a acompanhar, ao mesmo tempo, durante três anos, as conferências de F. Brentano, várias delas dedicadas a Aristóteles. Em 1880, publicou a tradução de vários textos de J.S.Mill: “Sobre a emancipação da mulher”, “Platão”, “A questão operária”, “O socialismo”.Em setembro de 1886, depois de um noivado de vários anos, desposa Martha Bernays, com quem terá cinco filhos. Em 1883, é nomeado docente-privado (que equivale, na França, ao título de mestre conferencista) e professor honorário em 1902.

Apesar de todos os tipos de hostilidade e dificuldades, Freud sempre se recusará a abandonar Viena. Foi somente pela pressão de seus alunos e amigos e depois do “Anschluss” de março de 1938 que irá finalmente se decidir, dois meses mais tarde, a partir para Londres.Apaixonou-se pela ciência positiva, e principalmente pela biologia darwiniana (que serviria de modelo para todos os seus trabalhos). Em 1874, pensou em ir a Berlim, para freqüentar os cursos de Hermann von Helmholtz. Um ano depois, com o estímulo de Carl Claus, seu professor de zoologia, obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu ir a Trieste estudar a vida das enguias (machos) de rio. Sua primeira publicação data de 1877: “Sobre a Origem das Raízes Nervosas Posteriores da Medula Espinhal dos Amoceta” (Petromyzon planeli), enquanto a última, referente às Paralisias cerebrais infantis, de 1897, esse texto mostra que Freud trabalhava na elaboração de uma teoria do funcionamento específico das células nervosas (os futuros neurônios), como se veria em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895. Durante esses 20 anos, pode-se reunir 40 artigos (fisiologia e anátomo-histologia do sistema nervoso).Freud entrou no Instituto de Fisiologia, dirigido por E.Brücke, após três anos de estudos médicos, em 1876.

Depois dessa experiência, Freud passou do instinto de zoologia para o de fisiologia, tornando-se aluno de Ernst Wilhelm von Brucke, eminente representante da escola antivitalista fundada por Helmholtz. Foi nesse instituto, onde ficou seis anos, que fez amizade com Josef Breuer. Entre 1879 e 1880, forçado a uma licença para cumprir o serviço militar, enganava o tédio traduzindo quatro ensaios de John Stuart Mill (1806-1873), sob a direção de Theodor Gomperz (1832-1912), escritor e helenista austríaco, responsável pela publicação alemã das obras completas desse filósofo inglês, teórico do liberalismo político.O trabalho de Freud sobre a afasia (Uma concepção da afasia, estudo crítico[Zur Auffassung der Aphasien], 1891) permanecerá na sombra, embora ofereça a mais aprofundada e notável elaboração da afasiologia da época. Suas esperanças de notoriedade tampouco foram satisfeitas por seus trabalhos sobre a cocaína, publicados de 1884 a 1887.

Havia descoberto as propriedades analgésicas dessa substância, negligenciando as propriedades anestésicas, que seriam utilizadas com sucesso por K.Koller. A lembrança desse fracasso vai ser um dos elementos que originaram a elaboração de um sonho de Freud, a “monografia botânica”.Freud se encontrava, no início da década de 1880, na posição de pesquisador em neurofisiologia e de autor de trabalhos de valor, mas que não lhe permitia, por falta de assegurar a subsistência de uma família. Apesar de suas reticências, a única oferecida era abrir um consultório de neurologista na cidade, o que fez, de forma surpreendente, no domingo de Páscoa, 25 de abril de 1886.Em 1882, depois de obter seu diploma, ficou noivo de Martha Bernays (Martha Freud), que se tornaria sua mulher. Por razões financeiras, renunciou então à carreira de pesquisador e decidiu tornar-se clínico. Nos três anos seguintes, trabalhou no Hospital Geral de Viena, primeiro no serviço de Hermann Nothnagel, depois no de Theodor Meynert. Ali, ficou conhecendo Nathan Weiss (1851-1883), e quando esse novo amigo se suicidou por enforcamento, Freud ficou transtornado. “Sua vida, escreveu a Martha, parece ter sido a de um personagem de romance, e sua morte uma catástrofe inevitável.”Pensando em tornar-se célebre e libertar-se da pobreza para poder se casar, acreditava ter descoberto as virtudes da cocaína e administrou-a a seu amigo Ernst von Fleischl-Marxow, que sofria de uma doença incurável. Não percebia a dependência induzida pela droga e ignorava tudo sobre sua ação anestesiante, que seria descoberta por Carl Koller.

Em 1885, nomeado “Privatdozent” de neurologia, Freud obteve uma bolsa de estudos graças à qual pudera realizar um de seus sonhos, ir a Paris. Queria muito encontrar-se com Jean Martin Charcot, cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. Foi assim que teve um encontro determinante, na Salpêtrière, com Charcot. Deve-se observar que Charcot não se mostrou interessado nem pelos cortes histológicos que Freud lhe levou, como prova de seus trabalhos, nem pelo relato do tratamento de Anna O., cujos elementos clínicos principais seu amigo J. Breuer lhe tinha comunicado, a partir de 1882. Charcot quase não se interessava pela terapêutica, preocupando-se em descrever e classificar os fenômenos para tentar explica-los de forma racional.Essa primeira permanência na França marcou o início da grande aventura científica que o levaria à invenção da psicanálise.

No Teatro Saint-Martin, Freud assistiu maravilhado à representação de uma peça de Victorien Sardou, interpretada por Sarah Bernhardt: “Nunca uma atriz me surpreendeu tanto; eu estava pronto a acreditar em tudo o que ela dizia.” Depois de Paris, foi a Berlim, onde fez os cursos do pediatra Adolf Baginsky.De volta a Viena, instalou-se como médico particular, abrindo um consultório na Rathausstrasse. Freud também trabalhava, três tardes por semana, como neurologista na Clínica Steindlgasse, primeiro instituto público de pediatria, dirigido pelo professor Max Kassowitz (1842-1913). Em setembro de 1886, casou-se com Martha, e no dia 15 de outubro fez uma conferência sobre a histeria masculina na Sociedade dos Médicos, onde teve uma acolhida glacial, não em razão de suas teses (etiológicas), como diria depois, mas porque atribuía a Charcot a paternidade de noções que já eram conhecidas pelos médicos vienenses.Em 1887, um mês depois do nascimento de sua filha Mathilde (Hollitscher), Freud ficou conhecendo Wilhelm Fliess, brilhante médico judeu berlinense, que fazia amplas pesquisas sobre a fisiologia e a bissexualidade. Era o início de uma longa amizade e de uma soberba correspondência íntima e científica. Apesar de várias tentativas, Fliess não conseguiria curar Freud de sua paixão pelo fumo: “Comecei a fumar aos 24 anos, escreveu em 1929, primeiro cigarros, e logo exclusivamente charutos [...]. Penso que devo ao charuto um grande aumento da minha capacidade de trabalho e um melhor autocontrole.”Freud começa a utilizar os meios de que dispunha, a eletroterapia de W.H. Erb, a hipnose e a sugestão. As dificuldades encontradas levam-no a se ligar a A.A. Liébault e H. M. Bernheim, em Nancy, durante o verão de 1889. Traduz, aliás, as obras deste último para o alemão. Encontra nelas a confirmação das reservas e decepções que ele próprio sentia por tais métodos.Em setembro de 1891, Freud mudou-se para um apartamento situado no número 19 da rua Berggasse. Ficou ali até seu exílio em 1938, cercado por seus seis filhos (Mathilde, Mrtin, Oliver, Ernst, Sophie Halberstadt, Anna) e de sua cunhada Minna Bernays.

Como clínico, tratava essencialmente de mulheres da burguesia vienense, qualificadas como “doentes dos nervos” e sofrendo de distúrbios histéricos. Abandonando o niilismo terapêutico, tão comum nos meios médicos vienenses da época, procurou, ante de tudo, curar e tratar de suas pacientes, aliviando os seus sofrimentos psíquicos. Durante um ano, utilizou os métodos terapêuticos aceitos na época: massagens, hidroterapia, eletroterpia. Mas logo constatou que esses tratamentos não tinham nenhum efeito. Assim começou a utilizar a hipnose, inspirando-se nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim, a quem fez uma visita por ocasião do primeiro congresso internacional de hipnotismo, que se realizou em Paris em 1889. Em 1891, publicou uma monografia, “Contribuição à concepção das afasias”, na qual se baseava nas teorias de Hughlings Jackson para propor uma abordagem funcional, e não mais apenas neurofisiológica, dos distúrbios de linguagem. A doutrina das “localizações cerebrais” era substituída pelo associacionismo, que abria caminho para a definição de um “aparelho psíquico” tal como se encontraria na metapsicologia: ele faz sua primeira formulação em 1896 e estabelece seus fundamentos no capítulo VII da “Interpretação dos Sonhos”.Em 1890, consegue convencer seu amigo Breuer a escrever com ele uma obra sobre a histeria. Seu trabalho em comum dará lugar à publicação, em 1893, de “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar”, que irá abrir caminho para “Estudos sobre a histeria”; já se encontra nele a idéia freudiana de defesa, para proteger o sujeito de uma representação “insuportável” ou “incompatível”. No mesmo ano, em um texto intitulado “Algumas Considerações para um Estudo Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas”, publicado em francês em “Archives neurologiques”, Freud afirma que “a histeria se comporta, nessas paralisias e outras manifestações, como se a anatomia não existisse, ou como se ela não tomasse disso nenhum conhecimento”.

Os “Estudos sobre a histeria”, obra comum de Breuer e Freud, são publicados em junho de 1895. A obra comporta, além da Comunicação Preliminar, cinco observações de doentes: a primeira – de Anna O (Bertha Pappenheim) – é redigida por Breuer e é nela que se encontra a expressão tão feliz “Talking Cure”, proposta por Anna O; as quatro seguintes devem-se a Freud. A obra conclui com um texto teórico de Breuer e um outro sobre a psicoterapia da histeria, de Freud, onde se pode ver o início do que irá separar os dois autores no ano seguinte.Em “L’ Hérédité et l’Étiologie dês Névroses”, publicado em francês, em 1896, na “Revue neurologique”, Freud de fato afirma: “Experiência de passividade sexual antes antes da puberdade; é essa, pois, a etiologia específica da histeria”. No artigo, é empregado pela primeira vez o termo “psicanálise”. Foi também durante esses anos que a reflexão de Freud sobre a súbita interrupção feita for Breuer no tratamento de Anna O levou-o a conceber a transferência.Finalmente, deve-se assinalar a redação, em poucas semanas, no final de 1895, de “Projeto para uma Psicologia Científica” (Entwurf einer Psychologie), que Freud nunca irá publicar e que constitui, no começo, sua última tentativa de apoiar a psicologia sobre os dados mais recentes da neurofisiologia.

Trabalhando ao lado de Breuer, Freud abandonou progressivamente a hipnose pela catarse, inventou o método da associação livre, e enfim a psico-análise. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1896, e sua invenção foi atribuída a Breuer. Em 1897, com um relatório favorável de Nothnagel e de Richard von Krafft-Ebing, o nome de Freud foi proposto para receber o prestigioso título de professor extraordinário. Sua nomeação foi ratificada pelo imperador Francisco-José no dia 5 de março de 1902.Ao contrário de muitos intelectuais vienenses marcados pelo “ódio de si judeu”, Freud, judeu infiel e incrédulo, hostil a todos os rituais e à religião, nunca negaria sua judeidade. Como enfatizou Manès Sperber, ele continuaria sendo “um judeu consciente, que não dissimulava a ninguém sua origem, proclamando-a, ao contrário, com dignidade e freqüentemente com orgulho. Muitas vezes, afirmou que detestava Viena e que se sentia como que libertado a cada vez que se afastava dessa cidade, onde crescera e à qual ficaria ligado, entretanto, por laços indestrutíveis.

Sua consciência da identidade judaica permaneceria assim, pois sua origem nunca foi para ele uma fonte de sentimentos de inferioridade, embora ela lhe causasse problemas e dificuldades suplementares, principalmente em sua vida profissional”.Sua posição doutrinária está centrada na teoria do núcleo patogênico, constituído na infância, por ocasião de um trauma sexual real, decorrente da sedução por um adulto. O sintoma é a conseqüência do recalcamento das representações insuportáveis que constituem esse núcleo, e o tratamento consiste em trazer a consciência os elementos, como se extrai um “corpo estranho” , sendo a conseqüência do levantamento do recalque o desaparecimento do sintoma.Durante alguns dos anos que antecederam a publicação de “A interpretação de sonhos”, Freud introduz na nosografia, à qual não é indiferente, alguma entidade nova. Descreve a neurose de angústia, separando-a da categoria bastante heteróclita da neurastenia. Isola, pela primeira vez, a neurose obsessiva (alem. Zwangsneurose) e propõe o conceito de psiconeurose de defesa, no qual é integrada a paranóia.Porém, sua principal tarefa é a auto-análise, termo que irá empregar por pouco tempo. Eis o que diz sobre isto, na carta a W.Fliess, de 14 de novembro de 1887: “Minha auto-análise continua sempre em projeto, agora compreendi o motivo. É porque não posso analisar a mim mesmo a não ser me servindo de conhecimentos adquiridos objetivamente (como para um estranho). Uma verdadeira auto-análise é realmente impossível, de outro modo não haveria mais doença”.No âmbito de sua amizade com Fliess, ocorreram vários acontecimentos maiores na vida de Freud: sua auto-análise, um intercâmbio de caso (Emma Eckstein), a publicação de um primeiro grande livro, “Estudos sobre a histeria”, no qual são relatadas várias histórias de mulheres (Bertha Pappenheim, Fanny Moser, Aurélia Öhm, Anna von Lieben, Lucy, Elisabeth von R., Mathilde H., Rosalie H.), e enfim o abandono da teoria da sedução segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. Essa renúncia, fundamental para a história da psicanálise, ocorreu em 21 de setembro de 1897. Freud comunicou-a a Fliesse em tom enfático, em uma carta que se tornaria célebre: “Não acredito mais na minha Neurótica.”O encontro com Fliess remonta a 1887.

Freud começa a analisar sistematicamente seus sonhos, a partir de julho de 1895. Tudo se passa como se Freud, sem antes se dar conta disso, tivesse utilizado Fliess como intérprete, para efetuar sua própria análise. Seu pai morreu em 23 de outubro de 1896. Poder-se-ia pensar que tal acontecimento não foi estranho à descoberta do complexo de Édipo, do qual se encontra, um ano mais tarde, na carta a Fliess de 15 de outubro de 1897, a seguinte primeira formulação esquemática: “Acorreu-me ao espírito uma única idéia, de valor geral. Encontrei em mim, como em todo lugar, sentimentos de amor para com minha mãe e de ciúme para com meu pai, sentimentos que são, acho eu, comuns a todas as crianças pequenas, mesmo quando seu aparecimento não é tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas (de uma forma análoga à da romantização original nos paranóicos, heróis e fundadores de religiões). Se isso for assim, pode-se compreender, apesar de todas as objeções racionais que se opõem à hipótese de uma fatalidade inexorável, o efeito percebido em ‘Édipo rei’.

Também se pode compreender por que todos os dramas mais recentes do destino deveriam acabar miseravelmente...mas a lenda grega percebeu uma compulsão que todos reconhecem, pois todos a”. sentiram. Cada ouvinte foi, um dia, em germe, em imaginação, um Édipo, e espanta-se diante da realização de seu sonho, transportado para a realidade, estremecendo conforme o tamanho do recalcamento que separa seu estado infantil de seu estado atual”. Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente , centrada no recalcamento e no complexo de Édipo. Seu interesse pela tragédia de Sófocles foi contemporâneo de sua paixão por Hamlet. Freud era um grande leitor de literatura inglesa, alimentando-se especialmente da obra de Shakespeare: “Uma idéia atravessou o meu espírito, escreveu a Fliess em 1897, de que o conflito edipiano encenado em ‘Édipo rei’ de Sófocles poderia estar também no cerne de Hamlet. Não acredito em uma intenção consciente de Shakespeare, mas, antes, que um acontecimento real levou o poeta a escrever esse drama, tendo seu próprio inconsciente lhe permitido compreender o inconsciente do seu herói.” A ruptura definitiva com Fliess ocorrerá em 1902.Depois de 1926, e a despeito de uma longa discussão com James Strachey, Freud acabaria cedendo à crença segundo a qual Shakespeare não era o autor de sua obra.

Aliás, esse tema do deslocamento da atribuição de uma paternidade ou de uma identidade se encontraria por várias vezes em sua obra, principalmente em “Moisés e o monoteísmo”, na qual fez de Moisés um egípcio.Da nova teoria do inconsciente nasceria um segundo grande livro, publicado em novembro de 1899, “A Interpretação dos Sonhos” (Die Traumdeutung), no qual é relatado o sonho da “Injeção de Irmã”, ocorrido quando Freud estava em Bellevue, em julho de 1895, em um pequeno castelo na floresta vienense: “Você acredita, (escreveu a Fliess no dia 12 de julho de 1900), que haverá um dia nesta casa uma placa de mármore com esta inscrição: Foi nesta casa que, em 24 de julho de 1895, o ministério do sonho foi revelado ao doutor Sigmund Freud? Até agora, tenho pouca esperança.” O postulado inicial introduz uma ruptura radical com todos os discursos anteriores. O absurdo, a incongruência dos sonhos não é um acidente de ordem mecânica; o sonho tem um sentido, esse sentido está escondido e não decorre das figuras utilizadas pelo sonho, mas de um conjunto de elementos pertencentes ao próprio sonhador, fazendo com que a descoberta do sentido oculto dependa das “associações” produzidas pelo sujeito. Exclui-se, portanto, que esse sentido possa ser determinado sem a colaboração do sonhador.Aquilo com que estamos lidando é um texto; sem dúvida, o sonho é constituído principalmente de imagens, mas o acesso a elas só pode ser obtido pela narrativa do sonhador, que constitui seu “conteúdo manifesto”, que é preciso decifrar, como Champollion fez com os hieróglifos egípcios, para descobrir seu “conteúdo latente”.

O sonho é constituído como os “restos diurnos”, aos quais são transferidos os investimentos afetados pelas representações de desejo. O sonho, ao mesmo tempo em que protege o sono, assegura, de uma forma camuflada, uma certa “realização de desejo”. A elaboração do sonho é feita por técnicas especiais, estranhas ao pensamento consciente, a condensação (um mesmo elemento representava vários pensamentos do sonho) e o deslocamento (um elemento do sonho é colocado no lugar de um pensamento latente).Resultam dessa concepção do sonho uma estrutura particular do aparelho psíquico, que foi objeto do sétimo e último capítulo. Mais do que a divisão em três instâncias, consciente, pré-consciente e inconsciente, que especifica o que se chama de primeira tópica, convém conservar a idéia de uma divisão do psiquismo em dois tipos de instâncias, obedecendo a leis diferentes e separadas por uma fronteira que só pode ser ultrapassada em determinadas condições, consciente-pré-consciente, por um lado, inconsciente, por outro. Esse corte é radical e irredutível, nunca poderá haver “síntese”, mas apenas “tendência à síntese”. O sentimento próprio ao eu da unidade que constitui nosso mental não é mais do que uma ilusão. Um aparelho desse tipo torna problemática a apreensão da realidade, que deve ser constituída pelo sujeito.

A posição de Freud, aqui, é a mesma expressa no “Projeto”: “O inconsciente é o próprio psíquico e sua realidade essencial. Sua natureza íntima nos é tão desconhecida como a realidade do mundo exterior, e a consciência nos ensina sobre ela de uma maneira tão incompleta como nossos órgãos dos sentidos sobre o mundo exterior”.Para Freud, o sonho se encontra em uma espécie de encruzilhada entre o normal e o patológico, e as conclusões concernentes ao sonho serão consideradas por ele como válidas para explicar os estados neuróticos.“A psicopatologia da vida cotidiana” (Zur Psychopathologie dês Alltagslebens) é publicado no ano seguinte, em 1901. Ela começa, por exemplo, com um esquecimento de nome, o de Signorelli, análise já publicada por Freud em 1898; o esquecimento associa, em sua determinação, tanto com motivos sexuais como a idéia de morte. A obra reúne toda uma série de pequenos acidentes, aos quais quase não se dá, via de regra, nenhuma atenção, como os esquecimentos de palavras, as “lembranças encobridoras”, os lapsos da palavra ou escrita, os erros de leitura e escrita, os equívocos, os atos falhos, etc.Esses fatos podem ser considerados como manifestações do inconsciente, nas seguintes três condições: 1.não deve ultrapassar um certo limite fixado por nosso juízo, isto é, aquilo que chamamos de “os limites do ato normal”; 2.devem ter caráter de um distúrbio momentâneo; 3.não podem ser caracterizados assim a não ser que os motivos nos escapem e que fiquemos reduzidos a invocar o “acaso” ou a “falta de atenção”.“Ao colocar os atos falhos na mesma categoria das manifestações das psiconeuroses, damos um sentido e uma base a duas afirmativas que ouve repetir com freqüência, a saber, que entre o estado nervoso normal e o funcionamento nervoso anormal, não existe um limite claro e marcado (...). Todos os fenômenos em questão, sem nenhuma exceção, permitem que se chegue aos materiais psíquicos reprimidos incompletamente e que, embora recalcados pela consciência, não perderam toda a possibilidade de se manifestar e se exprimir”.

O terceiro texto, “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (Der Witz und seine Beziehung zum Unbewuften), é publicado em 1905. Diante desse material logo e difícil, alguns se perguntaram por que Freud tinha julgado necessário acumular uma quantidade tão grande de exemplos, com uma classificação complicada. Sem dúvida, porque suas teses eram difíceis de pôr em evidência. Eis as principais. “O espírito reside apenas na expressão verbal”. Os mecanismos são os mesmos do sonho, a condensação e o deslocamento. O prazer que o espírito engendra está ligado à técnica e à tendência satisfeita, hostil ou obscena. Porém, um terceiro ocupa sobretudo nele um papel principal, e é isso o que o distingue do cômico. “O espírito em geral precisa da intervenção de três personagens: aquele que faz a palavra, aquele que se diverte com a verve hostil ou sexual e, enfim, aquele no qual é realizada a intenção do espírito, que é a de produzir prazer”. Finalmente: “Só é espirituoso aquilo que é aceito como tal”.

Compreende-se então a dificuldade para traduzir a palavra alemã “Witz”, que não tem equivalente em francês, mas também a dificuldade de seu manejo em alemão, por aquilo que acaba de ser lembrado e pela diversidade dos exemplos utilizados, histórias engraçadas, chistes, trocadilhos, etc. A especificidade do “Witz” explica a atenção que Freud tem em distingui-lo do cômico, distinção assim resumida: “O espírito é, por assim dizer, para o cômico, a contribuição que lhe vem do domínio do inconsciente”.No mesmo ano, surgem os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie), onde é afirmada e ilustrada a importância da sexualidade infantil e proposto um esquema da evolução da libido, por suas fases caracterizadas pela sucessiva dominância das zonas erógenas bucal, anal e genital. Nesse texto a criança, em relação à sexualidade, é definida como um “perverso polimorfo”, e a neurose é situada como “o negativo da perversão”.Mais ou menos entre 1905 e 1918, irão se suceder um grande número de textos referentes à técnica e, para ilustra-la, apresentações de casos clínicos. Entre estes últimos estão as “Cinco psicanálises”:Em 1905, “Fragmento da análise de um caso de histeria”: observação de uma paciente chamada Dora, centrada em dois sonhos principais, cujo trabalho de interpretação ocupa sua maior parte.Em 1909, “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos” (o pequeno Hans): Freud verifica a exatidão das “reconstituições” efetuadas no adulto.

Também em 1909, “Notas sobre um caso de neurose obsessiva” (O Homem dos Ratos): a análise é dominada por um voto inconsciente de morte, e Freud se espanta ao verificar, “ainda mais” em um obsessivo, as descobertas feitas no estudo da histeria.Em 1911, “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia” (Dementia paranoides) (o presidente Schreber): a particularidade dessa análise se prende ao fato de que Freud nunca encontrou o paciente, contentando-se em trabalhar com as “Memórias” nas quais este descrevera sua doença, dando a elas um interesse científico.Finalmente, em 1918, “História de uma neurose infantil” (O Homem dos Lobos): a observação foi para Freud de particular importância. Ela fornecia a prova da existência, na criança, de uma neurose perfeitamente constituída, seja ela aparente ou não, nada mais sendo a do adulto do que uma exteriorização e repetição da neurose infantil; ela demonstrou a importância dos motivos libidinais e a ausência de aspirações culturais, ao contrário de C. Jung; ela forneceu uma exata ilustração da constituição do fantasma e do lugar da cena primitiva.Em 1902, com Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Max Kahane (1866-1923) e Rudolf Reitler (1865-1917), fundou a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, primeiro círculo da história do freudismo. Durante os anos que se seguiram, muitas personalidades do mundo vienense se juntaram ao grupo: Paul Federn, Otto Rank, Fritz Wittels, Isidor Sadger.

Foi durante essas reuniões que se elaborou a idéia de uma possível aplicação da psicanálise a todas as áreas do saber: literatura, antropologia, história, etc. O próprio Freud defendeu a noção de psicanálise aplicada, publicando uma fantasia literária: “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907)”.Em 1907 e 1908, o círculo dos primeiros discípulos freudianos se ampliou ainda mais, com a adesão à psicanálise de Hanns Sachs, Sandor Ferenczi, Karl Abraham, Ernest Jones, Abraham Arden Brill e Max Eitingon.Durante o primeiro quarto do século, a doutrina freudiana se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha, costa leste dos Estados Unidos. Na Suíça produziu-se um acontecimento maior na história do movimento psicanalítico : Eugen Bleuler, médico-chefe da clínica do Hospital Burghölzli de Zurique, começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses, inventando ao mesmo tempo a noção de esquizofrenia. Uma nova “terra prometida” se abriu assim à doutrina freudiana: ela podia a partir de então investir o saber psiquiátrico e tentar dar uma solução para o enigma da loucura humana.No dia 3 de março de 1907, Carl Gustav Jung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena para conhecer Freud. Depois de várias horas de conversa, ficou encantado com esse novo mestre. Seria o primeiro discípulo não-judeu de Freud.

Em 1909, a convite de Grandville Stanley Hall, Freud foi, em companhia de Jung e de Ferenczi, à Clark University de Worcester, em Massachusetts, para dar cinco conferências, que seriam reunidas sob o título de “Cinco lições de psicanálise”. Apesar de um encontro produtivo com James Jackson Putnam e de um sucesso considerável, Freud não gostou do continente americano. Durante toda a vida, desconfiaria do espírito pragmático e puritado desse país que acolhia suas idéias com entusiasmo ingênuo e desconcertante.Temendo o anti-semitismo e que a psicanálise fosse assimilada a uma “ciência-judaica”, Freud decidiu “desjudalizá-la”, pondo Jung à frente, como presidente, do movimento. Depois de um primeiro congresso, que reuniu em Salzburgo em 1908 todas as sociedades locais, criou com Ferenczi, em Nuremberg, em 1910, uma associação internacional, a Sociedade Psicanalítica de Viena “Internationale Psychoanalytische Vereinigung” (IPV). Em 1933, a sigla alemã seria abandonada. A IPV se tornaria então a Associação Internacional de Psicanálise “International Psychoanalytical Association” (IPA).Entre 1909 e 1913, Freud publicou mais duas obras: “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância” (1910) e “Totem e tabu” (1912-1913). A partir de 1910, a expansão do movimento se traduziu por dissidências, tendo como motivo simultaneamente quer elas pessoais e questões teóricas e técnicas. Às rivalidades narcísicas se acrescentaram críticas sobre a duração dos tratamentos, a questão da transferência e da contratransferência, o lugar da sexualidade e a definição da noção de inconsciente.

Inicialmente, está a questão do pai, tratada com uma excepcional amplidão, em “Totem e tabu”, e retomada a partir de um exemplo particular, em “Moisés e o monoteísmo” (1932-1938). Ela constitui um dos pontos mais difíceis da doutrina de Freud, devido ao polimorfismo da função paterna em sua obra. Mais tarde, foi o conceito de narcisismo que foi objeto do grande artigo em 1914, “Sobre o narcisismo: uma introdução”, necessária para levantar as dificuldades encontradas na análise de Schreber e tentar explicar as psicoses, mas também para esboçar uma teoria do eu. “O estranho” (Das Unheimliche), publicado em 1919, refere-se especialmente à problemática da castração. Porém, a maior alteração decorreu da conceitualização do automatismo de repetição e do instinto de morte, que são o assunto de “Além do princípio de prazer” (Jenseits dês Lustprinzips, 1920). A teoria do eu e da identificação serão os temas centrais de “Psicologia de grupo e análise do ego” (Massenpsychologie umd Ich-Analyse, 1921).Finalmente, “A Negativa” (Die Verneinung, 1925) irá sublinhar a primazia da palavra, na experiência psicanalítica, ao mesmo tempo em que define um modo particular de presentificação do inconsciente.Freud nunca deixou de tentar reunir, em uma visão que chama de metapsicologia, as descobertas que sua técnica permitiu e as elaborações que nunca deixaram de acompanhar sua prática, mesmo afirmando que esse esforço não deveria ser interpretado como uma tentativa de constituição de uma nova “visão do mundo” (Weltanschauung).Certos remanejamentos valem como correções de posições anteriores.

Este é o caso da teoria do fantasma que, por volta de 1910, irá substituir a primeira teoria traumática da sedução precoce (Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, 1907; Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, 1911; “O Homem dos Lobos”, 1918).Esse também foi o caso do masoquismo, considerado, num primeiro momento, como uma inversão do sadismo. As teses de “Além do princípio do prazer” permitirão a concepção de um masoquismo primário, que Freud será levado a tornar equivalente, em “O problema econômico do masoquismo” (1925), ao instinto de morte e ao sentimento de culpa irredutível e inexplicado, revelado por certas análises.De forma sem dúvida arbitrária, pode-se classificar, nos remanejamentos tornados necessários devido ao desgaste dos termos (embora muitos outros motivos o justifiquem), a introdução da segunda tópica, constituída pela três instâncias, isso, eu e supereu (O ego e o id [Das Ich und das Es], 1923), as novas considerações sobre a angústia, como sinal de perigo (Inibições, sintomas e ansiedade/angústia [Hemmung, Symptom und Angst], 1926) e, finalmente, o último texto, inacabado, “A divisão do ego no processo de defesa (Die Ichspaltung im Abwehvorgang, 1938), no qual Freud anuncia que, apesar das aparências, o que irá dizer, referindo-se à observação do artigo de 1927, sobre o fetichismo, também era então totalmente novo. E, de fato, as formulações nele propostas apresentem-se como um esboço de uma remodelagem de toda a economia de sua doutrina.”Na obra de Freud, dois textos possuem, aparentemente, um estatuto um tanto especial.

São eles “O futuro de uma ilusão” (Die Zukunft einer Illusion), publicado em 1927, que examina a questão da religião, e “O mal-estar na civilização” (Das Unbehagen in der Kultur, 1929), dedicado ao problema da felicidade, considerada pro Freud inatingível, e às exigências exorbitantes da organização social ao sujeito humano.De fato, trata-se da consideração de fenômenos sociais, à luz da experiência psicanalítica. Na realidade, como sempre acontece com Freud, o ângulo escolhido para tratar de qualquer questão serve-lhe, antes de tudo, para dar esclarecimentos ou indicações sobre aspectos importantes da experiência. Isso ocorre, em “O Futuro”, com a questão do pai e a de Deus, como seu corolário; em “O mal-estar”, a maldade fundamental do ser humano e a constatação paradoxal de que quanto mais o sujeito satisfaz os imperativos morais, os do supereu, mais este se mostra exigente. Em 1911, Adler e Stekel se separaram do grupo freudiano. Dois anos depois, Jung e Freud romperam todas as suas relações. Não suportando desvios em relação à sua doutrina, Freud publicou, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um verdadeiro panfleto, “A história do movimento psicanalítico”, no qual denunciou as traições de Jung e Adler. Depois, criou um Comitê Secreto, composto de seus melhores paladinos, aos quais distribuiu um anel de fidelidade.Longe de evitar as dissidências, essa iniciativa levou a novas querelas. Apoiados por Jones, os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconizava a ortodoxia institucional, enquanto os austro-húngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam mais pelas inovações técnicas. Uma nova dissidência marcou ainda a história desse primeiro freudismo: a de Wilhelm Reich.Por volta de 1930, o fenômeno da dissidência deu lugar às cisões, característica da transformação da psicanálise em um movimento de massa. A partir daí eram os grupos que se enfrentavam, não mais os discípulos ou os pioneiros em rivalidade com o mestre. Isolado em Viena, mas célebre no mundo inteiro, Freud prosseguiu sua obra, sem conseguir controlar a política de seu movimento. Entre 1919 e 1933, a IPA se transformou em uma verdadeira máquina burocrática, com a responsabilidade de resolver todos os problemas técnicos relativos à formação dos psicanalistas.

No fim da Primeira Guerra Mundial, a discussão sobre o caráter traumático das afecções psíquicas foi relançada, com o aparecimento das neuroses de guerra. Freud foi então confrontado com seu velho rival Julius Wagner Jauregg, acusado de ter submetido soldados julgados simuladores a inúteis tratamentos elétricos. Nesse debate, Freud interveio de maneira magistral para demonstrar a superioridade da psicanálise sobre todos os outros métodos.Com o desmoronamento do império austro-húngaro, Berlim se tornou a capital do freudismo, como provou a criação do Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), e as numerosas atividades do instituto de Frankfurt em torno de Otto Fenichel e da “esquerda freudiana”. Enquanto os americanos afluíam a Viena para se formar no divã do mestre, este analisava a própria filha, Anna Freud. Esta não tardaria a tornar-se chefe de escola e opor-se a Melanie Klein, sua principal rival no campo da psicanálise de crianças. Nesse aspecto, a oposição entre a escola vienense, que se desenvolveu na IPA a partir de 1924 e que girava em torno da questão da sexualidade feminina, mostrou o lugar cada vez mais importante das mulheres no movimento psicanalítico. No centro dessa polêmica, Freud manteve sua teoria da libido única e do falocentrismo, sem com isso mostrar-se misógino.

Ligado em sua vida particular a uma concepção burguesa da família patriarcal, adotava todavia, em suas amizades com mulheres intelectuais, uma atitude perfeitamente cortês, moderna e igualitária. Por sua doutrina e por sua condição de terapeuta, desempenhou um papel na emancipação feminina.Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: “Mais-além do princípio do prazer” (1920), “`Psicologia das massas e análise do eu” (1921), “O eu e o isso” (1923). Esse movimento de reformulação conceitual já começara em 1914, quando da publicação de um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se, em 1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte, no qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de “organizar-se em vista da morte, a fim de melhor suportar a vida”. Dessa reformulação, centrada na dialética da vida e da morte e em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso, nasceriam as diferentes correntes do freudismo moderno: kleinismo, Ego Psychology, Self Psychology, lacanismo, annafreudismo, Independentes.Para postular a existência de uma pulsão de morte, Freud revalorizou duas figuras da mitologia grega: Eros e Tânatos. Essa revisão da doutrina original se produziu em um momento em que a sociedade vienense, já preocupada com a sua própria morte desde o fim do século, se confrontava com a negação absoluta de sua identidade: a Áustria dessa época, como enfatizou Stefan Zweig, era, no mapa da Europa, apenas “uma luz crepuscular”, uma “sombra cinzenta, difusa e sem vida, da antiga monarquia imperial”.

Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do lado direito de seu palato, um pequeno tumor, que devia ser logo extirpado. Em um primeiro tempo, Felix Deutsch, seu médico, lhe ocultou a natureza maligna desse tumor. Freud se indispôs com ele. Seis meses depois, Hans Pichler, cirurgião vienense, procedeu a uma intervenção radical: a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Trinta e uma operções seriam feitas posteriormente, sob a supervisão de Max Schur. Freud foi obrigado a suportar uma prótese, que ele chamava de “monstro”. “Com seu palato artificial, escreveu Zweig, ele tinha visivelmente dificuldade para falar [...]. Mas não abandonava seus interlocutores. Sua alma de aço tinha a ambição particular de provar a seus amigos que sua vontade era mais forte que os tormentos mesquinhos que o seu corpo lhe infligia [...]. Era um combate terrível, e cada vez mais sublime à medida que se estendia. Cada vez que eu o via, a morte jogava mais distintamente sua sombra sobre seu rosto [...]. Um dia, quando de uma de minhas últimas visitas, levei comigo Salvador Dali, a meu ver o pintor mais talentoso da jovem geração, que devotava a Freud uma veneração extraordinária. Enquanto eu falava, ele desenhou um esboço. Nunca tive coragem de mostrá-lo a Freud, pois Dali, em sua clarividência, já representara o trabalho da morte.” A doença não impedia Freud de prosseguir com suas atividades, mas o mantinha afastado das questões do movimento psicanalítico, e foi Jones quem presidiu os destinos da IPA a partir de 1934, data na qual Max Eitingon foi obrigado a deixar a Alemanha.Apaixonado por telepatia, Freud não hesitou em se dedicar, com Ferenczi, entre 1921 e 1933, a experiências ditas “ocultas”, que iam contra a política jonesiana, que visava dar à psicanálise uma base racional, científica e médica. Em 1926, depois de um processo intentado contra Theodor Reik, tomou vigorosamente a defesa dos psicanalistas não-médicos, publicando “A questão da análise leiga”.

No ano seguinte, deflagrou com seu amigo Oskar Pfister uma polêmica ao publicar “O futuro de uma ilusão”, obra na qual comparava a religião a uma neurose. Enfim, em 1930, com “O mal-estar na cultura”, questionava a capacidade das sociedades democráticas modernas de dominar as pulsões destrutivas que levam os homens à sua perda. Dois anos depois, em um intercâmbio com Albert Einstein (1879-1955), enfatizou que o desenvolvimento da cultura era sempre uma maneira de trabalhar contra a guerra. Entre 1929 e 1939, manteve uma crônica de seus encontros (Kürzeste Chronik, Crônica brevíssima), que seria publicada por Michael Molnar em Londres, em 1992. Cada vez mais pessimista quanto ao futuro da humanidade, Freud não tinha nenhuma ilusão sobre a maneira como o nazismo tratava os judeus e a psicanálise: “Como homem verdadeiramente humano, escreveu Zweig, ele estava profundamente abalado, mas o pensador não se surpreendia absolutamente com a espantosa irrupção da bestialidade.” Entretanto, no dia seguinte ao incêndio do Reichstag, decidiu com Eitingon manter a existência do BPI. Embora não aprovasse a política de “salvamento” da psicanálise, preconizada por Jones, cometeu o erro de privilegiar a luta contra os dissidentes (Reich e os adlerianos), ao invés de recusar qualquer compromisso com Matthias Heinrich Göring, o que teria levado à suspensão de todas as atividades psicanalíticas, logo que Hitler chegou ao poder.Mas em março de 1938, no momento da invasão da Áustria pelas tropas alemãs, Richard Sterba agiu em sentido contrário, decidindo recusar a política de Jones e não criar em Viena um instituto “arianizado” como o de Göring, em Berlim. Tomou-se então a decisão de dissolver a Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV) e transportá-la “para onde Freud fosse morar”. Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud pôde deixar Viena com sua família. No momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional-Socialista. Em Londres, instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20, futuro Freud Museum. Ali, redigiu sua última obra, “Moisés e o monoteísmo”. Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração.

No começo do mês de setembro de 1939, escutava o rádio todos os dias. Aos seus familiares, que lhe perguntavam se aquela seria a última guerra, respondia: “Será minha última guerra.” Iniciou então a leitura de “Peau de chagrin” de Honoré de Balzac (1799-1850): “É exatamente disso que preciso, disse, este livro fala de definhamento e de morte por inanição.” Em 21 de setembro, pegou a mão de Max Schur e lembrou o primeiro encontro dos dois: “Você prometeu não me abandonar quando chegasse a hora. Agora é só uma tortura sem sentido.” Depois, acrescentou: “Fale com Anna; se ela achar que está bem, vamos acabar com isso.” Consultada, Anna quis adiar o instante fatal, mas Schur insistiu e ela aceitou a decisão. Por três vezes, ela deu a Freud uma injeção de três centigramas de morfina. Em 23 de setembro, às três horas da manhã, depois de dois dias de coma, Freud morreu tranqüilamente: “Foi a sublime conclusão de uma vida sublime, escreveu Zweig, uma morte memorável em meio à hecatombe, daquela época mortífera. E quando nós, seus amigos, enterramos seu caixão, sabíamos que confiávamos à terra inglesa o que a nossa pátria tinha de melhor.” As cinzas de Freud repousam no crematório de Golders Green.Centenas de obras foram escritas no mundo sobre Freud e algumas dezenas de biografias lhe foram consagradas, de Fritz Wittels a Peter Gay, passando por Lou Andréas Salomé, Thomas Mann, Siegfried Bernfld, Ernest Jones, Ola Andersson, Henri F. Ellenberger, Max Schur, Kurt Eissler, Didier Anzieu, Carl Schorske.

Sua obra, traduzida em cerca de 30 línguas, é composta de 24 livros propriamente ditos (dos quais dois em colaboração, um com Josef Breuer, outro com William Bullitt) e de 123 artigos. Freud também escreveu prefácios, necrológios, intervenções diversas em congressos e contribuições para enciclopédias.Acredita-se geralmente que a psicanálise renovou o interesse tradicionalmente atribuído aos eventos da existência para compreender ou interpretar o comportamento e as obras dos homens excepcionais. Isso não é verdade, e Freud, sobre isso, é categórico: “Quem quiser se tornar biógrafo deve se comprometer com a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e até mesmo com a dissimulação de sua incompreensão, pois a verdade biográfica não é acessível e, se o fosse, não serviria de nada” (carta a A. Zweig, de 31 de maio de 1936).Kurt Eissler avaliou em 15 mil o número de cartas escritas por Freud e em cerca de 10 mil as que estão depositadas na Biblioteca do Congresso, em Washington ou seja uma perda de aproximadamente cinco mil peças. O historiador alemão Gerhard Fichtner propôs outras cifras. Segundo ele, Freud teria escrito cerca de 20 mil cartas. Dez mil teriam sido destruídas ou perdidas, cinco mil estão conservadas e cinco mil ainda poderiam ser encontradas no século XXI, ou seja dez mil no total.

Observe-se que Freud destruiu ou perdeu uma parte das cartas que seus correspondentes lhe enviaram, particularmente as de Wilhelm Fliess.Três mil e duzentas cartas de Freud foram publicadas, entre as quais as dirigidas a Eduard Silberstein, Wilhelm Fliess, Lou Andréas-Salomé, Ernest Jones, Carl Gustav Jung, Sandor Ferenczi, Romain Rolland, Arnold Zweig, Stefan Zweig, Edoardo Weiss, Oska Pfister (expurgadas), Karl Abraham (expurgadas).Duas edições completas da obra de Freud em alemão foram realizadas: uma durante sua vida, os “Gesammelte Schriften”, a outra depois em sua morte, as “Gesammelte Werke (GW)”, publicadas primeiro em Londres, depois em Frankfurt. As GW se tornaram, universalmente, a edição de referência. Foram completadas por dois outros volumes, um “Índice” e um volume de suplementos (Nachtragsband), realizado por Ângela Richards e Ilse Grubrich-Simitis. A estes se acrescentam uma edição dita de estudos, a Studienausgabe, elaborada por Alexander Mitscherlich e composta de um seleção de textos. Apesar de todos os esforços de Mitscerlich e de Ilse Grubrich-Simitis, nenhuma edição dita crítica das GW (notas, comentários, apresentações, etc.) foi publicada na Alemanha.A edição inglesa, realizada por James Strachey sob o título “Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (SE)”, é a única edição crítica da obra de Freud.

É por isso que, mais ainda do que as “Gesammelte Werke”, é uma obra de referência no mundo inteiro. Em razão da oposição dos herdeiros nenhum dos textos de Freud anterior ao ano de 1886 foi integrado às diversas obras completas. Ora, durante esse período, dito pré-psicanalítico, que se estendeu de 1877 a 1886, Freud publicou 21 artigos sobre temas diversos: neurologia, medicina, histologia, cocaína, etc. Esses artigos foram recenseados em 1973 por Roger Dufresne.Em 1967, Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis isolaram cerca de 90 conceitos estritamente freudianos no interior de um vocabulário psicanalítico composto de 430 termos. Esses conceitos foram objeto de múltiplas revisões, efetuadas pelos grandes teóricos e clínicos do freudismo: Sandor Ferenczi, Melanie Klein, Jacques Lacan, Donald Woods Winnicott, Heinz Kohut, etc. Observe-se que Freud publicou cinco grandes casos clínicos, que foram comentados ou revistos por seus sucessores: Ida Bauer (Dora), Herbert Graf (O Pequeno Hans), Ernst Lanzer (O Homem dos Ratos), Daniel Paul Schreber, Serguei Constantinovitch Pankejeff (O Homem dos Lobos). Segundo o quadro das filiações estabelecido por Ernst Falzeder em 1994, Freud formou na análise didática mais de 60 práticos, na maioria alemães, autríacos, ingleses, húngaros, neerlandeses, americanos, suíços, aos quais se acrescentam os pacientes cuja identidade se ignora.

Foi talvez Stefan Zweig, em 1942, quem redigiu um dos relatos mais realistas de Freud: “Não se podia imaginar um indivíduo de espírito mais intrépido. Freud ousava a cada instante expressar o que pensava, mesmo quando sabia que inquietava e perturbava com suas declarações claras e inexoráveis; nunca procurava tornar sua posição menos difícil através da menor concessão, mesmo de pura forma. Estou convencido de que Freud poderia ter exposto, sem encontrar resistência por parte da universidade, quatro quintos de suas teorias, se estivesse disposto a vesti-las prudentemente, a dizer “erótico” em vez de “sexualidade”, “Eros” em vez de “libido” e a não ir sempre até o fundo das coisas, mas limitar-se a sugeri-las. Mas, desde que se tratasse de seu ensino e da verdade, ficava intransigente; quanto mais firme era a resistência, tanto mais ele se afirmava em sua resolução. Quando procuro um símbolo da coragem moral- o único heroísmo no mundo que não exige vítimas – vejo sempre diante de mim o belo rosto de Freud, com sua clareza viril, com seus olhos sombrios de olhar reto e viril”.

13.1.06

Biografia de Richard Strauss

Richard Strauss (1864-1949)

Biografia

Richard Strauss nasceu em Munique, Alemanha, no dia 11 de junho de 1864. O pai era um excelente músico, trompista da Ópera de Munique, e deu todos os meios para que o pequeno Richard, que já dava sinais de entusiasmo pela música, desenvolvesse seu talento. Inclusive, apesar de sua antipatia pela música de Wagner, levou o filho, quando este tinha 18 anos, para Bayreuth. Futuramente, a influência wagneriana, para desgosto do conservador pai, iria ser determinante para a música de Strauss.
Mas Richard ainda estava iniciando sua carreira. Compunha bastante, e suas primeiras obras recebiam boa acolhida, sendo inclusive regidas por importantes maestros, como Hermann Levi e Hans von Bülow. O último achou o jovem músico tão promissor que o contratou, em 1885, para ser seu assistente em Meiningen.
Em Meiningen, Strauss acabou conhecendo Alexander Ritter, o primeiro-violino da orquestra. Ritter era defensor do que se chamava, na época, de "música do futuro": os poemas sinfônicos de Liszt e o drama musical de Wagner, que tanto tinha impressionado Richard em sua passagem por Bayreuth. Strauss, através das influências de Bülow e do pai, seguia uma linha mais tradicional, mais ligada à música pura - o que é demonstrado claramente nas primeiras obras, de feição bastante mozartiana até. Depois da amizade com Ritter, a mudança seria total. O próprio Strauss confessaria mais tarde: "foi Ritter quem fez de mim um músico do futuro".

Foi então que Strauss começou a escrever algumas obras-primas no gênero que o tornaria famoso: o poema sinfônico. O primeiro foi Aus Italien, composto em 1886. Em seguida a ele viriam Don Juan, de 1888, Morte e transfiguração, de 1889, Till Eulenspiegel, de 1894, Assim falou Zaratustra, de 1895, Dom Quixote, de 1897, e Uma vida de herói, de 1898. Enquanto isso, compunha dezenas de lieder, outro dos gêneros a qual se dedicou.
Mas o sonho oculto de Strauss era o teatro: ele queria escrever uma ópera. A primeira tentativa se deu entre 1887 e 1893 e resultou em Guntram. A segunda foi feita em 1900, quando foi composta Feuersnot. Hoje, a crítica considera essas duas óperas meros ensaios, um tanto infrutíferos. O golpe de mestre só seria proferido em 1905, com a estréia da ópera Salomé.
Salomé, baseada em uma peça teatral de Oscar Wilde, foi o primeiro grande sucesso operístico de Strauss. Irmã desta seria a ópera Elektra, primeira colaboração com o libretista Hugo von Hofmannsthal, estreada em 1909.

Strauss parecia estar se tornando um "Wagner exasperado", nas palavras de Debussy, quando surpreendeu a todos com O cavaleiro da rosa, mais uma vez com libreto de Hoffmannstahl, estreada em 1911. A ópera, ambientada na galante Viena do século XVIII, é leve e luminosa: as semelhanças com Mozart seriam mais vezes lembradas pelos críticos. Obra totalmente diversoa em espírito das sombrias, muitas vezes cruentas, Salomé e Elektra. Outra mudança de rumo?
Sim. Em 1916, foi finalizada Ariadne auf Naxos; desta vez a referência não era o rococó, mas o barroco, que estava na moda. O contraste com Salomé não poderia ser maior - enquanto esta requeria uma orquestra gigantesca, com mais de cem músicos, Ariadne auf Naxos pede apenas um conjunto de câmara, de 35 músicos.

Enquanto isso, Strauss construía uma carreira invejável. Após inúmeros anos como diretor da Ópera Real de Berlim, em 1919 foi nomeado para a direção da Ópera de Viena, lá permanecendo por cinco anos. Além de reger e compor, não parava: em 1917, junto com Hoffmannsthal, ajudou a criar o Festival de Salzburgo, ao mesmo tempo em que organizava um sindicato de músicos.
Mas estava em uma entressafra composicional. Em 1915 terminou a Sinfonia Alpina, em que voltava ao universo dos poemas sinfônicos, mas combinado a um gênero mais "clássico". Em 1917, estreou a ópera A mulher sem sombra, que não atingiu o nível das obras anteriores.
O sucesso só viria novamente com a ópera Arabella, finalizada em 1932. O libreto ainda é do fiel Hoffmannsthal, que morreu sem ver a ópera composta. Arabella retoma a linha límpida de O cavaleiro da rosa, e inclusive presta homenagem às valsas de seu xará vienense mais famoso, Johann Strauss Jr.

Por essa época, o nazismo já era o regime na Alemanha, e Richard Strauss acabou se envolvendo, um tanto que ingenuamente, com o sistema. Aceitou ser o presidente da Câmara de Música do Reich e, apesar de ser demitido por Goebbels (insistiu em colocar o nome de seu libretista Stefan Zweig, um judeu, no cartaz da ópera A mulher silenciosa, que estreou em 1935), não foi mais incomodado pelos nazistas.

Pouco a pouco, Strauss foi se isolando em sua casa de campo em Gramisch. Sua carreira chegava ao fim. Mas ainda viveria mais dez anos, e estes nos dariam mais algumas obras-primas: a "meta-ópera" Capriccio, concertos (para oboé, o segundo para trompa), o poema sinfônico Metamorfoses, as Quatro últimas canções.

Com esta magistral coleção de lieder, Strauss dava adeus à vida. A última canção termina com uma comovente citação de uma obra de juventude, Morte e transfiguração. No dia 8 de setembro de 1949, morria Richard Strauss.

Obras

Richard Strauss, que nasceu enquanto Wagner erigia seu templo musical e enquanto Brahms escrevia suas obras-primas, morreu junto com Bartók e Schoenberg, dois grandes símbolos da modernidade vanguardista da primeira metade do século XX. E acabou não pertencendo a nenhuma das duas correntes.

É um artista de transição. Embora Strauss tenha se definido como um "músico do futuro" na juventude e assustado os críticos com as "cacofonias heterodoxas" de seus primeiros poemas sinfônicos, ao morrer era, perto de compositores como Stravinsky e até mesmo de contemporâneos como Debussy, um músico do século XIX. Como explicar essa contradição? Talvez a constatação seja a de que Strauss foi, principalmente, um compositor de juventude. Mas é uma observação injusta.

Richard Strauss tem quatro fases principais em sua carreira: a primeira, descontando-se as obras juvenis, "moderna" (pelo menos para sua época), dos poemas sinfônicos como Don Juan e Assim falou Zaratustra; a segunda, das "óperas sombrias" Salomé e Elektra; a terceira, das "óperas róseas" O cavaleiro da rosa e Ariadne auf Naxos; a última, com as últimas obras-primas, Metamorfoses e as Quatro últimas canções.

Todas as obras citadas são exemplos perfeitos dos três gêneros em que Strauss foi um mestre consumado: o poema sinfônico, a ópera e o lied. Excetuando-se as incursões que fez nos gêneros clássicos (as primeiras composições, a Sinfonia Doméstica, a Sinfonia Alpina, os concertos para oboé e trompa), estes foram os únicos gêneros que trabalhou.

Os Poemas Sinfônicos

Os poemas sinfônicos formam a parte mais querida pelo público da obra de Strauss. A grande parte deles foi composta entre 1886 e 1898, nos anos posteriores à estadia em Meiningen. Neles Strauss mostra-se um orquestrador de enorme estatura, do calibre de um Rimsky-Korsakov, de um Ravel. Como o maestro Sir Georg Solti gostava de exagerar, "em Strauss a orquestração é tão fantástica que até quando a música é mal tocada ela soa maravilhosamente bem".
Cada um dos poemas sinfônicos de Strauss é uma pequeno universo: Don Juan, mais próximo das obras similares de Liszt, evoca a imagem do mito; já Dom Quixote e Assim falou Zaratustra voltam-se mais ao modelo de Berlioz, com suas referências aos gêneros tradicionais (Dom Quixote, quase um concerto para violoncelo, Zaratustra, uma sinfonia heterodoxa); Till Eulenspiegel e Uma vida de herói contam uma história (na última obra, a do próprio compositor, e há citações dos outros poemas sinfônicos); Morte e transfiguração tem um caráter metafísico bastante ambicioso.

Muitas vezes, Strauss trabalha seus programáticos poemas sinfônicos em formas clássicas, mas expandidas: Till Eulenspiegel é um complexo rondó, Morte e transfiguração é uma forma-sonata bastante modificada.
O conjunto dos poemas sinfônicos de Strauss formam, certamente, o mais criativo e elaborado já composto no gênero, e estão entre as obras mais interessantes do compositor. São, certamente as mais queridas e executadas: todas elas estão no repertório usual das maiores orquestras do mundo.

As Operas

Strauss dedicou a maior parte de sua longa vida à ópera. Após algumas tentativas mal-sucedidas, ele acertou a mão em Salomé, sobre texto de Oscar Wilde. Sua temática bíblica, altamente simbólica (a dúvida de Salomé entre a corrupção de Herodes e a pureza de João Batista), aliada à música complexa, "dissonante", intensa, de forte carga dramática, fazem de Salomé uma ópera moderna e chocante ainda nos dias de hoje.
Elektra, a recriação do mito grego, é uma ópera da mesma extirpe. Juntamente com Salomé, ela forma o grupo das óperas straussianas "modernas", para os críticos as mais importantes do compositor e as primeiras grandes óperas do século XX. Elas estão bastante integradas aos primeiros poemas sinfônicos de Strauss: orquestração suntuosa, grande liberdade formal e temática, enorme força inventiva. Alguns teóricos enxergam as duas óperas como grandes poemas sinfônicos cantados.
Com O cavaleiro da rosa, depois com Ariadne auf Naxos, Arabella e Capriccio, Richard Strauss faria uma reviravolta: nada de estridências nem de complexas orquestrações. A referência aqui é o mundo suave da Viena oitocentista, das valsas, a atmosfera é de encantamento, de doçura, de nostalgia. Não são obras tão importantes historicamente quanto Salomé, mas elas têm muitos e fiéis defensores e estão até hoje no repertório das companhias de ópera no mundo inteiro.

Os Lieder

Richard Strauss também foi um grande compositor de canções. A maior parte dos 150 lieder que compôs se encontra em sua primeira fase de composição. São obras contemporâneas aos poemas sinfônicos. Algumas obras-primas desse período: Zeuignung, Ständchen, Ruhe meine Seele, Du meines Herzens Krönelein, Nichts, Schlechtes Wetter. A maior parte das canções, originalmente instrumentadas para piano e voz, seriam mais tarde orquestradas por Strauss.

Canções para orquestra são as magníficas Quatro últimas canções, compostas no final da vida do compositor - o epíteto "últimas" foi dado pelo próprio Strauss. O ciclo é uma deliberada despedida da vida, emocionante e meditativa. O últimos dos lieder traz reminiscências de um dos primeiros poemas sinfônicos, Morte e transfiguração. As Quatro últimas canções são, talvez, a obra mais profundamente bela do compositor: um comovente adeus.

Biografia de Wolfgang Amadeus Mozart

Biografia

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

Nosso Wolfgang Amadeus Mozart nasceu Johannes Chrysostomus Wolfgang Gottlieb Mozart, no dia 27 de janeiro de 1756, em Salzburgo, Áustria. Seu pai, Leopold Mozart, era um músico de talento e excelente professor de violino. Ele trabalhava como segundo mestre de capela da corte do arcebispado (Salzburgo era um Estado papal), servindo diretamente ao Príncipe-Arcebispo Siegmund von Schrattenbach, um homem culto e sensível às artes.

A infância de Wolfgang foi encantadora. Desde muito cedo mostrou extraordinária vocação musical. Com quatro anos começou a ter aulas de música com o pai, e rapidamente aprendeu cravo e violino. Não tardou a compor pequenas peças, deslumbrando o pai e os amigos da família Mozart.

Mas o que chamava realmente a atenção de todos era a perícia do menino ao teclado, e a carreira de virtuose que o pequeno Wolfgang poderia ter fez Leopold brilhar os olhos. Era uma oportunidade imperdível, tanto para mostrar os seus dons como educador como para mostrar a glória que era seu filho. E, com seis aninhos, o prodígio fez sua primeira turnê pela Europa.

Wolfgang fez estrondoso sucesso nas cortes. Maravilhou a todos, soberanos, príncipes, cortesãos, com suas peripécias (muitas vezes mais acrobático-circenses que musicais). O garoto era um verdadeiro milagre e passou vários anos entre viagens com o pai e a casa em Salzburgo. Mas encontrava tempo para suas primeiras composições mais sérias, como a primeira ópera, La finta semplice, escrita em 1768 (quando tinha doze anos!).

Com treze anos, Wolfgang foi nomeado Konzertmeister da corte, o que equivaleria ao cargo de primeiro-violino. Passou algum tempo em Salzburgo e partiu para a Itália, onde recebeu algumas honrarias e conheceu a música e, principalmente, a ópera italianas. Foi uma viagem reveladora, que marcou o amadurecimento de jovem, que começava a imprimir sua marca pessoal às composições, como as óperas Mitridate e Lucio Silla.

Porém, quando voltou sofreu a linha dura do novo arcebispo de Salzburgo, Hieronymus Colloredo. De gênio ditatorial, Colloredo considerava os Mozart arrogantes e relaxados - ou vagabundos - demais. E apertou as rédeas nos dois músicos. Por quatro longos anos, ambos não saíram da corte (deram apenas umas "escapadas" à Viena), o que fez Wolfgang dar impulso às suas composições. Compôs copiosamente - quartetos de cordas, concertos, sinfonias, óperas...
Foi em meio a esse período fértil, repleto de peças encantadoras, feitas tanto para a corte como para nobres e burgueses da cidade, que Mozart decidiu largar essa vida servil. Em 1777, pediu demissão ao arcebispo Colloredo, que - máximo da humilhação - não aceitou e ainda devolveu a carta.

Mesmo assim, Mozart seguiu com seus planos. Partiu em busca de emprego e oportunidade pela Europa, acompanhado pela mãe, já que Leopold ficara em Salzburgo, por conta de suas obrigações com Colloredo. O compositor, em suas andanças, tomou contato com a orquestra de Mannheim, que o incentivou a escrever novas obras, mais livres que as compostas na corte. E conheceu a jovem cantora Aloysia Weber, por quem se apaixonou. Mas, no final das contas, foi rejeitado.

Em 1779, a contragosto, Mozart teve que voltar a Salzburgo, que considerava insuportável. Passou mais dois anos preso na corte, "tocando para as mesas e cadeiras", como escreveu depois. Era um clima obviamente ruim, pela hostilidade de Colloredo e pela indiferença da corte, mas Mozart não parava de compor: são do período a Missa da Coroação, a Sinfonia Concertante, para violino e viola, a Posthornserenade, a ópera Idomeneu, entre outras obras-primas.

Colloredo, no entanto, tratava o compositor como um "empregado doméstico", usando as palavras do próprio Mozart. Em 1781, o arcebispo e a corte foram ao encontro de José II, o novo imperador da Áustria, em Viena. Mozart fez algum sucesso na cidade e obteve bom número de admiradores. Queria ficar, mas Colloredo queria enviá-lo a Salzburgo para entregar uma encomenda. O pedido foi prontamente recusado. Em maio, após outra negativa do compositor, Colloredo o chamou de crápula, cafajeste e vagabundo e o expulsou. Mozart pediu demissão, mas só teve ela "aceita" no dia 8 de junho, quando foi posto na rua aos pontapés pelo chefe de pessoal de Colloredo, o conde Arco. "Então, essa é a maneira de convencer as pessoas, de amolecer as pessoas? Jogando-as porta afora com um chute na bunda? Esse é o estilo?", desabafou o compositor em uma carta.

Mas Mozart estava feliz. Conseguira a liberdade que desejava, e só restava conquistar o público vienense. O que ele conseguiu, pelo menos nos primeiros anos. Ele se tornou um virtuose (era mais respeitado como intérprete do que como criador, mal, aliás, que atingiu grande parte dos grandes compositores) conhecido e requisitado, e levava a vida com certa fartura.
Casou-se em 1782 com Constanze Weber, irmã de Aloysia, uma musicista de talento apenas mediano, mas mulher afável e carinhosa. Os dois, apesar de não estarem exatamente apaixonados, conviviam muito bem. Neste clima, os primeiros anos vienenses de Mozart foram tranqüilos, mas ele não era exatamente uma pessoa tranqüila. Como escreveu seu cunhado Lange, que pintou seu retrato, o compositor exprimia uma certa "angústia íntima", que contrastava com a alegria e frivolidade que demonstrava em sociedade. Era uma pessoa melancólica e irriquieta ao mesmo tempo.

A busca deste "eu", que sempre angustiou Mozart, levou-o à maçonaria. Ele entrou na ordem como aprendiz em 1784, e no ano seguinte já era mestre. Foi uma adesão séria, e realmente engajada, como atestam uma série de obras de inspiração maçônica, que datam desta época.
A influência da maçonaria não se limitou a essas obras dedicadas à ordem. Em outras peças do período, Mozart atinge o ponto alto em matéria de profundidade e expressão pessoal. São obras às quais não foram impostas nenhuma amarra - nem a corte, nem a burguesia - e simbolizam a conquista da liberdade tão almejada pelo compositor. Era um homem livre, talvez o primeiro da História da Música.

Mas sua popularidade entre a sociedade vienense cai, talvez em conseqüência disso - afinal, Mozart estava compondo mais para si do que para o público. A grande ópera As Bodas de Fígaro, estreada em 1786, foi um fracasso financeiro, e as preocupações materiais começam a aparecer.
Um refúgio temporário foi Praga. Lá a acolhida de As Bodas de Fígaro foi entusiástica, o que levou à encomenda de outra ópera: Don Giovanni. Foi um sucesso estrondoso entre os tchecos, mas a estréia em Viena resultou em fiasco igual ou maior ao da ópera anterior. A situação econômica de Mozart piora muito, o que pode-se notar pelo número de empréstimos e de dívidas. As encomendas rareavam, e a fama já não mais existia.

Em 1791, recebeu, de um amigo maçom, a encomenda de uma ópera. Seria uma ópera diferente, não para ser encenada para o Imperador, mas para o povo. A história, por meio de um conto de fadas, fazia a apologia da maçonaria e de seus valores (a busca de si mesmo, a sabedoria e a fraternidade). Era A Flauta Mágica, a maior obra-prima de Mozart. Sua estréia, em um pequeno teatro popular na periferia de Viena, foi um triunfo total e contínuo. As apresentações não cessavam e a fama da ópera correu toda a cidade, como uma coqueluche.

As encomendas a Mozart, conseqüentemente, aumentaram de maneira substancial. Entre elas, um réquiem. Há muitas lendas em torno deste assunto. Fala-se de um "homem misterioso", que teria feito a encomenda, sem se identificar, e cuja presença aterrorizaria Mozart, já próximo de sua própria morte. O homem misterioso seria a Morte personificada?
O filme Amadeus, de Milos Forman, mostra o compositor rival, Antonio Salieri, como o encomendante. De fato, por algum tempo acreditou-se que Mozart teria sido envenenado pelo invejoso e rancoroso Salieri. Atualmente, não há porque levar a sério essa hipótese, mas a vida de grandes artistas sempre suscitam grandes fantasias - como exemplo, as lendas em torno de Paganini.

Na realidade, não há nenhum "homem misterioso". O Requiem fora encomendado por um nobre, o conde von Walsegg-Stuppach, que queria homenagear a memória da esposa e fazer-se passar como o compositor da música.
Mozart, muito atarefado (muitas encomendas e apresentações da Flauta Mágica) e doente (seus rins estavam quase destruídos), foi escrevendo o Requiem quando podia, apressadamente, dando até mais importância para outras obras. Estaria ele incomodado pelo fato de escrever uma missa fúnebre? Especulações à parte, o fato é que não conseguiu cumprir a encomenda. Wolfgang Amadeus Mozart morreu em 5 de dezembro de 1791.
No final das contas, o Requiem, completado pelo discípulo Franz Xaver Süssmayr, acabou sendo composto para si mesmo.

Obra

Mozart, Haydn e Beethoven são os grandes pilares do Classicismo. Mas, enquanto Haydn, mais velho, pioneiro e iniciador, tinha um pé no Barroco, e Beethoven, mais novo, ampliador e revolucionário, tinha um pé no Romantismo, Mozart é o elemento central do período. Schumann costumava dizer que "Mozart é a Grécia da música" e a frase não poderia estar mais correta. Se Mozart não tivesse existido, a segunda metade do século XVIII poderia até ser considerada apenas uma fase de transição. A obra mozartiana representa, então, a maturidade do estilo clássico, e sua expressão mais pura e elevada.

Entretanto, Mozart foi ainda além. Ele estava longe de ser uma personalidade frívola e despreocupada como uma criança, como acreditou-se até algum tempo. Mozart era uma pessoa extremamente angustiada e irriquieta em busca de seu "eu". "Em Salzburgo, não sei quem sou, eu sou tudo e também muitas vezes nada. Eu não peço tanto, mas tão pouco assim também não: basta-me ser somente alguma coisa!", reclamou ao pai, quanto tinha dezessete anos. Mais velho, encontrou sua resposta na maçonaria, mas toda sua obra reflete essa busca interior. Como escreveram Jean e Brigitte Massin, "é essa busca que faz de Mozart o primeiro dos gênios musicais de nossa modernidade mental".

Ao mesmo tempo, portanto, Mozart consegue ser, dos clássicos, o mais clássico e também o mais romântico. Em sua obra, o formalismo, a frivolidade e a superficialidade unem-se à expressividade, à subjetividade, ao sentimento. É uma grande contradição que Mozart trata sempre do modo mais harmonioso possível. O resultado é uma obra sublime e apaixonante, que nunca deixa de envolver o ouvinte.
Os gêneros mozartianos por natureza são dois: o concerto, principalmente para piano, e a ópera. Mas ele cultivou também todos as formas de sua época, em uma produção vastíssima (cerca de seiscentos obras) para uma vida tão curta, de apenas 35 anos.

Sinfonias

Mozart escreveu 41 sinfonias. As primeiras são, em geral, obras bastante curtas, em três movimentos. Dessa fase inicial, destaca-se a Sinfonia no. 25, justamente uma das pioneiras a incluir um minueto entre o movimento lento e o Finale. O início dessa sinfonia original é bastante vigoroso e tenso, e tornou-se famoso.
Outra peça chave na produção sinfônica mozartiana é a Sinfonia no. 35, Haffner. Ela é a primeira sinfonia composta em Viena, e a partir desta, só aparecerão obras-primas: a Sinfonia no. 36, Linz, e as três últimas, a Sinfonia no. 39, K.543, a célebre e feérica Sinfonia no. 40, K.550 e a Sinfonia no. 41, Júpiter, considerada a maior de todas. Só pela última trilogia (que, aliás, foi composta para um concerto depois cancelado por falta de público), Mozart garantiria lugar como grande precursor de Beethoven.

Serenatas

Música de entrenimento é um gênero recorrente na obra mozartiana. Isso se deve, principalmente ao seu período na corte de Salzburgo, quando lhe era constantemente solicitada a composição de serenatas e divertimentos, música leve para animar festas, bailes e comemorações.
A mais conhecida peça do gênero é a Serenata em Sol Maior, K. 525, mais conhecida como Eine Kleine Nachtmusik, cujas primeiras notas ficaram tão famosas que tornaram-se algo como a assinatura de Mozart para o ouvinte comum. Também são célebres a Serenata K. 239, Serenata Noturna, e a Serenata K. 250, Haffner. Entre os divertimentos, poderíamos destacar o K. 251, em Ré Maior.

Música de Câmara

Haydn foi o grande criador e consolidor da música de câmara clássica - isto é, aquela que gira em torno do quarteto de cordas e da forma-sonata. Mozart levou isso adiante, e sentiu-se sempre devedor do mestre. Tanto que suas maiores obras-primas no gênero são dedicadas a ele: são seis quartetos, compostos em 1785. O último deles, K. 465, em Dó Maior, conhecido como o Quarteto Dissonante, é o mais célebre deles, tanto pela "dissonância" inicial como pelo sublime movimento lento.

Mozart também tentou outras formações instrumentais e praticamente inventou uma: o quarteto com piano. Ele escreveu dois deles, e o primeiro, K. 478, é o mais importante. No campo dos quintetos, Mozart compôs dois exemplares famosos: o Quinteto de Cordas K. 515 e o Quinteto para Clarinete K. 581.

Música Instrumental

Mozart era um grande virtuose do piano, e não poderia esquecer seu instrumento predileto. Além da Sonata em Lá Menor, K. 331, a do famosíssimo Rondó alla Turca, destacam-se as sonatas K. 310 (também em Lá Menor) e K. 457, em Dó Menor. Para violino e piano, são importantes as sonatas K. 454 e 526.
Fora do gênero sonata, Mozart escreveu uma obra belíssima e altamente pessoal, a Fantasia para Piano em Dó Menor, K. 396. Foi composta em 1784, época em que estava apaixonado por Theresa von Trattner; a peça é uma confissão de seus sentimentos. Em muitos aspectos, é quase um prenúncio do romantismo.

Música Sacra

Mozart, que trabalhou um período da vida em um Estado papal, Salzburgo, tendo como patrão um Príncipe-Arcebispo, escreveu um bom número de peças destinadas à liturgia católica.
O Requiem, sua última obra, é a maior representante do gênero. Ele impressiona pela nobreza, pela beleza dos temas e pela densidade. É companheira digna da Paixão Segundo São Mateus, de Bach, e da Missa Solene, de Beethoven, pela grandiosidade e pelas profundas reflexões que provoca no ouvinte.

Mozart escreveu também duas importantes missas: a Grande Missa em Dó Menor (que ficou inacabada) e a Missa da Coroação. Ave Verum, obra coral de pequena proporção, porém de grande beleza, também se destaca entre a produção sacra mozartiana.
óperasMozart foi o maior operista de sua época e tinha grande senso dramático. As óperas mozartianas são divididas em dois grupos: as menores, geralmente as primeiras de sua carreira, e as grandes, as óperas imortais.

Dentre as primeiras, além das compostas quando muito jovem, estão Mitridate, Lucio Silla, O Rei Pastor, Idomeneu e La Clemenza di Tito. São obras que não negam a genialidade de Mozart, mas não são um tanto tradicionais. Curiosamente, estas óperas foram a que receberam melhor acolhida do público em suas estréias.
O grupo das óperas imortais é composto pelos tradicionalmente eleitos "cinco pontos máximos" da dramaturgia mozartiana. Em ordem cronológica: O Rapto do Serralho, As Bodas de Fígaro, Don Giovanni, Così fan Tutte e A Flauta Mágica. A última é considerada a maior delas, e uma das mais importantes óperas de todos os tempos. Ela, como O Rapto do Serralho, é um singspiel, gênero alemão que alterna música com diálogos falados.

Concertos

O concerto, especialmente para piano, em Mozart, tem papel e importância semelhante ao da sinfonia, em Beethoven. Mozart compôs concertos para piano em toda sua vida (ao todo, são 27), e praticamente criou o gênero, definindo seus moldes para os compositores seguintes.
Ele começou no gênero com apenas nove aninhos, em um concerto baseado em três sonatas de Johann Christian Bach. Mas o primeiro concerto para piano realmente digno de nota é o de número 9, em Mi Bemol Maior, K. 271, composto em 1777 para a pianista Jeunehomme. A dedicatória valeu o apelido do concerto, e até hoje ele é conhecido como Jeunehomme.

Já em Viena, Mozart compôs o Concerto no. 17, K. 453, que seria seguido de uma série de 14 concertos escritos entre 1784 e 1786. Entre eles, os de número 20, dramático, o famosíssimo 21 (cujo Andante foi usado no filme sueco Elvira Madigan), o alegre e angelical 23 e o denso e quase sinfônico 24, em Dó Menor, talvez o maior de todos.
Para outros instrumentos, destacam-se os três primeiros concertos para violino (em especial o terceiro, K. 216), o quarto concerto para trompa, K. 495, o Concerto para Flauta e Harpa, K. 299, o Concerto para Flauta no. 1, K. 313, o Concerto para Fagote, K. 191, e o belíssimo Concerto para Clarinete, K. 622.

Mozart também escreveu exemplares de um gênero herdeiro do concerto grosso barroco: a sinfonia concertante, que equivale ao concerto para mais de um solista. A mais conhecida é a Sinfonia Concertante para Violino e Viola, K. 364, uma obra belíssima, profundamente pessoal e emocionante.

12.1.06

Biografia de Alexander Graham Bell

Alexander Graham Bell

Alexander Graham Bell nasceu no dia 3 de março de 1847, em Edimburgo, na Escócia.
Era o segundo dos três filhos do casal Alexander Melville Bell e Eliza Grace Symonds.
Sua família tinha tradição e renome como especialista na correção da fala e no treinamento de portadores de deficiência auditiva.

O avô , Alexander Bell, foi sapateiro em St. Andrews, na Escócia e, enquanto consertava sapatos, recitava Shakespeare. Ser ou não ser? Eis a questão. Fazia isso com tanta freqüência que, aos poucos, admirado com a própria voz, passou a se dedicar à melhoria da dicção com o valor exato para cada palavra. Abandonou o ofício de sapateiro e seguiu o caminho do teatro, porém, alguns anos no palco foram suficientes para que descobrisse outra profissão; tornou-se professor de Elocução: modo de expressar-se, oralmente ou na escrita elocução e dava conferências dramáticas sobre Shakespeare, desenvolvendo boa prática no tratamento dos defeitos da fala, especializando-se em Foniatria:estudo e tratamento de perturbações da voz e da fala.

O pai , Alexander Melville Bell, passou a se interessar, não só pelo som das palavras, como também pelas causas desse som. Estudou anatomia - laringe, cordas vocais, boca, etc criando o que chamava de " fala visível ". É autor do livro "Dicção ou Elocução Padrão".

Bell, seu pai e seu avô tinham o mesmo Prenome:nome de um indivíduo, nome de batismo")' onmouseout=moveout(this)>prenome - Alexander. Até os 11 anos, se chamava simplesmente Alexander Bell, até que um dia na escola, a professora sugeriu que adotasse mais um nome para diferenciar-se do avô. Depois de consultar os familiares, optou por Graham, em homenagem a um grande amigo de seu pai.

Aos 14 anos, ele e seus irmãos construíram uma curiosa reprodução do Aparelho Fonador: que produz o som da fala. Numa caveira montaram um tubo com "cordas vocálicas", palato, língua, dentes e lábios, e com um Fole:instrumento para produzir correntes de ar, que funciona por expansão e contração, absorvendo ar por uma válvula e expelindo-o através de um tubo, sopravam a traquéia, fazendo a caveira balbuciar "ma-ma", imitando uma criança chorona.

Alexander Graham Bell cresceu assim, em um ambiente rico de estudo da voz e dos sons, o que certamente influenciou no seu interesse nesse campo, além de ter a mãe que, muito jovem, ficou surda.
Estudou na Universidade de Edimburgo, onde começou a fazer experimentos sobre Pronúncia:modo de articular os sons, as palavras ou frases. Certo dia, um amigo de seu pai falou sobre a obra de um certo cientista alemão chamado Hermann von Helmholtz , que havia investigado a natureza física dos sons e da voz. Excitado com a novidade, apressou-se em conseguir uma cópia do livro. Só havia um problema: o livro estava escrito em alemão, língua que não entendia. Além disso, trazia muitas equações e conceitos de física, inclusive relativos à eletricidade, área que tampouco dominava.

Apesar de todas as dificuldades, Bell teve a impressão de que (por meio de alguns desenhos do livro), Helmholtz tinha conseguido enviar Sons Articulados:Sons articulados são aqueles formados por uma combinação de sons, como a voz. Sintetizá-los, na época, era transformá-los em sons elétricos. Se vocês quiserem entender melhor, ouça a música I just call to say I love you do cantor americano Steeve Wonder que ao final da canção, simula uma voz através das notas tocadas em seu órgão, sons articulados, como vogais, através de fios utilizando eletricidade. Na verdade, o que Helmholtz estava tentando fazer era Sintetizar Sons:Sons articulados são aqueles formados por uma combinação de sons, como a voz. Sintetizá-los, na época, era transformá-los em sons elétricos. Se vocês quiserem entender melhor, ouça a música I just call to say I love you do cantor americano Steeve Wonder que ao final da canção, simula uma voz através das notas tocadas em seu órgão sintetizar sons parecidos com a voz, utilizando aparelhos e não transmití-los à distância. Ao contrário do que vocês podem estar pensando, foi exatamente esse engano que fez com que Bell começasse a pensar sobre os modos de enviar a voz à distância por meios elétricos.

Em 1868, em Londres, tornou-se assistente do pai, assumindo seu cargo em tempo integral quando este tinha de viajar aos Estados Unidos para dar cursos.
Nessa época, seus dois irmãos, o mais velho e o caçula, com intervalo de um ano, morreram de Tuberculose:doença provocada pelo Mycobacterium tuberculosis ou bacilo de Koch, podendo atingir os pulmões. As dificuldades econômicas aumentaram e a ameaça da doença, também encontrada em Bell, levou o pai a abandonar a carreira em Londres, em seu melhor momento e, em agosto de 1870, mudar-se com a família para o Canadá.

Compraram uma casa em Tutelo Heights, perto de Brantford, província de Ontário, que era conhecida como " Casa Melville " e que hoje é conservada como relíquia histórica com o nome de "solar dos Bell".
O pai de Bell era famoso e foi muito bem recebido no Canadá. Em 1871, recebeu o convite para treinar professores de uma escola de surdos em Boston, nos Estados Unidos, porém, preferindo continuar no Canadá, mandou o filho em seu lugar. Bell passou a ensinar o método de pronúncia desenvolvido por seu pai, treinando professores em muitas cidades além de Boston, pois, nessa época, antes da descoberta dos antibióticos, a surdez era muito mais comum, podendo surgir como resultado de muitas doenças. Em 1872, abriu sua própria escola para surdos (onde depois conheceu D. Pedro II, em 1876). No ano seguinte, em 1873 tornou-se professor da Universidade de Boston, época em que começa a se interessar por telegrafia e estudar modos de transmitir sons utilizando a eletricidade.

Por meio de seu trabalho como professor de surdos, A. Graham Bell - como assinava e gostava de ser chamado - conheceu pessoas influentes que, depois, ajudaram-no muito. Um deles foi Thomas Sanders, um rico comerciante de couro que morava em Salem, próximo a Boston, cujo filho - George - foi aluno de Bell. O menino mostrou progressos tão rápidos que Sanders, agradecido, convidou Bell a morar em sua casa. Outra pessoa importante foi Gardiner Greene Hubbard, um advogado e empresário bem-sucedido, que viria a ser seu sogro em 1875.
Em 1898, Bell substituiu o sogro na presidência da National Geographic Society, transformou o velho boletim da entidade na belíssima National Geographic Magazine, semelhante à que temos hoje.

Alexander Graham Bell morreu em sua casa de Baddeck, no Canadá, no dia 2 de agosto de 1922, aos 75 anos.
Muitos conhecem Bell como o inventor do telefone, muito embora hoje já se reconheça que o verdadeiro inventor foi o italiano Antonio Meucci , mas poucos sabem de seus outros feitos.

Invenções e Patentes de Graham Bell

























"Inventor é um homem que olha para o mundo em torno de si e não fica satisfeito com as coisas como elas são. Ele quer melhorar tudo o que vê e aperfeiçoar o mundo. É perseguido por uma idéia, possuído pelo espírito da invenção e não descansa enquanto não materializa seus projetos." (Palavras de Alexander Graham Bell gravadas numa placa no museu que tem o seu nome, em Baddeck no Canadá.)

Biografia de Thomas Alva Edison

Thomas Alva Edison

A história regista muitos paradoxos (factos que parecem ser contraditórios entre si), mas nenhum mais estranho do que este: duas das maiores invenções acústicas(que dependem da habilidade de se ouvir sons) foram desenvolvidas por um homem parcialmente surdo.Esse homem foi Thomas Alva Edison.

As suas invenções foram o fonógrafo e o microfone de carbono para o telefone. O microfone de carbono, um aperfeiçoamento do instrumento de Alexander Graham Bell, usava pedaços de carbono para proporcionar poderes ilimitados à voz do utilizador.Edison nasceu no dia 11 de fevereiro de 1847 em Milan, Ohio. Quando jovem, todos lhe chamavam de "Al", em vez de "Tom" ou "Tommy". Quando tinha sete anos, a família mudou-se para Port Huron, Michigan. Thomas Alva Edison foi educado em casa pela sua mãe, professora, pois aos sete anos tinha sido expulso da escola por ter sido considerado atrasado mental.

Os seus interesses, contráriamente aos das outras crianças, centravam-se em especial nos campos da Física e da Quimica. Aos 12 anos começou a trabalhar numa estação de combóios como vendedor de jornais, sandes, doces e frutas aos passageiros. Era a Trunk Railroad, a linha que ia de Port Huron a Detroit.Durante esse período da sua vida, a surdez de Thomas Edison começou a tornar-se evidente.

Quando perguntado, mais tarde, sobre a sua origem, ele contou a sua versão, que incluía dois incidentes.O primeiro aconteceu num dia em que Edison estava atrasado ao voltar para o combóio quando este estava a deixar a estação. Os seus braços estavam carregados de jornais enquanto corria ao lado do combóio. O condutor, querendo ajudar, puxou-o para dentro de um vagão de carga PELAS ORELHAS! Segundo Edison, " ...eu senti alguma coisa estalar dentro da minha cabeça... A minha surdez começou nesse instante e nunca mais progrediu..."Um segundo episódio envolveu um laboratório que Thomas Edison obteve a permissão de montar num vagão de bagagem vazio. Colocou no laboratório frascos de produtos químicos e passava o seu tempo livre a fazer experiências.

Alguma coisa correu mal e um incêndio começou.O oficial responsável pelas bagagens ajudou Thomas Edison a apagar as chamas, " ...queimando-se gravemente..." enquanto o fazia. O oficial estava obviamente consternado e puniu Thomas Edison dando palmadas na cara ou batendo várias vezes nas orelhas dele com as mãos. Segundo o seu relato sobre esse incidente, apanhou " ...com tanta severidade que eu fiquei meio surdo depois desse incidente..."Outras teorias sobre a sua surdez são científicas. Uma delas foi proposta por um médico que cuidou de Thomas Edison quando este era já adulto.

Acreditava que a surdez fosse causada por uma "doença degenerativa congênita" (presente já desde o nascimento) que foi desencadeada por um trauma (um choque)".Durante a infância, Thomas Edison teve uma série de infecções de ouvido que não foram correctamente tratadas. Pelo menos numa delas, houve a retenção de fluido no ouvido médio. Artrite também foi mencionada como causa. Além disso, também teve escarlatina.É mais provável que a verdadeira causa da deficiência auditiva de Thomas Edison seja uma das explicações médicas. Mas, seja lá qual for a razão, ele uma vez disse: "Eu não ouço o canto de um pássaro desde que tinha treze anos".

Mais tarde iniciou a impressão de um semanário e construiu o seu primeiro laboratório num vagão de combóio.Thomas Edison desenvolveu um grande interesse por telegrafia e podia ser fácilmente encontrado em volta dos escritórios do telégrafo da localidade. Quando salvou o filho do oficial mestre da estação Mount Clemens de ser atingido por um vagão de carga desgovernado, foi recompensado com lições de telegrafia.Logo tornou-se bastante hábil com os pontos e traços do Código Morse. Mais tarde, quando Thomas Edison teve filhos, deu a dois deles apelidos "telegráficos": a sua filha Marion era chamada de "Dot" (ponto) e o seu filho Tom Jr. era conhecido por "Dash" (traço).Aos 16 anos de idade, Edison começou o seu primeiro emprego como telegrafista em Port Huron.

A sua surdez não o impediu de operar o telégrafo e ouvir os sinais. Ao contrário, segundo o próprio Thomas Edison, ela ajudou-o a desligar-se do pandemônio que era uma sala cheia de telegrafistas a trabalhar ao mesmo tempo.Durante um período de cinco anos, Thomas Edison foi um "telegrafista cigano", mudando de emprego para o outro em diferentes locais do centroeste dos Estados Unidos. Aos 20 anos, havia aprimorado a sua técnica e era um dos telegrafistas mais rápidos da região.Foi durante esse período da vida de Thomas Edison que um incidente aconteceu em Louisville, Kentucky.

Ele havia comprado 20 livros num leilão e tinha pedido que os entregassem no escritório de telegrafia onde trabalhava. No final do expediente, ele pendurou os livros nos ombros e foi para casa. A essa hora, já estava escuro e Thomas Edison chamou a atenção de um policia desconfiado que pensou que talvez a sua carga fosse de livros roubados.O policia gritou que parasse. Thomas Edison não o ouviu e continuou andando. Então o policia deu um tiro de advertência . Felizmente, a situação resolveu-se sem maiores complicações.

Depois de ter trabalhado como telegrafista em Bostom na companhia Western Union, em 1869 mudou-se para Nova Yorke com a intenção de se establecer como inventor independente.A pesar do pouco êxito da sua primeira invenção, uma máquina para recontar votos, uma feliz intervenção na reparação de um indicador de preços do ouro na Bolsa, mereceu-lhe um contrato com a Western Union para introduzir algumas alterações no referido aparelho, trabalho pelo qual recebeu 40.000 dólares.

Com este dinheiro Edison pode-se estabelcer por fim, primeiro em Bewark, mais tarde em Menlo Park (1876) e finalmente West Orange (1887). Nesta localidade fundou o laboratório "Edison", considerado hoje monumento nacional dos Estados Unidos.No seu laboratório contou com a colaboração de figuras destacadas, como, por exemplo, o físico e inventor Americano de origem Croata Nikola Tesla.

Contava já com 300 funcionários a trabalhar nas suas invenções, que num dado momento chegaram a 50, em diferentes estágiosde desenvolvimento.Em Newark, Edison conheceu Mary Stillwell. Segundo ele, enquanto estavam a namorar, Edison usava a sua surdez como motivo para se sentar perto dela (parapoder ouvir o que ela dizia). Ccasaram-se em 1871.Foi em 1876 que Thomas Edison e seus sócios mudaram a sua oficina para Menlo Park, Nova Jérsei. Logo no ano seguinte ele desenvolveu com sucesso o fonógrafo e o transmissor de carbono para telefones.
Outra contribuição feita por ele, foi o hábito de atender-se o telefone dizendo a palavra "Alô". Antes disso, as pessoas perguntavam "Está pronto para falar?" ou alguma pergunta semelhante quando faziam ou recebiam uma ligação.Enquanto Thomas Edison estava a fazer as suas experiências com o telefone, tinha que depender dos seus assistentes. Um dizia, "Eu tenho que gritar para falar com ele". A certa altura, enquanto testava o transmissor, eles mandaram um sinal através de um relé que Thomas Edison estava a segurar com os dentes!

O fonógrafo era a descoberta preferida de Thomas Edison. Ele chamava-a de "máquina de falar" e supostamente gastou mais de 3 milhões de dólares no seu desenvolvimento. Consistia num cilindro coberto com papel de alumínio. Uma ponta aguda era pressionada contra o cilindro.

Conectados à ponta, ficavam um diafragma (um disco fino num receptor onde as vibrações eram convertidas de sinais electrônicos para sinais acústicos ou vice versa) e um grande bocal. O cilindroera girado manualmente conforme o operador ia falando no bocal (ou chifre). A voz fazia o diafragma vibrar. Conforme isso acontecia, a ponta aguda cortada uma linha no papel de alumínio.

Quando a gravação estava completa, a ponta era substituída por uma agulha; a máquina desta vez produzia as palavras quando o cilindro era girado mais uma vez. Thomas Edison trabalhou nesse projecto no seu laboratório enquanto recitava "Mary Tinha um Carneirinho " e reproduzia a gravação.

Em 1879, Edison obteve êxito ao projectar uma lâmpada elétrica - uma forma barata e de pequenas dimensões de se utilizar a electricidade para produzir luz.Antes do seu trabalho a luz a gás era usada nas residências e nas ruas da cidade. Representavam um risco de incêndio e também continham venenos perigosos.

À medida em que Thomas Edison trabalhava em direção à sua meta, " ... considerou 3.000 teorias ..." Num período de um ano, testou diversos filamentos diferentes na lâmpada até encontrar um que se inflamava e brilhava sem derreter quando a eletricidade passava através dele. Finalmente decidiu-se por algodão enrolado em carbono e assado. (Mais tarde o bambu foi utilizado e, por fim, optou por um fio de tungstênio).

Thomas Edison extraiu o ar para fora da lâmpada de vidro (criando um vácuo dentro dela), instalou um filamento e fez a electricidade passar através dela.A lâmpada funcionou durante 40 horas e o teste foi considerado um sucesso.

A magnitude do conjunto da obra realizada por Thomas Alva Edison pode ser apreciada nas suas justas proporções referindo-se que lhe são atribuidas mais de 1000 patentes o que o torna o maior inventor de todos os tempos.

Entre outras das muitas invenções que lhe sairam das mão e da sua criatividade, destacam-se o telégrafo impressor, o telégrafo "quadroplex" (1874), o microfone de carvão que melhorava significativamente o modelo inventado por A. G. Bell inventor do telefone, o fonógrafo (1877), uma máquina de ditado, o kinetoscopio 1889), o antecedente mais direto da máquina de cinema dos irmãos Lumière, as pilhas alcalinas (1883) e muitos outros cuja a enumeração seria exaustiva.

No entanto a sua invenção mais popular foi a utilização prática da iluminação eléctrica para a qual criou ainda mesmo antes de ter desenvolvido totalmente a sua invenção, a companhia de iluminação eléctrica "Edison" que recebeu apoio financeiro imediato graças ao grande prestígio pessoal de que gozava.

Edison tinha mais de 100 pessoas entre os seus funcionários a trabalhar em interruptores, soquetes, lanternas, isolantes e outros implementos relacionados com o projecto. Desenvolveram um dínamo para fornecer energia a sistemas de luz elétrica. A primeira demonstração prática, coroada com pleno êxito teve lugar em Menlo Park, no dia 21 de outubro de 1879, seguindo-se a inauguração do primeiro serviço de destribuição eléctrica da história instalada na cidade de Nova York em 1882, e que inicialmente contava com 85 utilizadores.

Para poder disponibilizar este serviço, Edison inventou e aperfeiçuou a lâmpada de vácuo com filamento incandescente conhecida popularmente como lâmpada eléctrica.Construiu a primeira central eléctrica, (a de Pearl Street, Nova York), e desenvolveu a ligação em paralelo graças à qual quando uma lâmpada se fundia, as outras ficavam acesas.

A esposa de Thomas Edison faleceu em 1884. Dois anos mais tarde voltou a casar-se. O nome da nova Sra. Edison era Mina.Uma "fábrica de invenções" (um novo laboratório) foi inaugurado em West Orange, Nova Jérsei em 1887. Foi lá que criou a sua câmara (quintógrafo) e o seu projector (quintoscópio) para filmes animados, no ano de 1891. Foram os primeiros modelos práticos.

O quintoscópio era uma pequena caixa dentro da qual se "olhava". Dentro dessa caixa o filme de animação era projectado e visto por uma pessoa de cada vez, através de um buraco no topo. Um outro inventor criou, mais tarde, um projector para exibir filmes que podiam ser vistos por todas as pessoas ocupando uma sala.

Vinte anos mais tarde, Thomas Edison conseguiu construir, com sucesso, um quintofonógrafo que possuia uma tela ligada a um dos seus fonógrafos: uma das primeirasversões do "cinema falado"."A Day With Tom Edison" (Um Dia com Tom Edison) foi lançado em 1920 como um filme mudo. Apresentava, entre outras coisas, uma conversa de Thomas Edison com um assistente. Thomas Edison coloca sua mão em concha no lado da sua cabeça e o assistente grita no seu ouvido. O "chefe" franze as sobrancelhas e responde...

Para além das suas numerosas invenções, Edison contribuiu para a investigação científica descobrindo o chamado "efeito termoeléctrico" (1883) também conhecido actualmente como "efeito de Edison" o qual permitiu, anos mais tarde, a criação do diodo electrónico (Lee De Forest), que daria início à moderna revolução electrónica.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1917-1918), Edison liderou Comissão de Consultoria Naval. Dirigiu a pesquisa sobre mecanismos de torpedos e aparatos anti-submarinos. Parece irônico que seu filho Charles tenha sido rejeitado para o serviço militar devido à sua própria deficiência auditiva.À medida em que Thomas Edison se aproximava do fim de sua vida tão produtiva, ele tornou-se quase completamente surdo. A sua secretária era paciente e filosófica ao lidar com a sua perda auditiva e quase nunca fazia referências a isso.

O ano de 1929 foi designado como o "Jubileu de Ouro da Lâmpada", o 50º aniversário de "nascimento" da lâmpada eléctrica. Henry Ford, o magnata dos automóveis criou, em Greenfield Village (Dearborn, Michigan) o "local permanente do nascimento da lâmpada". O laboratório de Thomas Edison foi removido de Menlo Park e estabelecido como uma exibição de museu. Ford também trouxe a estação de combóio onde o incêndio químico da juventude de Edison havia acontecido.Edison recebeu muitas honrarias nos seus últimos anos de vida e, a brincar, disse que podia "... contar as suas medalhas em litros". Entre esses prémios estava uma medalha de ouro especial do Congresso pelas suas "contribuições ao bem-estar da nação".

Thomas Edison faleceu em 18 de outubro de 1931 e foi enterrado em Orange, New Jersey. Em 1960 foi eleito para a "Galeria da Fama dos Grandes Americanos" na Universidade de Nova Iorque. O seu laboratório em West Orange e a sua casa em Glenmont, próximo ao laboratório, foram dedicados em conjunto como sendoo "Ponto Histórico Nacional de Thomas Edison". Jornais e os primeiros modelos de invenções estão ali exibidos, e os interiores foram preservados.

Sobre trabalho e genialidade, Thomas Edison disse o seguinte:

"Não há substituto para o trabalho duro"
"Gênio é 2% inspiração e 98% de transpiração".

Biografia de Ludwig van Beethoven

Ludwig van Beethoven

Ludwig van Beethoven nasceu em 16 de dezembro de 1770, em Bonn, Alemanha. Mas sua ascendência era holandesa: o nome de sua família é derivado do nome de uma aldeia na Holanda, Bettenhoven (canteiro de rabanetes), e tem a partícula van, muito comum em nomes holandeses - não confundir com o nobiliárquico alemão von. O avô do compositor, também Ludwig van Beethoven, contudo, era originário da Bélgica, e a família estava há poucas décadas na Alemanha.

Vovô van Beethoven era músico. Trabalhava como Kappelmeister (diretor de música da corte) do eleitor de Colônia e era um artista respeitado. Seu filho, Johann, que viria a ser o pai de Ludwig, menos talentoso, o seguiu na carreira, mas sem igual êxito. Depois da morte do pai, entregou-se ao alcoolismo, o que traria muitos problemas emocionais ao filho famoso.

Johann percebeu que o pequeno Ludwig (que fora batizado assim em homenagem ao avô) tinha talento incomum para música e tratou de encaminhá-lo à carreira de músico do eleitor. Mas o fez de forma desastrosa. Obrigava o filho a estudar música horas e horas por dia, e não raro o batia. A educação musical de Beethoven tinha aspectos de verdadeira tortura.

Desde os treze anos Ludwig ajudou no sustento da casa, já que o pai afundava-se cada vez mais na bebida. Trabalhava como organista, cravista ensaiador do teatro, músico de orquestra e professor, e assim precocemente assumiu a chefia da família. Era um adolescente introspectivo, tímido e melancólico, freqüentemente imerso em devaneios e "distrações", como seus amigos testemunharam.

Em 1784, Beethoven conheceu um jovem conde, de nome Waldstein, e tornou-se amigo dele. O conde notou o talento do compositor e o enviou para Viena, para que se tornasse aluno de Mozart. Mas tudo leva a crer que Mozart não lhe deu muita atenção, embora reconhecendo seu gênio, e a tentativa de Waldstein não logrou êxito - Beethoven voltou em duas semanas para Bonn.

Em Bonn, começou a fazer cursos de literatura - até para compensar sua falta de estudoo geral, já que saíra da escola com apenas 11 anos - e lá teve seus primeiros contatos com as fervilhantes idéias da Revolução Francesa, que ocorria, com o Aufklärung (Iluminismo) e com o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), correntes não menos fervilhantes da literatura alemã, de Goethe e Schiller. Esses ideais tornariam fundamentais na arte de Beethoven.

Apenas em 1792 que Beethoven haveria de partir definitivamente para Viena. Novamente por intermédio do conde Waldstein, dessa vez Ludwig havia sido aceito como aluno de Haydn - ou melhor, "papai Haydn", como o novo pupilo o chamava. A aprendizagem com o velho mestre não foi tão frutífera quanto se esperava. Haydn era afetuoso, mas um tanto descuidado, e Beethoven logo tratou de arranjar aulas com outros professores, para complementar seu estudo.

Seus primeiros anos vienenses foram tranqüilos, com a publicação de seu opus 1, uma coleção de três trios, e a convivência com a sociedade vienense, que lhe fora facilitada pela recomendação de Waldstein. Era um pianista virtuose de sucesso nos meios aristocráticos, e soube cultivar admiradores. Apesar disso, ainda acreditava nos ideais revolucionários franceses.

Então surgiram os primeiros sintomas da grande tragédia beethoveniana - a surdez. Em 1796, na volta de uma turnê, começou a queixar-se, e foi diagnosticada uma congestão dos centros auditivos internos. Tratou-se com médicos e melhorou sua higiene, a fim de recuperar a boa audição que sempre teve, e escondeu o problema de todos o máximo que pôde. Só dez anos depois, em 1806, que revelou o problema, em uma frase anotada nos esboços do Quarteto no. 9: "Não guardes mais o segredo de tua surdez, nem mesmo em tua arte!".

Antes disso, em 1802, Beethoven escreveu o que seria o seu documento mais famoso: o Testamento de Heiligenstadt. Trata-se de uma carta, originalmente destinada aos dois irmãos, mas que nunca foi enviada, onde reflete, desesperado, sobre a tragédia da surdez e sua arte. Ele estava, por recomendação médica, descansando na aldeia de Heiligenstadt, perto de Viena, e teve sua crise mais profunda, quando cogitou seriamente o suicídio. Era um pensamento forte e recorrente. O que o fez mudar de idéia? "Foi a arte, e apenas ela, que me reteve. Ah, parecia-me impossível deixar o mundo antes de ter dado tudo o que ainda germinava em mim!", escreveu na carta.

O resultado é o nascimento do nosso Beethoven, o músico que doou toda sua obra à humanidade. "Divindade, tu vês do alto o fundo de mim mesmo, sabes que o amor pela humanidade e o desejo de fazer o bem habitam-me", continua o Testamento. Para Beethoven, sua música era uma verdadeira missão. A Sinfonia no. 3, Eroica, sua primeira obra monumental, surge em seguida à crise fundamental de Heiligenstadt.

No terreno sentimental, outra carta surge como importante documento histórico: a Carta à Bem-Amada Imortal. Beethoven nunca se casou, e sua vida amorosa foi uma coleção de insucessos e de sentimentos não-correspondidos. Apenas um amor correspondido foi realizado intensamente, e sabemos disso exatamente através dessa carta, escrita em 1812. Nela, o compositor se derrama em apaixonadíssimos sentimentos a uma certa "Bem-Amada Imortal":

"Meu anjo, meu tudo, meu próprio ser! Podes mudar o fato de que és inteiramente minha e eu inteiramente teu? Fica calma, que só contemplando nossa existência com olhos atentos e tranqüilos podemos atingir nosso objetivo de viver juntos. Continua a me amar, não duvida nunca do fidelíssimo coração de teu amado L., eternamente teu, eternamente minha, eternamente nossos".

A identidade da "Bem-Amada Imortal" nunca ficou muito clara e suscitou grande enigma entre os biógrafos de Beethoven. Maynard Solomon, em 1977, após inúmeros estudos, concluiu que ela seria Antonie von Birckenstock, casada com um banqueiro de Frankfurt - seria, portanto, um amor realizado, mas ao mesmo tempo impossível, bem beethoveniano. Ludwig permaneceria solteiro.

Em 1815, seu irmão Karl morreria, deixando um filho de oito anos para ele e a mãe cuidarem. Porém Beethoven nunca aprovou a conduta da mãe dessa criança - também Karl - e lutou na justiça para ser seu único tutor. Foram meses de um desgastante processo judicial que acabou com o ganho de causa dado ao compositor. Agora Beethoven teria que cuidar de uma criança, ele que sempre fora desajeitado com a vida doméstica.

Nos anos seguintes, Beethoven entraria em grande depressão, da qual só sairia em 1819, e de forma exultante. A década seguinte seria um período de supremas obras-primas: as últimas sonatas para piano, as Variações Diabelli, a Missa Solene, a Nona Sinfonia e, principalmente, os últimos quartetos de cordas.

Foi nessa atividade, cheio de planos para o futuro (uma décima sinfonia, um réquiem, outra ópera), que ficou gravemente doente - pneumonia, além de cirrose e infecção intestinal. No dia 26 de março de 1827, morreria Ludwig van Beethoven - segundo a lenda, levantando o punho em um último combate contra o destino.

Sua Obra

Beethoven é reconhecido como o grande elemento de transição entre o Classicismo e o Romantismo. De fato, ele foi um dos primeiros compositores a dar papel fundamental ao elemento subjetivo na música. "Saída do coração, que chegue ao coração", disse a respeito de uma de suas obras. Toda obra beethoveniana é fruto de sua personalidade sonhadora e melancólica, um tanto épica, verdadeiramente romântica.

Mas ele não abandonou as formas clássicas herdadas de Mozart e de "papai" Haydn. Beethoven soube fazer arte inovadora nos moldes tradicionais, sem os destruir, mas alargando suas fronteiras. Esse processo transfigurador aconteceu gradualmente, e culminou em obras como os últimos quartetos de cordas, radicalmente distantes dos similares de Mozart, por exemplo.

O estilo de Beethoven tem características marcantes: grandes contrastes de dinâmica (pianíssimo x fortíssimo) e de registro (grave x agudo), acordes densos, alterações de compasso, temas curtos e incisivos, vitalidade rítmica e, em obras na forma-sonata, desenvolvimentos longos em detrimento de exposições mais concentradas.

Estudiosos costumam dividir a obra beethoveniana em três fases, seguindo a linha definida pelo musicólogo Wilhelm von Lenz. A primeira daria conta das obras escritas entre 1792 e 1800, ou seja, suas primeiras peças publicadas, já em Viena. Isso incluiria os trios do Opus 1, a Sonata Patética, os dois primeiros concertos para piano e a Primeira Sinfonia, obras ainda tradicionais, mas que já apresentam alguns aspectos pessoais. A segunda fase corresponderia ao período de 1800 a 1814, marcado pelo Testamento de Heiligenstadt e pela Carta à Bem-Amada Imortal - em outras palavras, pela surdez e pelas decepções amorosas. São características dessa fase obras como a Sinfonia Eroica, a Sonata Ao Luar, os dois últimos concertos para piano. A última fase, de 1814 à 1827, ano de sua morte, seria o período das obras monumentais e das grandes inovações: a Nona Sinfonia, a Missa Solene, os últimos quartetos de cordas.

Beethoven se dedicou a todos os gêneros de sua época. Compôs uma ópera, Fidelio, com seu tema tipicamente beethoveniano - fidelidade conjugal e o amor pela liberdade -, música para teatro (destaque para a abertura Egmont), balé (As Criaturas de Prometeu), oratório (Cristo no Monte das Oliveiras), lieder (o ciclo À Bem-Amada Distante é bem representativo), duas missas (entre elas a monumental Missa Solene), variações (as Variações sobre uma Valsa de Diabelli são as mais conhecidas) e obras de forma livre (a Fantasia para Piano, Coro e Orquestra é uma delas).

Porém Beethoven ficaria mais conhecido pelos quatro grandes ciclos dedicados às formas clássicas: as sonatas, os concertos, os quartetos de cordas e, claro, as sinfonias.

As Sonatas

As sonatas para piano - 32 ao todo - foram para Beethoven uma espécie de laboratório, onde fazia experiências que seriam aproveitadas em outras formas. Elas se distribuem ao longo das três fases, mas as da segunda seriam as mais numerosas (dezesseis).

Beethoven fez grandes inovações na estrutura da sonata. Incorporou novas formas (fuga e variação), mudou o número de movimentos e sua ordem (colocou muitas vezes o movimento lento em primeiro lugar), aumentou seu escopo emocional.

Essas sonatas também acompanharam o desenvolvimento técnico do piano no início do século XIX. A princípio, eram destinadas, sem distinção, para o cravo ou para o pianoforte. Somente a partir da opus 53, Waldstein, que Beethoven deixaria claro a instrumentação: pianoforte. Exigente, o compositor costumeiramente ficava irritado com a limitação dos pianos de sua época, tanto que suas últimas cinco sonatas foram compostas especificamente para o mais avançado piano de martelo vienense, o Hammerklavier. A opus 106 ficou justamente conhecida por este nome.

Entre as onze sonatas do primeiro período, a mais conhecida é a opus 13, Patética, com sua introdução dramática e seu clima sombrio (a maior parte de seus temas estão em tom menor).

As sonatas mais conhecidas estão no segundo período - são a opus 27, Ao Luar, a Waldstein e a opus 57, Appassionata. A primeira delas, de modo inovador, inicia-se com um famosíssimo Adagio sostenuto, uma elegia de suave e sombrio romantismo, até hoje um dos trechos mais conhecidos de Beethoven. Já a Waldstein tem apenas dois movimentos rápidos (com uma diminuta ponte em andamento lento entre eles).

Embora mais originais, as sonatas do último período são as menos populares. A opus 106, Hammerklavier, de caráter monumental, é quase uma sinfonia para piano solo. Outras grandes obras-primas são as duas últimas, opus 110 e 111, de caráter quase romântico.

Os Concertos

Beethoven escreveu cinco concertos para piano, um para violino e um tríplice, para violino, violoncelo e piano. Excetuando-se os dois primeiros para piano, todos foram compostos na fase intermediária, onde, de fato, encontra-se a maioria da produção beethoveniana.

Os dois primeiros concertos para piano são bastante característicos da juventude de Beethoven, e devem grande parte de sua linguagem à Mozart. Já o terceiro, composto em 1800, é uma obra de transição. Tem caráter mais sinfônico e é declaradamente sério e pesado, tendo muitas semelhanças com o Concerto no. 24 de Mozart (também escrito na tonalidade de dó menor).

O Concerto no. 4, composto seis anos depois, daria um salto ainda maior. Os movimentos externos são leves e tranqüilos, de profunda beleza e humanidade. Já o movimento central, Andante con moto, alterna o lirismo romântico do piano com intervenções vigorosas da orquestra (aqui reduzida às cordas graves), obtendo um resultado surpreendente até para Beethoven.

O último concerto para piano, conhecido como Imperador, tornaria-se mais célebre. É uma obra majestosa, de concepções grandiosas e de caráter tão sinfônico quanto o terceiro concerto, mas menos trágico.

Para violino, Beethoven escreveu o seu concerto mais popular. Obra belíssima, é dos concertos mais perfeitos já escritos para esse instrumento. Anteriormente, já havia o incluído no Concerto Tríplice, para piano, violino e violoncelo, herdeiro da sinfonia concertante à maneira de Haydn e Mozart e claro precursor do Concerto Duplo de Brahms.

Os Quartetos

Beethoven compôs música de câmara durante toda sua vida, mas a parte fundamental de sua obra neste gênero seria o conjunto dos seis últimos quartetos de cordas.

Eles foram escritos nos últimos anos de vida do compositor e representam o ponto culminante de sua terceira fase de criação. São obras concentradas e profundas, cheias de recursos como a variação e a fuga.

O opus 131 é o mais ambicioso deles. Tem nada menos que sete movimentos, todos encadeados entre si. O primeiro é uma fuga muito lenta e expressiva, o quarto é uma sucessão de sete variações, e o último é um enérgico Allegro, que retoma o tema principal do primeiro. Portanto, apesar de sua grande extensão, é uma obra coesa.

Além deste, são importantes os quartetos opus 133, Grande Fuga, e opus 135.

As Sinfonias

As sinfonias de Beethoven formam a parte mais conhecida de sua obra. São nove ao todo. A maior parte está na fase intermediária de sua criação, exceto a primeira e a última sinfonia. Entretanto, o musicólogo Paul Bekker classifica as sinfonias em dois grupos - as oito primeiras e a Nona. De fato, a Sinfonia Coral é um caso à parte, com sua enorme formação instrumental e o final com coro, até então inédito.

A Primeira Sinfonia, composta nos primeiros anos vienenses do compositor, está fortemente ligada à tradição de Haydn e Mozart. A segunda é uma obra de transição e já apresenta algumas das suas características pessoais.

Beethoven só encontraria sua linguagem sinfônica definitiva na Sinfonia no. 3, Eroica. Planejada para ser uma grande homenagem a Napoleão Bonaparte, que admirava, esta Terceira é uma obra grandiosa, de concepção monumental e temática épica. Porém a dedicatória napoleônica foi retirada quando este coroou-se imperador da França - Beethoven, decepcionado, alterou o programa da obra, incluindo uma marcha fúnebre "à morte de um herói".

A Quarta é uma sinfonia mais relaxada, conhecida por sua longa introdução, quase independente do restante da obra. Já a Quinta é a mais trágica das nove. Dita "do Destino", esta é uma sinfonia que faz a trajetória das trevas (os dois primeiros movimentos) para a luz (os dois últimos), de maneira original, que abriu precedentes na história da música (a Primeira de Brahms, a Segunda de Sibelius).

A Sexta Sinfonia, Pastoral, é outra ousadia. Organizada em cinco movimentos, cada um retratando um aspecto da vida no campo, abriu espaço para as experiências de Liszt e Berlioz no gênero da música programática.

A Sétima ficou famosa pelo seu movimento lento, um Allegretto pouco definido entre o elegíaco e o sombrio, que encantou compositores como Schumann e Wagner. A Oitava é seu par, e tem no terceiro movimento um minueto, o que é novidade - é a única que não tem um scherzo, o substituto beethoveniano do minueto de Haydn e Mozart.

Enfim, a Nona, talvez a obra mais popular de Beethoven. Sua grande atração é o final coral, com texto de Schiller, a Ode à Alegria. É uma obra que marcou época. Sem ela, seria difícil conceber as sinfonias posteriores de Bruckner, Mahler, e até a ópera de Wagner.

"Escutar atrás de si o ressoar dos passos de um gigante". A definição famosa de Brahms da Nona Sinfonia pode ser aplicada igualmente à toda obra beethoveniana, uma das maiores e mais profundamente humanas de toda história da música.

10.1.06

Biografia de Galileu Galilei


Galileu Galilei

Nascimento e formação


Filho de Vincenzio Galilei e de Giulia Ammannati di Pescia, nasceu em Pisa no dia 15 de Fevereiro de 1564. Os seus antepassados pertenciam à alta sociedade de Pisa e, embora a família tivesse decaído economicamente, mantinha quase intacto o seu prestígio graças às boas tradições familiares que conservara, e às boas relações de amizade com os membros da alta aristocracia.

Em 1581 Galileu iniciou os seus estudos de Medicina na Universidade de Pisa, possivelmente a conselho de seu pai, desejoso que o seu filho renovasse o prestígio de um dos seus antepassados, chamado também Galileu Galilei, e que tinha sido um médico de fama. A orientação escolástico-galênica do ensino médico de Pisa, não satisfaz as esperanças do jovem Galileu que abandona os estudos médicos e transfere-se para Florença onde, sob a orientação de Ostílio Ricci, discípulo por sua vez de Nicolo Tartaglia, professor de matemática na Escola de Belas Artes, começa a descobrir o sentido das suas inclinações. O mestre Ostílio Ricci é o impulsionador de um vasto campo de estudos científicos que em muitos domínios são do interesse permanente do discípulo. Além disso, Ostílio Ricci oferece a Galileu as obras de Arquimedes. É durante esta época que Galileu realiza os seus trabalhos sobre o isocronismo das oscilações pendulares.

Galileu tinha um temperamento alegre, otimista, sociável, com todas as paixões do diletante e do sibarita; com o mesmo empenho, participava num argumento literário, num difícil caso legal, numa cena elegante ou na descoberta de um novo efeito natural. Era direto e audaz na apresentação dos problemas intelectuais; no trabalho e no lazer, mostrou-se sempre como homem apaixonado, que ía até aos limites das suas possibilidades. Era dotado de uma grande imaginação, viva e desperta; tinha um espírito de rebeldia, de inconformismo, de contradição, que lhe granjeou a animosidade e até o ódio dos seus professores na Universidade de Pisa.

Sentia-se atraído por tudo: os movimentos da lâmpada do templo; o canto dos insetos; os versos elegantes. Vivia nele um espírito aberto, filho das tradições intelectuais da Grécia e de Roma. Galileu era um cientista-filósofo - assim gostava de se chamar -, um pensador, um escritor. Era tal o seu talento que estas características intelectuais da sua mente não conseguem completar a descrição da sua personalidade profundamente humana.

Galileu era generoso. Quando, em 1591, sua irmã Virgínia contrai matrimônio, Galileu dá-lhe muitos presentes e chega até a comprometer-se, mediante contrato, a dar-lhe um dote. E isto, quando o seu cargo de professor em Pisa não lhe permitia sequer manter-se, vendo-se obrigado a dar aulas particulares. Recebia 180 florins anuais, por ensinar Geometria, Astronomia, Engenharia Militar, enquanto que um professor de Filosofia ganhava 200 florins. Mais tarde, voltou a fazer o mesmo contrato com a sua irmã Lídia, aumentando assim consideravelmente as suas dívidas.

Nas suas obras, Galileu é sempre um escritor; um escritor sem par em toda a literatura científica. É um gramático de engenho agudo e de bom gosto. Adora a simplicidade, a clareza, a propriedade e a ordem. No campo científico, estas idéias deveriam aproximá-lo do estilo de Euclides. Contudo, o estilo de Galileu é a antítese do euclidiano. Abandona todo o tipo de geometrismo; e fá-lo conscientemente, não por instinto. Fala das coisas necessárias e das que o não são para o seu trabalho científico. Galileu não seria escritor, se não sentisse a irresistível necessidade de se exprimir, de ceder perante o gênio da sua inspiração. É uma necessidade puramente estética. Os seus escritos são o diário espiritual de um homem que contempla tudo com uma admiração infinita e quer comunicar o seu entusiasmo, o seu veemente entusiasmo.

Sempre teve, em justa correspondência, o apoio dos artistas, dos poetas e escritores, ao mesmo tempo que lhe faltou o dos professores, cujas idéias arcaicas não conseguiu mudar. Os escritores celebraram o telescópio nas suas obras; os pintores representaram-no na cúpula de Santa Maria Maior de Roma; de Inglaterra, chegaram-lhe notícias de que o telescópio teria invadido a Filosofia. O clima intelectual daquela época foi, em grande parte, a causa das lutas que Galileu teve que travar. Correspondia a um ambiente de esterilidade nas Universidades e a uma grande resistência, por parte dos homens cultos, na aceitação de novas idéias. Galileu, de talento muito superior ao dos seus contemporâneos, fez descobertas astronômicas de grande importância (...). A reação dos seus colegas irritou-o profundamente. Alguns doutores negaram-se terminantemente a fazer observações pelo seu telescópio; outros fizeram-nas, mas disseram que não tinham visto nada.

Actividade científica

Pelos seus progressos científicos, é nomeado em 1592 professor da cátedra de Matemática da Universidade de Pádua, considerada então como a melhor da Europa. Durante 18 anos rege esta cátedra, até 1610, altura em que publica em latim uma obra que abala as convicções científicas e culturais do seu tempo: o Sidereus Nuntius (o mensageiro celeste). O livro contém revelações que são espetaculares para a sua época. Trata-se de uma descrição do céu tal como se observa através da luneta que ele próprio construiu: a Lua, aumentada muitas vezes, mostra o segredo das suas montanhas; milhares de novas estrelas, que antes não se viam, aparecem agora no céu; a Via Láctea deixa de ser uma nuvem cósmica e aparece como uma imensurável aglomeração de astros...

A vida de Galileu, a partir deste momento em que a celebridade é afirmada pela novidade suas idéias científicas e pelo alcance extraordinário das mesmas, decorre entre actividades muito diferentes. Para uma exposição adequada do significado geral da sua vida e da sua obra nos anos que se seguem à publicação do Sidereus Nuntius, é imprescindível assinalar os rasgos mais vincados da sua personalidade. Os grandes criadores das orientações científicas do Renascimento estão presentes de modos diversos no contexto histórico-cultural em que viveram. Esta multiplicidade de ambições e de propósitos pode, no fundo, reduzir-se a três formas diferentes de atitude pessoal, exemplificadas por Kepler, por Bruno e pelo próprio Galileu. Iohannes Kepler é a personificação de uma atitude perfeitamente definida: as conclusões e as descobertas da Nova Ciência hão de ser tema de diálogo e de discussão entre as pessoas devidamente informadas. Kepler classifica como inoportuno o comportamento dos homens de ciência da sua época que exibem e proclamam perante o grande público os resultados e as novidades que são fruto das investigações da Nova Ciência. A sua aportação ao moderno espírito científico é, contudo, tão abundante e interessante como a de Galileu. Este modo de entender a inserção do homem da ciência no seu mundo, é possível que tenha sido herdado por Kepler do seu antecessor na Astronomia que foi Nicolau Copérnico; tal como Kepler, este também fora refratário à proclamação das teses renovadoras das suas concepções astronômicas fora do domínio dos interesses estritamente científicos.

A posição oposta à de Copérnico e de Kepler é a encarnada por Giordano Bruno. A sua concepção do mundo que aponta ao Renascimento traduz-se, mais que em proclamar o dramatismo da novidade em exaltar a promessa da grandeza futura da Nova Ciência, uma vez consumada a ruptura com toda a tradição da física aristotélico-medieval, ruptura que o visionismo italiano crê estar contida na obra de Copérnico. Convém advertir que Giordano Bruno não aporta nenhum resultado concreto para esta nova concepção da natureza; a sua ignorância sobre os métodos concretos da nova orientação científica é total.

Galileu, por seu lado, ocupa uma posição intermédia; por um lado participa da fecundidade científica de Kepler no estabelecimento de novos métodos. A esta dimensão da sua atividade científica pertencem as suas obras mais valiosas. Por outro lado, e simultaneamente com este aspecto da sua produção científica, leva a cabo uma acção de propaganda cultural (cfr L. Geymonat, Galileu Galilei, Madrid 1969). De facto, o Diálogo" não é nem um livro de Astronomia nem um livro de Física. É sobretudo um livro de crítica, uma obra polémica e de combate..." (A. Koyrée, Études Galiléenes, Paris 1939). À medida que os anos passavam, tanto mais se convencia Galileu de que naquela altura era necessário, para além do que quer que fosse, difundir, em círculos cada vez mais amplos, a fé no copérnicanismo (L. Geymonat, o.c. 68). O melhor de Galileu como cientista é o que tem de comum com Kepler: o rigor na aplicação de novos métodos para fazer progredir a Ciência. O pior de Galileu como cientista, e o que mais popularidade lhe grangeou, é o que tem de comum com Giordano Bruno: uma espécie de furiosa acção de propaganda popular, de crítica, de polémica, de combate .. (Carlos Escartin, Galileu Galilei, in Palabra, Madrid.)

O seu caráter não lhe permitia trabalhar isolado; era um apaixonado e não era propriamente um apático. Dedicou a Antonio Rocco, o insuportável autor de Exercícios paripatéticos, os mais carinhosos epítetos: Animale, gran bue, balordone, capo durissimo inetto a intender nulla. (1)

Na mente de um homem destes, há muitas correntes de pensamento; as diferentes tendências entrelaçam-se para dar a cada problema uma solução por vezes subjectiva, na qual se podem encontrar - misturadas, sim, mas unidas pela personalidade do ser que as concebe - ideias estéticas, filosóficas e científicas. Este comércio entre os diferentes aspectos do saber humano costuma ser fecundo; ultrapassar um conceito de ordem e de beleza obtida na leitura de uma obra literária pode dar magníficos resultados no campo científico. Mas esta transfusão, se em muitos casos é útil e fecunda, pode também acarretar-nos perigos evidentes e levar-nos a conclusões falsas ou pelo menos a estabelecer essas conclusões sem o rigor necessário, para que o seu fundamento seja perfeitamente sólido. Kepler afirmou, depois de longos estudos, em que empregou vinte e cinco anos da sua vida, que os planetas giram segundo trajectórias elípticas, ficando o Sol no foco destas. Galileu que mantinha uma correspondência contínua com Kepler, rejeitou a lei e defendeu arbitrariamente que os planetas giravam segundo órbitas circulares, em cujo centro se encontrava o Sol. O que é que levou Galileu a manter este erro?

Galileu viveu cem anos depois de Rafael. Uma das expressões artísticas do tempo de Galileu foi uma forma de pintar chamada maneirismo. Um artista, Acimboldo, introduziu uma técnica de imagens duplas, que produzia uns efeitos surpreendentes. Entre as suas obras de pintura, há uma que representa uma cara formada por frutas, f1ores, hortaliças... Galileu detestava este tipo de pintura e também toda a poesia baseada no maneirismo. O seu gosto era clássico, purista; preferia a música instrumental pura, sem canto. Para defesa dos seus gostos e dos seus amigos, participou calorosamente em diversas controvérsias. O seu critério foi sempre pessoal, até no modo de escrever; não seguiu o estilo da época. Em consequência do seu amor pela simplicidade clássica, Galileu manteve a sua fé, comum a Aristóteles e Platão, na perfeição do círculo. O círculo era perfeito, não só do ponto de vista matemático e estético, mas também como trajectória mecânica dos planetas na sua órbita. A elipse, considerando-a como um círculo deformado, era menos perfeita. Galileu, possivelmente, terá visto nela um símbolo do artificialismo do maneirismo. Assim, escreveu: "o movimento circular é, naturalmente (isto é, sem perturbação extema), o mais apropriado para os corpos do nosso universo e constitui a melhor ordem".

Galileu sentiu a "vertigem da circularidade", segundo a frase feliz de Koyré.

A sua preferência pelo sistema heliocêntrico, em oposição ao geocêntrico, foi-se sedimentando lentamente na sua mente, não sob a influência de atos típicos, mas sobretudo impulsionado pelas suas idéias estéticas, de ordem. A hipótese de Copérnico representava um sistema planetar mais belo, de compreensão mais fácil, mais elegante: todos os planetas giravam a volta do sol, descrevendo círculos, segundo Galileu. O Sol, sendo o maior e o único que produzia a sua própria luz, deveria ocupar o centro. O seu coração estava decidido a favor de Copérnico. Portanto, qualquer fato científico vinha corroborar aquilo que o coração desejava; e isto era certamente assim, pois, como vimos ambos os sistemas podem ser defendidos pela Ciência, com idêntica verdade. A invenção do telescópio, no qual Galileu viu o instrumento decisivo para demonstrar a tese de Copérnico, e as descobertas que fez com ele foram o sinal adequado para que a sua razão cedesse à pressão do seu coração. Lançado neste caminho, não lhe restava senão aperfeiçoá-lo, até chegar ao fim. Com o seu caráter generoso e audaz, removeria qualquer obstáculo que se lhe apresentasse.

Uma vez que não podia convencer as Universidades, decidiu sacrificar o valor internacional do Latim e dirigir-se à generalidade do público em 1íngua vemácula. Estava disposto a conseguir a aceitação das suas idéias. Desceu até às multidões, apesar de pensar tal como Voltaire, que eram destituídas de juízo crítico; queria atrair para o seu partido os chefes naturais. Renunciou ao seu lugar seguro de professor na Universidade de Veneza, para se lançar na incerteza das marés dos mecenas de Florença, a fim de que o claustro de professores jamais pudesse obrigá-lo a não ensinar as suas teorias; atuou politicamente e arrastou consigo aqueles que pôde; fez freqüentes viagens a Roma, para ganhar a adesão dos astrônomos da Cidade Santa às suas descobertas e idéias.

O Processo

Esta orientação dada à sua atividade científica, que conduzia de modo veemente a obter ressonância e difusão do novo espírito científico e do resultado dos seus métodos, entrou em conflito, como é natural, com a cultura tradicional anteriormente estabelecida, com umas crenças arcaicas e também em parte com a própria Igreja Católica. Este conflito terminou com o célebre processo.

O processo de Galileu teve duas etapas: a primeira em 1616 e a segunda e definitiva em 1633. No dia 19 de Fevereiro de 1616, o Santo Ofício consultou um conjunto de teólogos a fim de resolver se as teses que estabeleciam a imobilidade do Sol e o movimento de rotação e translacão da Terra eram compatíveis com o que diz a Sagrada Escritura. Depois de quatro dias de reflexão, os teólogos foram unânimes em considerar as teses de astronomia como filosoficamente absurdas e formalmente heréticas. O Papa Paulo V encarregou o Cardeal Belarmino (S. Roberto Belarmino) de comunicar a Galileu esta conclusão dos teólogos, e de simultaneamente lhe pedir que abandonasse essas opiniões que tinham sido rejeitadas. A opiniao do Cardeal Belarmino em relação a esta questão, muito mais ponderada que a dos teólogos anteriores, ficou consignada na carta que enviou ao carmelita P. Foscarini e donde extraímos os seguintes parágrafos: "...o senhor Galileu atua prudentemente ao limitar-se a falar ex suppositione e não de modo absoluto, como foi sempre o modo de expôr de Copérnico. Pelo fato de se dizer que se supõe que é a Terra que se mexe e que o Sol está fixo, salvam-se melhor as aparências do que supondo círculos excêntricos e epiciclos, e está muito bem dito. Digo que, se fosse verdadeira a demonstração de que o Sol está no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, e que o Sol não gira à volta da Terra, mas que a Terra gira à volta do Sol, então seria necessário ter muito mais cuidado ao explicar as Escrituras, que parecem ser contrárias, e melhor ainda dizer que não as entendemos em vez de dizer que é falso aquilo que se demonstra. Mas não acreditarei que existe essa demonstração enquanto não for demonstrada; não é a mesma coisa dizer que supondo que o Sol se encontra no centro e a Terra no céu se salvam as aparências, e demonstrar que na verdade o Sol está no centro e a Terra no céu. A primeira demonstração penso que se poderá fazer, mas quanto à segunda tenho muitas dúvidas...

Estas observações do Cardeal Belarmino são decisivas para alcançar uma compreensão essencial deste emaranhado processo. Uma coisa é, certamente, a conveniência científica de uma hipótese, outra a verdade de um fato. Galileu pensava que estar o Sol fixo era, além de uma hipótese útil, uma verdade absoluta. Mas esta verdade aparecia como contrária à interpretação tradicional das Escrituras. Perante este estado da questão, Galileu tinha uma possibilidade de recurso: demonstrar que o Sol está fixo ou que a Terra se move, à margem de qualquer consideração de maior ou menor conveniência. Porém, no momento e no ambiente em que Galileu escreve e polemiza, ainda está mal delineado o fundamento científico sobre o qual se apóia esta demonstração: Bradley não provou a aberração da luz senão em 1727; Bessel só em 1838 mostrou a paralaxe da estrela 61 da constelação do Cisne. A experiência que parecia mais próxima do alcance das idéias de Galileu, que é o deslocamento do plano de oscilação do pêndulo, só foi realizada por Foucault em 1851. No seu momento histórico Galileu defendeu com ardor uma tese que nessa altura estava mais apoiada nas convicções de uma mente de gênio do que numa serena demonstração física.

A toda esta situação, já de si bastante conflitiva, deve-se acrescentar a confusão que o próprio Galileu introduzia ao expôr demonstrações errôneas: o ilustre italiano pensou que poderia demonstrar o movimento de rotação e de translação da Terra considerando-os como causa do fluxo e refluxo das marés. Estas demonstrações são verdadeiramente inconciliáveis com a habitual agudeza de espírito e perspicácia científica de Galileu. Assim, a discordância entre a força das suas afirmações e a pouca consistência dos seus argumentos demonstrativos, vinham mesmo a propósito para confundir as mentes de uns teólogos carentes da formação científica necessária para apreciar por si próprios o respeito que merecia a tese defendida por Galileu, tanto pela sua verosimilhança intrínseca como pelo extraordinário gênio do seu defensor. Por outro lado, faltou-lhes ter em conta o princípio - repetido inúmeras vezes pela patrística e pela escolástica, e concretamente por Santo Agostinho e S. Tomás - segundo o qual a Sagrada Escritura ao narrar fatos físicos atém-se a uma linguagem segundo as aparências sem pretender esclarecer a natureza íntima das mesmos; e isto teria resolvido a questão do ponto de vista da religião. (2)

Infelizmente faltou agudeza de espírito de parte a parte, assim como prudência por parte de Galileu, o qual, em vez de se limitar a apresentar as suas opiniões como hipóteses, continuou a propagá-las como uma verdade absoluta que não podia contudo provar. Tudo culmina no segundo processo, solene e definitivo, que teve lugar em Roma em 1633. Neste processo, o Santo Ofício seguiu o critério de que, na ausência de demonstrações conclusivas, não se deve difundir e propagar o que vai contra uma tradição estabelecida e condenou Galileu por esta atitude. Galileu foi condenado pelo Santo Ofício a viver em Arcetri. Para o acompanhar e assistir aos achaques próprios da sua idade avançada, foi-lhe facilitada a companhia na sua quinta de Arcetri de um estudante inteligente - Vincenzo Viviani - que permaneceu ao lado do seu mestre até à morte, ocorrida na noite de 8 de Janeiro de 1642. Durante este período, Galileu manteve uma intensa atividade científica. Para Galileu, a Ciência adquiria o seu verdadeiro valor na síntese católica do saber. As diversas formas de conhecer são aproximações do conhecimento intuitivo de Deus, que tudo abarca. Entre o pensamento humano e o pensamento divino não pode haver contradição e, por conseguinte, afirma Galileu e não pode haver contradição entre a Bíblia e a Ciência. Como se entende então o milagre de Josué? Galileu responde que a Bíblia não deve ser interpretada literalmente em questões científicas; a Bíblia procura a salvação das almas; ensina come si vadia al cielo e non come vadia il cielo.(3)

Se Galileu, como bom católico que sempre foi, pensava assim, porque é que manteve tão veementemente o sistema heliocêntrico?

Ouçamos as palavras de Galileu, pronunciadas numa das sessões do seu julgamento: "Dois argumentos - um, baseado nas manchas solares e outro no movimento de fluxo e refluxo das marés - que verdadeiramente chegam aos ouvidos do leitor (refere-se ao leitor do seu Diálogo), têm uma maior aparência de força e poder que aquela que lhes devia ter sido dada por aqueles que consideram esses argumentos inconclusivos e pretendem refutá-los; e, quando é o caso, eu sinceramente mantenho que são inconclusivos e que podem ser refutados. E, para me desculpar de ter caído em erro tão alheio à minha intenção, não ficando eu completamente satisfeito ao dizer que quando a parte contrária apresenta argumentos, com o fim de os refutar, eu deveria - especialmente se se escreve em forma de diálogo - pô-los na sua forma mais estrita, e não mascará-los para dificuldade do opositor; digo, além disso, que cedi perante a complacência natural que todo o homem sente em relação às suas subtilezas pessoais, mostrando-se mais habilidoso que a maioria dos homens ao apresentar, inclusive em favor de proposições falsas, argumentos engenhosos e com aparência de verdade. Por tudo isto, mesmo que possa dizer com Cícero avidior sim gloriae quam sat est" (4), se tivesse que apresentar agora os mesmos argumentos, sem dúvida que os tornaria mais débeis para que se tornasse mais aparente o aspecto da solidez que real e verdadeiramente lhes falta. O meu erro - e confesso-o - um erro de ambiciosa vanglória e de inadvertência - Assim falou Galileu numa das sessões do seu julgamento.

A Obra de Galileu

Galileu é um dos mais importantes iniciadores do espírito e dos métodos que orientarão o desenvolvimento das ciências até aos nossos dias. As suas aportações mais importantes pertencem ao empreendimento metódico geral conhecido por matematização da experiência: a conceptualização dos fenômenos mecânicos através de uma adequada formulação matemática. Neste campo, a conquista que lhe deu mais prestígio foi a formulação matemática da queda dos graves, ou, como era então conhecida, o movimento natural da queda. A Terceira Jornada dos Diálogos da Nova Ciência começa com estas palavras: "sobre um tema muito velho estamos a promover uma ciência novíssima. Nas suas obras faz inúmeras aplicações dos princípios que descobriu; aplica estes princípios a problemas concretos da mecânica. Na "Quarta Jornada" e a propósito do estudo do movimento dos projéteis, reconhece que a trajetória não perturbada de um projétil é uma parábola resultante de dois movimentos diferentes que têm lugar, simultaneamente, no objeto móvel. O movimento dos corpos ao longo do plano inclinado foi cuidadosamente examinado e simulado até chegar a constituir o princípio fundamental do seu progresso na Ciência. Antes de Galileu, desde a Antiguidade, a Astronomia era aquela parte da Ciência que vinha oferecendo as melhores ocasiões para a consideração matemática do acontecer natural. O mérito principal de Galileu foi o de criar conceitos matemáticos para compreender os movimentos da nossa próxima experiência terrestre. Assim se entende o resumo que faz Bergson da obra de Galileu: a ciência matemática que se aplicara ao estudo dos astros desceu à Terra pelo plano inclinado de Galileu.

A maioria das obras de Galileu estão escritas em forma de diálogo entre dois interlocutores: Simplício, que representa a física aristotélico-escolástica; Sagredo que representa a cultura do burguês do Renascimento, aberto à aceitação de qualquer idéia nova bem exposta e raciocinada; e, por fim, Salviati que fala em nome do próprio Galileu. Entre as numerosas obras de Galileu destacam-se, pela sua importância, os Discorsi e dimostrazioni matematiche entomo à due nuove scienze, Il saggiatore, Sidereus Nuntius, Dialogo sopra i massimo sistemi. A edição oficial das suas obras completas consta de 21 volumes (Florência, 1890-1909) a cargo de Antonio Favarro.

ROBERTO SAUMELLS, G.E.R.

(1) Animal, grande boi, estúpido, cabeça duríssima, incapaz de entender o que quer que seja.

2) N. do tradutor: Convém talvez recordar o que é a Sagrada Escritura: a Bíblia é a colecção de livros escritos pelos profetas e pelos historiadores sagrados, pelos Apóstolos e pelos Evangelistas, por inspiração do Espírito Santo e recebidas pela Igreja como inspiradas. Assim, inspiração significa a assistência do Espírito Santo dada ao autor humano para que este escrevesse aquelas verdades divinas que o próprio Deus - autor principal de toda a Sagrada Escritura - quiz que fossem conhecidas pelos homens e cujo conhecimento lhes é necessário para a Salvação.

Não é possível encontrar divergências entre a Fé e a razão, entre a Sagrada Escritura e a Ciência. E isto porquê? Porque ambas procedem de Deus. Como diz Leão XIII: Tenham presente com a máxima fidelidade que o mesmo Deus, Criador e governador de todas as coisas, é o autor das Escrituras." Se se dá a contradição é só aparentemente; quando ambas - a Fé e a ciência - se ocupam dessa mesma coisa sob pontos de vista diferentes.

A Sagrada Escritura não pretende dar-nos diretamente ensinamentos em matéria científica, ainda que fale ou descreva verdades que também são objeto da Ciência. O fim da Sagrada Escritura é ensinar-nos o caminho da Salvação. As verdades fundamentais para a Salvação estão escritas numa linguagem simples e figurada, adaptada às inteligências pouco cultas dos homens de então. O escritor sagrado, por outro lado, não nos fala cientificamente, isto é, usando a linguagem precisa e rigorosa do homem de ciência; escreve de acordo com a maneira de falar do povo. Assim, fala-se de nascer e pôr do Sol, que o Sol gira à volta da Terra, etc. Também se chama ao Sol e à Lua os maiores luzeiros (Ecl. 1,5; Gen. 1,16, etc)... Sobre História Natural e Cosmografia fala-se da lebre entre os animais ruminantes, o morcego é catalogado entre as aves (Deut. 14,7; Lev. 11,4 e 19), o céu está apoiado sobre colunas (Job. 26,11). Todas estas coisas devem entender-se segundo as aparências externas e a opinião popular ou em 1inguagem poética. Contudo é necessário ter em conta que, ainda que a Sagrada Escritura não tenha como finalidade principal ensinar-nos coisas em matéria científica existem contudo casos nos quais as afirmações bíblicas têm uma certa repercussão no campo científico. Por exemplo, a Bíblia ensina a criação divina da matéria, das plantas e dos animais; fica portanto posta de parte a teoria da eternidade da matéria e a da origem da vida por geração espontânea; a Bíblia afirma a intervenção particular de Deus na aparição do homem sobre a Terra e por conseguinte não é admissível o transformismo absoluto e materialista de Darwin; refere que Adão foi constituído por Deus como cabeça do gênero humano; portanto fica posto de parte o poligenismo. (V. B. Martín-Sanchez, Manual de Sagrada Escritura, I, Madrid)

(3) Como se vai para o céu e não como vai o céu.

(4) Tenho ambições de maior glória que a que convém.

9.1.06

Biografia de Friedrich Nietzsche


Friedrich Nietzsche

Filósofo alemão, descendente de pastores protestantes, nasceu em15 de Outubro de 1844, na cidade de Rocken, nas proximidades de Leipzig, na Prússia. Seu pai e seus avôs eram pastores protestantes. Nietzsche teve muito desse espírito religioso durante a infância, e cogitava continuar a linhagem. Sua mãe era piedosa e puritana. Em 1849 perdeu o pai e o irmão quando Nietzsche tinha 5 anos, e Nietzsche foi criado pela sua mãe com sua avó, duas tias e uma irmã.. Mudou-se então para Naumburg, cidade às margens do rio Saale, onde cresceu, em companhia feminina: a mãe, a irmã, duas tias e a avó. Era uma criança feliz, aluno exemplar, dócil e leal. O zelo e mimo familiar fez com que ficasse um pouco deslocado, pois não gostava dos vizinhos, que armavam arapucas para passarinhos e bagunçavam. Preferia a calma do estudo, e os coleguinhas o chamavam de pequeno pastor, rejeitando maiores relações com ele. Lia a Bíblia, para si e para os outros.Em 1858, Nietzsche conseguiu uma bolsa de estudos na escola de Pforta, onde havia estudado filosófo romântico Fichte ( 1762-1814 ). Leu Schiller ( 1759- 1805) e Byron (1768-1824), escritor boêmio romântico que foi um dos gurus do romantismo. O Romantismo teve uma importância decisiva na juventude de Nietzsche, que mais tarde, na maturidade, criticou-o. Com essas leituras, e mais a influência de alguns professores, começou a se afastar do cristianismo. Na adolescência estudou muito a bíblia, o latim, autores clássicos, grego e a cultura grega. Gostou muito de Platão e Ésquilo. Escreveu um trabalho escolar sobre Teógnis (século VI a. C). Saindo de Pforta, partiu então para Bonn, onde estudou filosofia e teologia. Junto com seus colegas, Nietzsche teve um período de orgias sensuais, e arriscou atuar nas artes masculinas de fumar e beber, abandonando-as em seguida por considera-las corruptoras da percepção e pensamento. Em 1867 é chamado para o serviço militar, mas teve um acidente quando montava a cavalo.Seus músculos peitorais se distendem.

Seu professor preferido, Ritschl, de cultura grega, o persuadiu a mudar para Leipzig e se dedicar a filologia. Ritschl considerava a filologia o estudo das instituições e pensamentos, e não só o estudo das formas literárias. Seguindo o mestre, Nietzsche completou seus estudos brilhantemente em Leipzig, e realizou estudos sobre Homero, Diógenes Laércio (século III) e Hesíodo (século VIII a. C). A partir desses estudos, aos 24 anos, foi nomeado professor de Filosofia Clássica em Basiléia e professor de filologia clássica da Universidade de Leipizig. Tinha vinte e quatro anos, e se interessava por música e poesia. Queria viajar para Paris, mas o professor Ritschl, em 1869 lhe propôs o posto de professor e ele aceitou. Lá conheceu um dos únicos amigos cuja amizade durou até o fim, Overbeck, que era professor de teologia. Nietzsche ocuapa-se com muito trabalho. Dá aulas sobre Ésquilo e paletras, como: "Sobre a personalidade de Homero", "O drama musical grego". Redige um texto, A origem e finalidade da tragédia. Alguns não concordam com Nietzsche, mas todos o consideram um jovem de futuro promissor. Em 1870 ocorre a Guerra Franco Prussiana, passo importante para a unificação alemã. A Alemanha se industrializa, a exemplo da Inglaterra e França, que desde o século anterior passavam por processo de mecanização da produção. Otto von Bismarck, militar responsável pela unificação alemã, declara guerra à Prússia. Nietzsche participa da guerra como enfermeiro mas logo adoece de disenteria e difteria. Essa doença pode ser a origem dos problemas de saúde que o atormentaram por toda a vida. Recupera-se lentamente e volta para a Basiléia , afim de continuar suas atividades. Fica com a idéia de que o estado e a política são antagonistas.

Ocorre a guerra civil da França e queimam-se os arquivos do museu do Louvre. Nietzsche fica desesperado, pois considera um crime contra a cultura. Conclui o primeiro livro, O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Meditou sobre o assunto enquanto atuava como enfermeiro. O livro tem forte influência de Wagner (1813-1883) e Schopenhauer. Por volta de 1865, passava por uma livraria quando viu a reedição de um livro que não havia feito muito sucesso na época em que foi feito: O Mundo como Vontade e Representação. Encontrou nele um espelho no qual redescobriu a vida com uma natureza assustadora. Passa então, a realmente se interessar por filosofia. Neste livro está contida a idéia principal de que os atos dos seres vivos são fruto de uma cega vontade de viver. Nietzsche admira-se com o seu ateísmo, e no Gaia Ciência chama Schopenhauer de primeiro filosófo assumidamente ateu. Schopenhauer diz que os meis de produção só são admiráveis quando podem ser adquiridos por qualquer homem, e que o aumento de custo e a falta de acesso levam a uma centralização do poder negativa. Antes da guerra, em 1868, Nietzsche e Wagner se encontraram. Nietzsche gostava de sua músicas, como Tristão e Isolda. Através de Brockhauss, um professor da universidade casado com a irmã de Wagner, se encontraram. Nietzsche passou a vistar Wagner em Tribschen, que não ficava longe da Basiléia. Caracterizou o lugar como seu lar e seu refúgio. Wagner era profundo conhecedor da filosofia de Schopenhauer. Em 1872 é publicado o Nascimento da Tragédia, que começa falando do drama musical grego onde o dionísico se opõe ao apolíneo. O deus Dionisio (existe também a grafia Dioniso), do vinho e da festa, levava em seus cultos à experimentação dramática da existência. Os homens experimentavam a exarcebação dos sentidos, a vertigem e o excesso nos cultos ao Dinonísio, o Baco dos romanos. A palavra bacanau deriva dessas festas em homenagem a Baco. O dionisíco, é como um apolínio uma pulsão cósmica, só que de outro tipo. Nela, se aniquila as fronteiras e limites habituais da existência cotidiana. É o prazer da ação, a inspiração, o instinto. A existência cotidiana e a existência dionísica são separados um do outro. Mas ao passar o turbilhão perceptivo do culto a esse deus, volta-se ao estado normal, deseja-se a vida ascética. Os deuses gregos eram necessários para esse povo, diz Nietzsche, porque legitimavam a existência humana. Os homens viviam seus deuses, que mostravam a vida sob um olhar glorioso. Na tragédia grega, a platéia participava também. À tragédia se opõe a comédia. Nos cultos, o deus se revela mostrando o drama da individualização. O livro de Nietzsche é de um especialista em cultura e mitologia gregas. Transborda de lirismo.

O apolíneo surge nas homenagens ao deus Apolo. É o inverso de Dionísio, pois é o deus da moderação e da individualidade, do lazer, do repouso, da emoção estética e do prazer intelectual. Esse deus surge, na cultura grega depois de Dionísio. A arte grega retratava seus deuses e as pulsões cósmicas se manifestavam nas atividades artísticas. A arte grega era a união desses dois ideiais, que se alternavam. A música e o mito são inseparáveis na arte grega. O mito trágico expressava toda a crueldade do mundo dionísico. O coro é dionísico, e o diálogo, apolíneo. O pessimismo estava presente na arte grega, pois os gregos conheciam a dureza da vida. Essa dureza leva à desilusão, que é vencida na arte. A complementação que existia nas experiências antagônicas do Dinosíco e Apolíneo foi destruída pela civilização. A Grécia de então não separava o manual e o intelectual, o cidadão e político. A filosofia dos pré-socráticos é afirmadora da vida e da natureza, pois o pensamento está unido com esse fenômeno, a vida. Mas Sócrates corrompeu essa atividade grega, com as suas teorias, realçou o lado frouxo do caráter ateniense e corrompeu a juventude. O caráter da filosofia passa a julgar a vida, humanizar a natureza, iluminar a escuridão do mundo com a luz tênue da razão. No lugar ao filósofo mediador, que recria os valorers, surgiu o filósofo metafísico. Sócrates é o responsável pela divisão na consciência entre o aparente e o real. Nas suas conversas e perambulações descobriu que os homens não tinham conhecimento seguro de suas atividades, não resistiam à sua dialética e a sua maiêutica, eles agiam apenas por instinto O instinto passa, de força criadora a ser crítico. Sócrates teve que pagar por sua audácia e sua serenidade diante da morte o tornou um exemplo, um novo ideal da juventude ateniense.Nietzsche também faz a crítica a Sócrates no livro O Crepúsculo dos Ídolos.

Assim, o mito dionísico desapareeu da Grécia, deixou de ser vivenciado pelos homens. A exaltação, encarnada na folia da orgia e corrobada pela música deram lugar ao apreço civilizatório. Mas será que essa exaltação sumiu para sempre? Nietzsche reconhece em Wagner um Ésquilo moderno que restaura os mitos instintivos, tornando a unir a música e drama em êxtase dionísico. É esse o caráter de sua música, segundo Nietzsche, que , junto com o povo alemão, iria restaurar o mundo experimentado sob transe místico. A música é uma linguagem universal em alto grau. Todas as sensações humanas, seus esforços, seu interior, pode se refletir e se expressar pelas melodias. A razão lança isso no conceito negativo do sentimento, diz Nietzsche. E , continua segundo a doutrina de Schopenhauer, vendo a música como expressão da vontade. O peso da existência é atenuado com estimulantes e deles derivam a civilização. Pode ser socrática, artística ou trágica. Exemplos respectivos: a civilização alexandrina, helênca ou hindu. A característica da civilização socrática é o otimismo, que está escondido na lógica. Ao mito se sucedeu a clareza do conhecimento. Nietzsche foi músico amador, embora quisesse mais do que isso. Era bom pianista e suas composições musicais chegam a dar bom volume. Wagner adorou o livro, dizendo numa carta que suas palavras ainda não cobriam a grandeza do livro, pois eram insuficientes. Mas ele também provocou reações adversas, como a do helenista Mallendort. Pohden e Wagner respondem à crítica, que veio em forma de panfleto. Wagner gostava de Bakunin na juventude. Em 1872 Nietzsche voltou a Basiléia. Profere palestras. É polêmico e envolvente. Fala sobre a difusão da cultura na Alemanha. Defende a tese de que o ensino não deve ser apenas profissionalizante, mas capacitador do desenvolvimento das faculdades humanas. Desgostoso com o silêncio sobre o seu primeiro livro, afunda no trabalho e na reflexão. Vem-lhe a idéia de que a filosifia é o médico da civilização. A filosofia deve ser crítica, não passiva. Redige uns pedaços de A Filosofia na Época Trágica dos Gregos.

Nietzsche não é um pensador sistemático. Não podemos fazer divisões rígidas de seu pensamento, e classificá-lo é difícil. Alguns estudios dividem a sua obra em três fases: · pessismismo romântico-(1869-1876) influência de Wagner e Schopenhauer.· positivismo cético-(1876-1881) período de rupturas. Influência do moralismo francês. Critica o caráter demasiado humano da filosofia e defende a liberdade de espírito. · período de reconstrução- A fase de Zaratustra e da afirmação da vida. Escreve um ensaio Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral, no qual explora o lado gnisiológico, de origem e fundamentação do conhecimento. O conhecimento é uma ilusão, a única relação do homem com o mundo possível é a estética. O conhecimento típico do homem, que assimila o mundo à sua perspectiva. Existem os instrumentos do conhecimento (categorias e linguagem) e seu produto, o mundo percebido. Uma das perspectivas que aprecem em Nietzsche é noção de que o instinto da conservação da espécie é a responsável por muitos atos. O conhecimento é útil à preservação da vida e é tembém o objetivo de todos os líderes religiosos. O conhecimento não é transcedente e o homem é criador de seus valores. O homem interpreta e dá um sentido humano às coisas, o resultado disso é o mundo articulado. O conhecimento foi inventado em um minuto pelo homem, em relação à idade do cosmo. Foi um minuto mentiroso. A verdade é procurada para ser válida e comum e a linguagem dá as primeiras leis da verdade. A verdade e a mentira seriam relativas, válidas apenas sob o ponto de vista humano. No processo de antropormofizção do mundo, o reduzimos e generalizamos. Por exemplo, ao estereotiparmos folha, ignoramos qual folha é verdadeira e válida. Não exise na natureza a folha, elas são bilhões. Nietzsche observa os humanos de longe e não os considera seres privilegiados. Um dos pontos principais de sua obra é a crítica aos valores judaico-cristãos. O homem não é divino. O ser humano necessita sobreviver e dominar, e essa vontade de poder e de dominar está presentes em toda sua história. O ser humano se apega à mentira do conhecimento como se sua filosofia ou ciência explicasse realmente o mistério cósmico. O conhecimento , a moral e a metafísica são invenções humanas. No século XVIII caíram as teorias da origem divina do homem.

Mas existe o idealismo metafísico, o homem é divino, a Terra é escolhida. Para Nietzsche, o homem está sem Deus, sem causa transcendente. Oconhecimento é ativo e submisso à vida. O mundo que tem valor é o que criamos ao perceber. Nossas verdades são mera ilusão. Para crescer em potência, uma espécie deve moldar sua concepção de realidade e comportamento em leis inváriaveis e elementos prevísiveis. Nos filósofos anteriores a Nietzsche, os orgãos de conhecimento eram de origem incodicionada ou transcendente. Para Nietzsche , a capacidade espiritual do homem tem um contexto natural e social. Kant havia dito que só podemos conhecer fenômenos e não a coisa-em-si. Nietzsche aceita essa posição. Ele vai contra o racionalismo como instrumento da verdade, e vai contra o empirismo também, baseado na coisa dada e apreensão dos fatos. Para Nietzsche a verdade se tornou uma multidão de metáforas e metonínias, ou seja, relações humanas. Mas elas parecem objetivas e incriadas. O homem só conhece o efeito das leis da natureza e não as próprias leis. A atividade do conhecer é um meio de se atingir a potência. Para se contrapor à ilusão em que vivemos, devemos desenvolver uma força artística. O mundo que percebemos é uma obra de arte dos sentidos e do intelecto. Da concepção de conhecimento deriva a noção kantiana do conhecimento como atividade constituinte e legisladora. Nietzsche é contra a humanização do mundo. A objetividade, para o homem é uma função prática da subjetividade. A essência se torna sentido e o sentido é uma força ou valor. Esse livro, Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral, é sobre verdade e linguagem. A palavra não é mais do que uma representação sonora de uma excitação cerebral. Nietzsche chega à velha verdade: existe um abismo entre a sensação e a linguagem. Com a vida gregária vem a designação obrigatória e verdadeira das coisas. Assim surge a verdade, de caráter social , convencional. Nietzsche criticou David Strauss, num ensaio que obteve aceitação, dentre outros, do hegeliano de esquerda Bruno Bauer. Nos ensaios das Considerações Extemporâneas, livro de caráter polêmico, critica o historicismo e as Universidades. Diz que o Estado não protege nunca homens como Schopenhauer e Platão, pois tem medo deles. É acusado de megalomania.

Nietzsche sempre foi um defensor do virtuosismo, bem como do espírito guerreiro. Diz que toda a arte e filosofia são um meio para a vida que cresce. Os homens grandes sofrem . Os sofredores são de dois tipos: os de abundância de vida, que querem uma arte dionísica e, ao contrário, os que sofrem de empobrecimento de vida. Os românticos são da última categoria. Cita como exemplo de românticos desse tipo Wagner e Schopenhauer, seus ídolos da mocidade, quando já estava maduro, na Gaia Ciência. Em 1872 , Nietzsche freqüenta assiduamente a casa de Wagner. Wagner, e sua mulher Cosima lhe tratam com respeito.Nietzsche tem uma paixão contida por Cosima. Wagner se muda e eles começam a se afastar. Nietzsche começa a se isolar. Em 1876, vai assistir a tetralogia de Wagner que fazia muito sucesso O anel dos Nibenlungos, e deixara-se embriagar com isso. Nietzsche se irrita com o caráter burguês da obra e pela nivelação da sociedade medíocre, que grosseiramente se entusiasmava pela música. Desiludido, Nietzsche vai para Bayeuruth. O Parsifal, de Wagner, é uma exaltação ao cristianismo e à santidade. Mais tarde, no Caso Wagner, critica este músico em muitos aspectos. Começa a sofrer de saúde. Paul Reé, um médico, vem lhe prestar auxílio. Paul publicara em 1875 as Observações Psicológicas e se preparava para o segundo livro. Em novembro de 1876 Nietzsche e Wagner convivem pela última vez. Na Gaia Ciência, fala que eles tiveram uma amizade astros, mas como dois navios com obetivos próprios, partiram para mares e sóis diferentes. Nietzsche vai para Sorrento, numa estada proveitosa. Volta para a Basiléia e a Universidade, a saúde piora. Em maio de 1878 lança Humano, Demasiado Humano, numa crítica aos valores. Seguem-se opiniões negativas e positivas. Wagner, Rohde e Malwida ficam embaraçados, contra. Outros ,como Overbeck, Rée e Gast elogiam o livro. Bruno Bauer o elogia, mais tarde. O livro é lançado em comemoração ao centenário da morte de Voltaire, em 1879, Nietzsche se aposenta da faculdade e ganha uma bolsa de 400 franco anuais por serviços prestados à cultura. A Basiléia foi seu lar durante dez anos. Lá viveu, fez amigos trabalhou, sempre critcando o vazio de muitos eruditos. Frequentara a vida acadêmica. Passou, então, a ter uma vida errante. Em 1870, sua saúde piora de vez, ele fica a beira da morte. Crises graves e initerruptas durante meses. Restabelecido, mas não totalmente, viaja pela Europa: Suíça, Itália, França e Alemanha. Numa linguagem mais amena, mas não menos crítca, escreve com todo o seu ser, suas verdades são sangrentas. Ignora o que sejam verdades espirituais.

Em 1880 Nietzsche publica O Andarilho e sua Sombra. Escreve Aurora, em que se empenha "numa luta contra a moral da auto-renúncia". Em 1885 escreve a Gaia Ciência. Esse livro é o de um homem culto do século XIX, opinando sobre diversos assuntos em pequenas sessões. Faz crítica literária, artística, filosófica e até política. Ve a juventude com outros olhos. O jovem é um barril de pólvora , que pode se inflamar em torno de qualquer ideologia. Nesse sentido, acha o hegelianismo perigoso. A obediência aos costumes é moralidade. Os fracos governam, pois associaram-se e recriminam os fortes. O que é proveitoso cosntitui o valor. O homem é o criador de valores, mas se esquece de sua criação. A moralidade é o instinto gregário do indivíduo. Quem é punido é quem pratica os atos. Na sociedade, existem os instintos de rebanho. Atribuem-se as palavras um sentido fixo e acha que ela espelha a realidae, que tem caráter transitório. O homem chega, pelos costumes, à convicção de que é preciso obedecer. No inverso disso, existe o prazer, a autodeterminação e a liberdade de vontade. O espírito livre revolta-se contra a crença. Para libertar-se, é preciso um longo processo de abandono de hábitos e comodidades. Nietzsche não era racional, depois passou a criticar a teologia e elogiar um pouco a ciência. Mas ela está carregada de antroprofismos. A parte positiva é que ela se livrou do além, da vida após a morte. Escapou das crenças mas não da crença da verdade.Nietzsche diz que os homens de ciência não tem espíritos livres. A interpretação científica não é unica. No inverno de Gênova, ve a obra musical Carmen, de Bizet. Sente-se arrebatado e transportado. É um retorno à vida, depois de estar de caras com a morte. No final de abril de 1882, Nietzsche chega a Roma. Viajou em um cargueiro. Sua vida amorosa não foi das melhores. Foi recusado no pedido de casamento duas vezes. Conheceu, através de um amigo, duas jovens de origem russa, em 1876. Pediu em casamento a mais velha (eram irmã), que mais tarde se casou com Hugo. Em julho de 1876 encontrou uma francesa, Louise Ott. Na Sícilia, Paul Rée e Malwida lhe escrevem, pedindo que conheça uma moça, Louise von Salomé, russa que viajava pela Itália com a mãe. Era muito inteligente e tinha uma personalidade liberada. Ela se relaciona com Nietzsche, mas também gosta de Rilke e admira Freud. Em Roma se conheceram e Nietzsche se apaixonou. Vão para a Suíça com Rée. Querem ter uma vida cultural, com muitas pesquisas em um grande centro, num projeto que chamas de Santa trindade. Nietzsche pede lou em casamento e obtém nova recusa. Ela escreveu um livro sobre Nietzsche, em 1894. O trio se separa. Depois, voltam a ficar algumas semanas juntos. Nietzsche quer fazer de lou uma discíplua que continue seu pensamento. A família de Nietzsche é contra sua paixão. Seu comportamento é liberado demais: vive com dois homens sem ser casada.. E Lou acabou ficando com Rée em Belim por cinco anos. Rée foi assassinado em 1904, depois de praticar sadomia. Lou se casou com Carl Andréas. Em Silas Maria, Surlei, Nietzsche tem a visão do eterno retorno, teoria que colocará em sua obra prima, Assim Falava Zaratustra. A energia e a matéria do universo são finitas e ele está sempre em fluxo, de modo que, no futuro, as coisas voltam. Cada instante traz a marca da eternidade e volta a acontecer um número infinito de vezes. As civilizaçõs voltarão, até mesmo Nietzsche voltará. O universo é animado por um movimento circular sem fim. Passa de um frescor para desenvolver-se e chegar ao ápice, e renasce, como Phoenix, de si mesmo. A soma de energia permanece igual no universo. Apesar disso ,Nietzsche condenava a crença na vida após a morte.Para ele o homem havia sido preso pela suas crenças, inventadas e colocadas acima do real. Não devemos voltar para o além e o eterno, pois essa mistificação reduz o homem a condição de servo e destrói as fontes mais profundas da vida. No lugar dessas crenças, devemos reconhecer em nós e na história a Vontade de Potência, de poder. Na teoria do eterno retorno, o mundo se alterna na criação e destruição, alegria e sofrimento, bem e mal. Em Zaratustra, Nietzsche é um defensor do virtuosismo, virilidade, contatos rústicos com a natureza e espírito guerreiro. Como explica em um poema, Nietzsche estava num jardim,no inverno de Rapallo, esperando e meditando além do bem e do mal, quando "um se fez dois, e Zaratustra passou por mim". Nada tem a ver com o Zaratustra persa. Quando Nietzsche terminou a primeira parte de Zaratustra, Wagner morreu (sua última música foi Parsifal) .Terminou o livro em 1885. Em 1888, Nietzsche escreve o Nietzsche contra Wagner,que junto com o Caso Wagner, constitui a justificatica teórica, exorcista, das suas desavenças com Wagner. Nietzsche o critica a torto e a direito, e é famosa a frase em que diz: "Wagner acaricia cada instinto budista e embelaza-o com a música; acaricia toda a forma de cristianismo e toda a forma de decadência." Nietzsche reconhece em Wagner o pessimismo, infkuência de Schopenhauer, e estava em uma fase de afirmação do lado positivo da vida. Foi muito difícil editar Assim falava Zaratustra, "um livro para todos e para ninguém". Como em muitas edições de seus livros, Nietzsche pagou do próprio bolso a última parte da obra- Foi uma tiragem de quarenta exemplares,mas não tinha para quem mandá-lo, pois estava sem amigos, e enviou-o para sete pessoas. Overbeck lhe manda livros de vez em quando, pois sabia que Nietzsche estava em dificuldades financeiras.

Nietzsche começa a redigir Além do Bem e do Mal. É o livre-pós Zaratustra, sobre o qual disse: "é incimpreensível, pois remete a experiências só minhas, e eu não encontro companhia nem entre os vivos, nem entre os mortos". Nietzsche faz prefácios para edições anteriores de seus trabalhos e redige a última partee de a Gaia ciência. Leu Dostoievsky, e adorou sua psicologia, que põe em personagens. O próprio Nietzsche via em si e em sua filosofia uma fonte para muitos psicólogos, que ele considerava terem muito a evoluir. Escreve Para uma genealogia da moral, que complementa e ilustra para além do bem e do mal. Nietzsche ve ao origens e motivos que fizeram o homem viver de acordo com a mentira da moral, que serve aos fracos. Escreve um adendo para o Além do bem e do mal. Em 1889, começa a pirar. Saindo do seu quarto de pensão, vê um cocheiro açoitando seu cavalo. Precipita-se entre o animal e o açoite e perde os sentidos. Ficou desmaiado dois dias. Quando Overbeck vai visitá-lo, está louco. Diz que é o sucessor do deus morto e o bufão da eternidade. Escreveu cartas para muitas pessoas, assinando como Dionisio, o crucificado. Nietzsche sofria da saúde então. Não conseguindo tratamento adequado, se tornara seu próprio médico. Tomava drogas como o ópio, haxixe e cloral. Escreve a primeira parte de seu projeto A vontade de potência, O Anticristo. Escreve Ditirambos de Dionísio. Escreve Ecce como. Os ditirambos são poemas, Nietzsche gostava de poesia, admirava Goethe e sua sabedoria. No anticristo, continua seu ataque à moral cristã, como força inimiga da vida, restringidora da vontade de potência , e cuja influência apolínea desvirtuou a humanidade. Nietzsche é internado na Basiléia. Sua mãe foi contra. O diagnóstico é paralisia cerebral progressiva e tendo como agravante sua saúde precária. Nietzsche fica dócil e seus amigos duvidam de sua loucura. Nas visitas , revela boas memórias. A irmã de Nietzsche, Elizabethe Foster, volta do Paraguai, depois da morte do marido anti-semita, que Nietzsche não gostava. Depois de uma luta judicial, consegue a responsabilidade pelos escritos do irmão, e passa a manipulá-los. Eles tiveram uma relação incestuosa. Ela publica a Vontade de Potência, não de acordo com a vontade do autor, mas uma coletânea de anotações e aforismos. Os livros de Nietzsche fazem sucesso na virad do século, ele obtém reconhecimento, e seus livros dão dinheiro. Mas não adiantavamais, era tarde.No hospício, Nietzsche escreve Minha irmã e eu. Morre em agosto de 1900. Sua irmã ainda manipulou seus escritos a favor do fascismo, era admiradora de Mussolini. Sua teoria do super-homem foi adaptada para servir ao arianismo. Nietzsche critica Kant, ora contra ora a favor. Diz que sua sabedoria era imensa. Que era um cristão pérfido, insidioso.Devemos a Kant um avanço metafísico, o de não crer mais na possibilidade de conhecer um além-mundo. Ele se orgulhava de seu avanço, o de ter descoberto os juízos sintéticos a priori (antes da experiência), sendo possíveos graças à uma faculdade. Mas Nietzsche diz que não temos de acreditar em tais juízos, no seu valor prático, mas nos perguntar como eles são possíveis. Porque preferir sempre a verdade? Ela nem mesmo é fixa e inalterável. Nietzsche é adepto do perpectivismo, a pessoa enxega o mundo de acordo com sua perpectica sócio-cultural. A partir so sujeito,o sujeito não pode ser pensado , só vivido, sempre a entender e a interpretar. Nietzsche o chama de o velho Kant, o grande chinês de Koninsberg. Os siatemas filosóficos exemplares de Kant eHegel tem colocado fórmulas e valorações nos campos em que atuam. Para Nietzsche, Hegel e Schopenhauer se colocaram contra bestial mecanização do mundo. Embora voltados para a modernidade, não faziam do racionalismo algo reducionista.Assim também acontece com Goethe, que Nietzsche não critica, diz que ele inspira respeito. Nietzsche, inicialmente via no povo alemão uma força dionísica, capaz de afastar a monotonice apolínea instaurada na Europa. Mas depois critica os alemães em diversos pontos. Diz que depois de dominar o espírito, se entediam com ele. Esse povo embruteceu com o cristianismo e o alcóol. O essencial de sua cultura superior está perdida. Nietzsche reagiu contra o historicismo de Hegel, que justifica as ações dos homens de acordo com o espírito e com o absoluto.

No Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche analisa como Sócrates conseguiu penetrar no coração dos nobres atenienses. Tocava no instinto de combate grego e era um erótico. Assim, conseguiu se sobressair, apesar de ser feio. Então ele afastou as mitificações que exploravam o lado obscuro da natureza, que só podia ser sentido, vivido, e não pensado. Afastou-o com a luz da razão, que elevou à categoria de tirana. Para Nietzsche, a verdade e a falsidade não mais existem, mas sim sinais, o homem está destinado a multiplicidade, pois tudo é interpretação. Nietzsche condena a noção que se encontra na cultura de muitos povos, que explicam tudo sob a luz racional e terceirizam para um além mundo o que não se encaixa. Assim, a razão é considerada como divina, pois seu estado de clareza leva a um falso bem estar. A natureza, para Nietzsche , está além das concepções humanas de entendimento. Essa mesma natureza devia ser experimentada de acordo com o espírito guerreiro, temos de viver em estado de guerra e resistir aos apelos supra terrenos. Ele criticou a metafísica, que colocava o mundo como reflexo diminuído de algo transcendente. A recompensa para o sofrimento dessa vida, segundo o cristianismo, está no além. O cristianismo é um vale de lágrimas. São os escravos e vencidos, ou seja os que não podiam experimentar esse mundo com o virtuosismo que ele merece, que fizeram a moral dos fracos, inventando o além. Para recuperar o lado positivo da vida, é necessário uma transmutação de todos os valores, uma revigoração da cultura judaico-cristã. No processo de transformação , teríamos de lutar contra os erros sob os quais fomos criados, como o ressentimento (é tua culpa se sou fraco), a consciência de culpa e o ideal ascético. Mas sua tarefa é solitária. Toda a civilização é produto de bases falsas, os eruditos são o que tem maior responsabilidade para lutar contra esse defeito, e questionar os próprios princípios. A cultura encontra-se em decadência, como resultado do afastamento da força da vida, tão escassa no universo. Nietzsche se afastou, ao enxergar a verdade cada vez mais longe. Mas pagou sua divída por esse afastamento ao criar seu herói solitário, Zaratustra, um questionador da cultura e civilização,bem coo da moral e valores sobre o qual ela se apóia.

Zaratustra

A tarefa de conscientização de Zaratustra não é fácil, ele encontra a ignorância do "populacho" em um tempo não definido. Zaratustra é o personagem principal de um romance filosófico-poético. Com trinta anos, sobe à montanha para escapar dos males das relações humanas e adquirir conhecimento da natureza. Vive em exposição aos elementos naturais, e junto aos seus animais (uma águia e uma serpente). Lá vive por dez anos, até saciar de seu conhecimento como abelha que produz muito mel, e parte para o convívio humano. A narrativa é pouca, o que preenche o livro são os discursos de Zaratustra. Ao descer encontra um velho e depois de dialogar se interroga: "será possível que este homem santo não saiba que deus morreu?" Nietzsche já havia feito essa afirmação na Gaia Ciência, e desenvolve com Zaratustra. Os Deuses morreram de tanto rir, ao ouvir a afirmação de que só existe um Deus. Nietzsche pretende colocar com essa afirmação que a civilização racional afastou as interpretações místicas do mundo, prevalecendo na Terra, o senso comum, e nele não há lugar para Deus, pois o homem não pode suportar não ser Deus, e portanto Ele não existe. A ignorância do dogmatismo faz com que acreditemos em coisas absurdas. Pelo fato de não podermos explicar, colocamos nossas esperanças no fim das frustações no além . Para substituir a divindade morta, Nietzsche sugere o super-homem: o bom senso da Terra. O que há de nobre do homem é ser ele um fim e não um meio. O super-homem é a ponte, é ele o raio. O homem é algo que será superado. Ele é o resultado da vontade de potência exercida, um paradigma da virilidade e virtuosismo. Se coloa além do bem e do mal, e fez seus valores em pedaços. O povo ri do discurso de Zaratustra, que resolve não pregar mais em praças. Ao longo do livro, Zaratustra viaja e expõe sua doutrina sobre assuntos diversos, adquirindo alguns discípulos. Os poetas mentem em demasia, Zaratustra expõe a verdade. É um apoio à margem do rio, mas não uma muleta. Por trás de toda a moralidade existe a vontade de poder. O homem deve exercer o poder da vida, de modo a servir de solo ao super-homem. A moral é uma força contrária à natureza. Para chegar ao super-homem Nietzsche não descarta a eugenia, a procriação para fins de superação. Passa-se o sangue e a alma para o filho, o qual continua as obras. O sangue é espírito também. A educação deve enobrecer o espírito humano e não restringi-lo. Uma vida viajante faz com que não nos prendamos em rotinas, temos que se viver em estado de alerta, como guerreiros. Zaratustra só poderia crer num deus que dança, pois todos os dias em que não há danças estão perdidos. Zaratustra critica o Estado, pois ele não representa o povo. Tudo nele é falso, diz Zaratustra. O homem deu valores às coisas afim da autoconservação, um valor humano e inadequado. A humanidade não existe, pois é uma abstração. Os sábios servem o povo e a supertição, não a verdade. Ela está aonde o povo está. Zaratustra conversa com a vida e com os animais, que chegam a cuidar dele em sua época de doença e delírio. A vida lhe confia um segredo: "Olhe, eu sou o que deve ser superior a si mesmo". Zaratustra crítica os estultos e ama a liberdade. É o último dos sábios, e conhece a arte da retórica. Zaratustra parte em busca de novos horizontes, Primeiro vai para as ilhas bem aventuradas, depois se aventura para além do oceano. Passa pela cidade dos tolos, escorraça-os. Encontra aquele que matou Deus, sempre em busca do homem superior. Mas volta para a terra onde morava e quer retornar à sua gruta. Ouve o grito do homem superior e, no caminho, encontra diversos personagens: os reis, o viajante, o homem mais feio, o mendingo. Convida-os tanto para um jantar em sua gruta, onde se dá a ação final. Lá há espaço e comida para todos. Zaratustra consegue o reconhecimento desses homens, com seu pensamento , que de modo crítico, coloca a arte e poesia como força criadora e de vida, o único valor possível. Os outros livros de Nietzsche são influenciados pelo o de Zaratustra. Nietzsche se superou, como pensador da cultura e artista. Sua influência na filosofia posterior é grande, como em Deleuza, Heidegger e Foucault. Depois da segunda guerra, houve uma etomada da interpretação de sua filosofia, em sua acepção original, não deturpada. Fez a crítica da modernidade, e seu bravo peito desbravou os horizontes possíveis com o artífico da linguagem, e não cedeu diante as adversidade,em sua vida incomum. Influenciou também os existencialistas e os psicólogos. Além de músico, poeta filológo e filosófo, foi um grande escritor. Suas obras tem um tom profundo e coeso, como em Platão.

Idéias de Nietszche

Para Nietzsche o mundo passa e voltará a passar indefinidamente pelas mesmas fases e cada homem voltará a ser o mesmo em novas existências. Para os fracos que se conformam na humildade, no temor ao pecado e na infelicidade, esta revelação é esmagadora. Porém, para os fortes, que souberam tornar-se super-homens, este é um pensamento exaltador. Além da influência da cultura grega, particularmente de filósofos como Platão e Aristóteles, Nietzsche foi influenciado pelo filósofo alemão Schopenhauer, pela teoria da evolução e pelo seu amigo compositor Richard Wagner. Um dos pontos básicos defendidos por Nietzsche era que os valores tradicionais (representados principalmente pelo cristianismo) perderam seu poder na vida dos indivíduos. Ele expressou isso na sua fala "Deus está morto". Ele estava convencido que os valores tradicionais representavam uma moralidade escrava, uma moralidade criada por indivíduos fracos e ressentidos que estimularam comportamentos gentis por interesses próprios. Nietzsche dizia que novos valores poderiam ser criados para substituir os tradicionais, e sua discussão dessa possibilidade levou-o ao conceito do super-homem. De acordo com Nietzsche, as massas, que ele chamou de rebanho, correspondem à tradição, enquanto que que seu super-homem ideal é seguro, independente e altamente individualista. O super-homem sente profundamente, mas as suas paixões são racionalmente controladas. Concentrando-se no mundo real, ao invés de concentrar-se nas recompensas do próximo mundo prometido pela religião, o super-homem vive a vida, incluindo o sofrimento e a dor que acompanham a existência humana. Seu super-homem é um criador de valores, um criador de moralidades máximas que refletem a força e a independência de alguém que está liberto de todos os valores, exceto aqueles que ele acredita válidos. Nietzsche defendeu a idéia de que todo o comportamento humano é motivado pela busca do poder. No sentido positivo, a busca do poder não é simplesmente ter poder sobre outros, mas poder sobre si-mesmo, que é necessário para criatividade. Tal poder se manifesta no super-homem como independência, criatividade e originalidade. Embora Nietzsche negasse que o super-homem existisse, ele citou alguns indivíduos que poderia servir como exemplo. Entre eles, citou Socrates, Jesus, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Shakespeare, Goethe, Julio Caesar e Napoleão. O conceito do super-homem tem sido frequentemente interpretado como uma declaração de sociedade mestre-escravo e, portanto, associada ao totalitarismo. Mas muitas escolas negam essa conexão e atribuem isso a uma interpretação errônea do trabalho de Nietzsche.

Influência de Nietszche

Poeta aclamado, Nietzsche exerceu muita influência nas literaturas germânica e francesa, e na teologia. Seus conceitos tem sido discutidos e elaborados por filósofos alemães como Karl Jaspers, Martin Heidegger e Martin Buber. Também há interpretações do teologista Paul Tillich e escritores franceses como Albert Camus e Jean Paul Sartre. O estudo de Nietzsche é muito difícil. Ler Nietzsche é chato, todos dizem, e a maioria das pessoas que lerem o que se escreve sobre ele provavelmente nunca o lerão. Então tem sido mais importante o que dizem a seu respeito do que o que ele realmente disse. Por causa disso sugere-se 4 regras para bem estudar Nietzsche.Regra 1: Não leia de forma absoluta nada que Nietzsche escreveu, mas sinta-se livre para interpretar o que você pensa que ele poderia ou deveria ter dito, pois só assim você poderá suportar seus argumentos. Regra 2: Se você precisar ler algo que Nietzsche escreveu, nunca leia em ordem, ou em série, e certamente nunca, nunca no contexto. Sua ilusão de entendimento do que ele disse vai apenas levá-lo a criar sua interpretação do que você pensa que ele poderia ou deveria ter dito. Regra 3: Quando realmente estiver lendo Nietzsche (se você realmente precisar), o que você pensar que ele escreveu será com certeza muito mais importante do que o que ele realmente disse. Nunca imagine que ele está descrevendo como as coisas são ou foram: sempre interprete os pensamentos dele como sendo a maneira como ele pensava que as coisas deveriam ser. Regra 4: Lembre-se que o que você interpreta de Nietzsche é mais importante do que o que ele realmente disse. A história está no seu lado ! Esteja atento ! Suas Principais Obras Foram: A Origem da Tragédia, Humano demasiado humano, Para Além do bem e do mal, Assim falou Zaratustra, A Genealogia da Moral, O Crepúsculo dos Ídolos, e outros.

Biografia de Johann Sebastian Bach



Johann Sebastian Bach

Bastariam os concertos de Brandenburgo para colocar J.S.Bach no seleto rol dos grandes músicos da humanidade, contudo, sua arte é de uma profusão tamanha que, além destes maravilhosos concertos, ele legou a humanidade outras tantas obras-primas, que nos perderíamos em divagações sobre sua arte musical.Johann Sebastian Bach, é considerado um dos maiores mestres da música, e o maior expoente da música barroca. Ele se insere como uma síntese musical de cinco gerações de músicos da família Bach, começando por Veit Bach (1550) até Wilhelm Friederic Bach (1845).

Johann Sebastian Bach, nasceu em Eisenach, cidade pequena da região da Turíngia , Alemanha. Em 21.03.1685. Bach, nasceu em uma família de músicos. Seguindo a árvore genealógica da família Bach, dos 33 Bach, de Veit até Johann Sebastian Bach, 27 foram músicos. J.S.Bach era filho de Johann Ambrosius Bach e Elisabeth Bach, seu pai era Haussmann, músico da prefeitura .

Bach, neste contexto, nasceu em um ambiente musical, exposto o que havia de melhor da música ocidental. Contando com 8 anos entra para a Escola de Latim de Eisenach, aprendendo tão bem o latim, que ultrapassa seus irmãos no domínio da língua. aos 9 anos perde sua mãe, mais tarde seu pai casa-se novamente, contudo com a saúde debilitada vem a falecer em 1695. Neste período Bach vai morar em Ordruf com seu irmão mais velho Johann Christoph, que lhe dá os primeiros ensinamentos no órgão. Em Ordruf seus estudos seguem no latim e no canto coral, Contudo por falta de recursos financeiros deixa a escola nesta cidade e vai para Luneburg, com o objetivo de cantar no coro de meninos da igreja de São Miguel, onde as crianças que tivessem uma boa voz ganhavam uma bolsa além de instrução casa e comida. Ele consegue ser bolsista. Em 1702 conclui os estudos acadêmicos, como não tinha recursos para ingressar na universidade, voltou para a Turíngia, onde conseguiu um emprego de violinista.

Bach: O Mestre da Música

O conselho municipal de Arnstadt em 13 de julho de 1703, convida Bach para inspecionar o novo órgão da igreja de São Bonifácio, era muito comum os organistas serem convocados para dar um parecer sobre um novo instrumento. Ele aparece e toca divinamente que o conselho o convida para tomar posse como organista titular. Ele, em agosto de 1703 foi nomeado organista da igreja de São Bonifácio, em Arnstadt, onde tocava três vezes por semana, domingo - segunda e quinta. Ficou por lá quatro anos.
Bach, em sua juventude foi um grande estudioso das obras de Corelli (1653-1713) virtuose do violoncelo, Frescobaldi (1583-1643) e o grande Couperin (1668-1733) Cravista francês.

Em 1707 foi convidado para ser organista da Igreja de São Basílio em Mühlhausen. Ele aceita. Foi nesta cidade que suas obras ganharam maior desenvolvimento, foi onde ele compôs a famosa Tocata em fuga em ré menor. Contudo as relações com os pastores desta igreja era difícil e fizeram que ele procurasse um outro lugar para expressar a sua extraordinária música.

Em 17 outubro de 1707 aos 22 anos de idade, casa-se com uma prima, Maria Bárbara Bach, na igreja de Dornreim em Arnstadt. neste casamento ele teve 7 filhos, dos quais sobreviveram Catharina Dorotheia, Wilhelm Friedmann, Carl Philipe Emanuel e Johann Gottfried Bernhard. Mas o destino tira-lhe a sua querida esposa em maio de 1720. Depois de algum tempo, ele conhece a soprano Ana Magdalena Wilcken e casa-se pela segunda vez em Cöthen, em 1721 e teve 13 filhos dos quais faleceram 7 ainda bebês. Dedicada a Ana Magdalena, Bach escreveu belas peças para teclado que conhecemos hoje como "O livro de Ana Magdalena Bach. J.S. Bach em seus casamentos teve 20 filhos.

Em 1708, vai para a corte de Weimar sendo Maestro de concertos de orquestra. foi um período tranqüilo e de grandes obras, neste tempo ficou conhecido como o Mestre da Música, com a obrigação de compor uma cantata por mês para a capela ducal . Ele era consagrado como grande organista e sua fama espalhava-se pela Alemanha.
Em 1717 aceita ser regente de orquestra em Cöthen na corte do Príncipe Leopold, foi aí que ele fez os consagrados Concertos de Brandenburgo, seis concertos orquestrais dedicados a Christian Ludwig, Em 1722 fez uma viagem a Hamburgo, onde tocou por mais de duas horas para a admiração do Conselho Municipal e diversas pessoas distintas da cidade, no órgão da igreja de Santa Catarina. O velho organista, já idoso, Johann Adan Reincken o ouviu com especial atenção, quando Bach terminou sua apresentação beija- lhe as mãos e diz: "Saúdo as mãos do gênio; pensei que esta arte morreria comigo, mas vejo, que ela segue viva dentro de você". Bach, com estas e outras assertivas seguia o seu curso como um dos maiores compositores e instrumentistas do seu tempo. Em Cöthen, ele conclui os primeiros vinte e quatro prelúdios e fugas que constituem o primeiro volume do "Das Wohltemperieerte Clavier" O cravo bem temperado, que começa com o prelúdio nº 1, que mais tarde Charles François Gounod em cima deste prelúdio constrói a sua famosa Ave Maria. Bach, Por cerca de seis anos serviu na corte de Cöthen .

Com uma carta de apresentação do Príncipe Leopold, concorre ao cargo, em Leipzig, de "Kantor" da escola de São Tomás e diretor de música e mestre de coro. O exigente conselho da igreja de São Tomás tende ao seu favor e em 31 de maio de 1723 toma posse. Suas obrigações eram : "programação musical, regência de coro, apresentar uma cantata todos os domingos, lecionar latim para os jovens."

Com o passar do tempo assume várias funções em Leipzig, é constantemente convidado para avaliar o estado dos órgãos de diversas igrejas trabalha exaustivamente. Este tempo em Leipzig é de grande produção. Neste período ele compõe em 1734 o seu famoso Oratório de Natal, obra de singular beleza, indispensável para quem gosta de canto coral.

O serviço em Leipzig é quase que totalmente dedicado à igreja. Os últimos 10 anos foram comprometidos por um princípio de cegueira dificultando seus trabalhos. Bach trabalha na sua última e grande composição "A Arte da Fuga " que fica inacabada. Após sucessivas e desastradas operações, ele fica praticamente cego, encerrando as suas atividades e um ano mais tarde vindo a falecer em em 28 de Julho de 1750.

Bach, em toda sua vida foi um homem simples de personalidade muito forte e que devido ao seu temperamento, muitas vezes entrava em conflito com os eclesiásticos. Educado na tradição luterana, ele foi um grande estudioso da teologia, lia e ensinava latim e verteu a maioria de suas grandes composições para a igreja. Luterano fervoroso, tinha como objetivo maior; transformar as linhas evangélicas em linhas melódicas,escreveu certa vez em sua bíblia " ouvir música devota é ter Deus presente com toda a sua benevolência " . Para muitos, ele é o Quinto Evangelista !

Johann Sebastian Bach , foi um gênio que o seu tempo não entendeu, após sua morte, o estilo contrapontista estava em desuso, suas músicas caíram no esquecimento, somente seus filhos a tocavam em momentos menos solene.
Dos filhos de Johann Sebastian Bach, apenas 4 tiveram destaque no cenário musical:
Wilhelm Friedmann Bach - 1710-1794 : Personalidade instável , dominado pelo alcoolismo. Morreu na pobreza.
Karl Philip Emmanuel Bach - 1714-1788 : era conhecido como o Bach de Berlim.
Johann Chistoph Friederich Bach - 1732-1795 : autor de oratórios e precursor da sinfonia.

Johann Christian Bach - 1735 - 1782 : Dedicou-se à ópera - ficou conhecido como o Bach inglês, em Londres certa vez encontrou com uma criança muito hábil ao piano, que muito lhe surpreendeu, esta criança era Mozart.

Após um longo período de esquecimento, sob a regência de Felix Mendelssohn (03.02.1809 - 04.11.1847) compositor e maestro alemão, ressurge a música de Bach com a apresentação em Leipzig, da Paixão Segundo São Matheus . A Paixão Segundo Mateus é considerada a maior obra-prima de Bach e por muitos músicos, a maior de toda a música ocidental. contudo ela passou mais de meio século esquecida, até ser redescoberta por Mendelssohn . Obra de profunda espiritualidade, a Paixão Segundo São Mateus, é composta por 78 partes, entre corais, árias e recitativos.
Conta-se que deve-se a Mendelssohn a reaparição dos originais dos Concertos de Brandenburgo que segundo contam estavam sendo guardados para serem utilizados em uma casa comercial como papel de embrulho.

Em 30 de abril de 1880, Friederich Nietzsche escreve para o amigo Erwin Rhode, e na carta está escrito : "Esta semana ouvi três vezes a Paixão Segundo São Matheus, do divino Bach, cada uma delas com o mesmo sentimento, quem se há esquecido do cristianismo, pode ouvi-lo como um evangelho". Debussy disse certa vez :"É tanta a beleza do andante do concerto para violino de Bach que, sinceramente, não sei como se pode conceber tanta beleza." Sobre o mesmo andante Debussy escreveu em sua coluna da revista Idée Libre que : "a beleza do Andante do Concerto para Violino em Lá Menor de Bach é tal que, sinceramente, a gente não sabe como se portar para se tornar digno de escutá-lo".
Albert Schweitzer, em seu livro : Johann Sebastian Bach, Músico e poeta, define a obra de bach desta forma: "A poesia desprende-se de suas harmonias como suave perfume. Poesia musical. eis o resumo da música de Bach"
Charles Maria Widor, Grande músico francês, amigo e mestre de Schweitzer, comenta :"Bach revela-se no conjunto o mais universal dos artistas. O que expressa através de suas obras é uma grande emoção religiosa e esta é uma e mesma para todos os homens, apesar das diferenças nacionais e religiosas em que nascemos e nos educamos . É o sentimento da exaltação, para o qual as palavras constituem sempre instrumento mais inadequado e que apenas encontra justa manifestação na arte. Bach é, para mim, um grande pregador "
Pierre Fournier, um dos maiores violoncelistas franceses disse certa vez sobre Bach . "Admirável síntese do Divino e da Harmonia que reina no coral: Eu te pertenço, Senhor, da Missa em si bemol menor, hino que sobe da humanidade até Deus, cria uma espiritualidade que apazigua toda dor, apaga toda amargura, e torna mais suave a nossa passagem pela Terra, dando-nos a Fé em Deus e a crença em nossa felicidade eterna."
Max Roger ressalta : "Bach foi o supremo polifonista, o supremo harmonista. Suas fugas são inimitáveis. Sua arte não é humana - é divina."
Goethe ao ouvir o Prelúdio e fuga em lá menor BWV 543, exclama : "Ouvindo a música de Bach é como se a harmonia eterna, de tão infinita beleza, se erguesse até Deus e lhe dissesse: Obrigado, Senhor, pela criação do mundo!" Beethoven comenta : "Bach (regato em alemão) deveria se chamar Ozean (oceano em alemão) e não Bach!" em outro momento ele diz : " Bach é o sublime mestre da harmonia, e sua música chega diretamente ao coração" e também "Um herege talvez se convertesse ouvindo Bach ". Mozart exclama: "Que é isto? Parece que toda alma se concentra nos ouvidos e coração! Quanto nós podemos aprender com Bach!" . Pablo Casals o maior interprete de Bach no violoncelo disse : "Em nenhuma obra de Arte se produziu o milagre de Bach, o momento mais elevado da música de todos os tempos"
A música de Bach sobreviveu, talvez porque ela seja atemporal, seu estilo é único, ouvindo-a não se esquece seu estilo. Suas grandes composições : Fugas - Tocatas - Cantatas - Suítes etc... revelam a sua grandiosidade musical, e estas pequenas considerações, apenas tentam retratar o grande valor musical de J.S.Bach, e a grande influência que exerceu e que exerce aos músicos iniciantes. E para Bach só podemos dizer, como em sua cantata: "Tönet ihr Pauken, Erschallet, Trompeten !"Cantata BWV 214

1685 - Johann Sebastian Bach nasce em Eisenach em 21 de março, filho do músico da cidade Johann Ambrosius Bach.
1703 - Em Arnstadt, ele assume seu primeiro posto como organista trabalhando até 1707.
1707 - Em Mühlhausen, perto da sua cidade natal, Bach assume o posto de organista da igreja de São Basílio.
1708 - Em Weimar domina a música clássica alemã, assume o cargo de organista e músico de câmara.
1717- Em Cöthem, Bach assume a chefia da orquestra da corte, em 1720, morre sua esposa Maria Bárbara.
1723 - Bach torna-se "Cantor" da igreja de São Tomás em Leipzig, obrigado a apresentar cantatas todos os domingos.
1724 - Em Leipzig faz-se a estréia da paixão segundo são João e três anos depois a Paixão Segundo São Matheus.
1740 - Nos dez anos que se seguem, Bach ocupa-se principalmente da arte da fuga.
1750 - Johann Sebastian Bach Falece em Leipzig em 28 de julho de 1750. A música perde um gênio, a história ganha um baluarte.

Comentários:

Tocata e fuga em ré menorCatálogo de Bach - BWV 565Em novembro de 1706, o jovem J.S.Bach, organista em Arnstadt, parte de férias para Lübeck a fim de escutar o famoso organista Dietrich Buxtehude. Ao ouvi-lo, Bach fica muito impressionado com as composições do velho organista, e de volta à sua cidade, resolve fazer uma composição que responda às suas inquietações, e a resposta automática foi a tocata e fugaÁria na 4º corda - da Suíte nº 3 em ré - Catálogo de Bach BWV 1068 (arranjo para cordas)Esta peça foi escrita quando Bach estava em Leipzig, é uma das peças mais populares de Bach, que concebeu esta obra para um conjunto de cordas. A música flui naturalmente, um convite à meditação.
Concertos de Brandenburgo - 1 a 6 - catálogo BWV 1046 até 1051Bach conheceu Cristian Ludwig, Margrave de Brandenburgo, aproveitando a oportunidade, Bach solicita uma melhor colocação em Brandenburgo para a melhoria de seus proventos, nesta época ele trabalhava em Cöthem, e a forma de persuadir o Margrave, foi lhe enviando seis suítes orquestrais para mostrar sua habilidade, contudo, não surtiu efeito e ele não consegue o cargo pretendidoConcerto de Brandenburgo nº 5 em ré BWV 1050 - AfettuosoO afettuoso foi escrito exclusivamente para três instrumentos solistas: Cravo, Violino, Flauta. Esta peça é de grande beleza pelo diálogo existente entre os instrumentos solistas. O cravo, nesta peça, faz o baixo contínuo em toda a música

Principais Obras:

Orquestrais :Concertos de Brandenburgo nº 1 a 6, BWV1046-51Suíte nº 1 em dó BWV 1066Suíte nº 2 em si menor BWV1067Suíte nº 3 em ré BWV 1068Suíte nº 4 em ré BWV 1069.Coral:Magnificat em ré BWV 243Paixão segundo São Mateus BWV 244Paixão segundo São João BWV 245Oratório de Natal BWV 248Peças para Teclado:48 Prelúdios e Fugas CBT - BWV 846-93Fantasia e fuga em lá menor BWV904Concerto italianoBWV 971Variações Goldberg BWV 988Peças para Órgão:Fantasia e fuga em lá menor BWV 537Prelúdio e fuga em lá menor BWV 543Tocata e fuga em ré menor BWV565Tocata e fuga em mi BWV 566Música de Câmara:Sonatas para Flauta BWV 1013, 1020,1031 a 1034A arte de fuga BWV 1080Oferenda musical BWV 1079Prelúdios corais:O pequeno livro para órgão BWV 599 a 644

Biografia de Martinho Lutero


Sua História

Martinho Lutero nasceu a 10 de novembro de 1483 no centro da Alemanha, em Eisleben, Turíngia/Alemanha. Seus pais, João e Margarida, eram pobres - João era mineiro e lenhador - porém não iletrado, de modo que puderam dar-lhe boa orientação educacional. Visando a melhorar a vida econômica, fixaram residência, em 1484, em Mansfeld, onde Martinho iniciou seus estudos. Terminando o curso da escola daquela localidade, então com 14 anos, deixou a casa paterna e ingressou na escola superior de Magdeburgo. Depois de um ano ali, teve que retornar à casa paterna acometido de grave enfermidade, indo por esta razão, no ano seguinte, estudar em Eisenach. Três anos cursou o colégio de Eisenach. Em 1501 ingressava na Universidade de Erfurt, cidade conhecida como "Roma Alemã" pelo número de suas igrejas e mosteiros. Obteve ali os graus de Bacharel (1502) e Mestre em Arte (1505). No mesmo ano ingressou no curso de Direito.

Este, porém, foi interrompido visto que, a 02 de julho de 1505, regressando da casa paterna, teve sua vida seriamente ameaçada por uma tempestade que, por pouco, lhe tirara a vida. Fez, nesta oportunidade, um voto a Sant’ana que, se lhe fosse dado viver, ingressaria no mosteiro para tornar-se monge. No dia 17 de julho de 1505 as portas do convento da Ordem dos Agostinhos fechavam-se atrás dele.

Sacerdote

Em fevereiro de 1507 foi ordenado sacerdote. Vivia, no entanto, em completo desespero, buscando, dias e noites a fio, em tremendos tormentos espirituais, resposta à pergunta: "De que maneira conseguirei um Deus misericordioso?" Reconheceu muito logo que jamais seria possível obter certeza de sua salvação mediante boas obras, pela impossibilidade de saber se são suficientes, mormente em se tratando de uma alma de consciência extremamente sensível.

Professor

Por indicação do vigário da ordem, João de Staupitz, que reconhecia em Lutero urna erudição e inteligência incomuns, Lutero foi designado professor na Universidade de Wittenberg, fundada em 1502 por Frederico, o Sábio, duque da Saxônia e presidente dos sete eleitores civis que, juntamente com sete autoridades religiosas, elegiam o imperador do Sacro Império -Romano da Nação Alemã. Ocupou ali a cadeira de Teologia. Continuou também seus estudos, instruindo-se principalmente nas línguas gregas e hebraica. A 09 de março de 1509 obteve o grau de Baccalaureus Biblicus.

Viagem a Roma


Em 1511, então com 28 anos, foi enviado em missão diplomática a Roma, para solucionar uma divergência entre sete conventos de sua Ordem e o vigário geral da mesma. A corrupção, imoralidade, as zombarias, o desrespeito do clero e da cúpula da igreja para com as coisas sagradas marcaram nele uma profunda decepção. Embora profundamente entristecido, as esmagadoras desilusões sofridas não o levaram a descrer de sua igreja.

Doutor em Teologia

Em outubro de 1512, recebia, das mãos do decano da faculdade de Teologia, o grau de Doutor em Teologia. Assumiu, a seguir, a cadeira de Lectura in Bíblia lecionando, à base das línguas originais, o hebraico do Antigo Testamento e o grego do Novo Testamento, incorporando conquistas do humanismo na ciência da interpretação de textos. Ainda em 1512, foi eleito subprior do convento de Wittenberg. Em maio de 1515, o cabido geral reunido em Gotha o designava vigário do distrito, que compreendia onze conventos sob sua orientação e autoridade.

Preleções

As suas preleções eram tão concorridas que a elas acorriam estudantes de todas as partes e países vizinhos. Os professores assistentes também aumentavam. O reitor da Universidade chegou a declarar, como que em antevisão: "Este frade derrotará todos os doutores; introduzirá uma nova doutrina e reformará toda a igreja; pois ele se funda sobre a palavra de Cristo, e ninguém no mundo pode combater nem destruir esta Palavra..." (Melchior, Adam. Vita Lutheri, p. 104). Ocupando o púlpito, a capela logo não mais podia comportar os assistentes. O senado o convidou então a ocupar a igreja paroquial da cidade.

Justificação pela fé

Nos seus conflitos espirituais, o texto bíblico que lhe trouxe a luz da verdade e a paz de consciência veio a ser a célebre passagem da Epístola aos Romanos (1.17), em que o apóstolo cita o profeta Habacuque: "0 justo viverá por fé" Viu que São Paulo fazia do sacrifício de Cristo o centro da verdade em religião. Seus pecados, angústias, sofrimentos haviam caído sobre os ombros de Cristo na cruz; Cristo fizera o que ao pecador teria sido impossível fazer com suas penitências e méritos pessoais.

As Teses

Em 1517, Lutero quis provocar um debate público sobre a venda de indulgências promovidas pelo Papa Leão X e o arcebispo Alberto de Mogúncia através da Ordem dos Dominicanos. Quando pregou à porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, o pergaminho com as 95 teses em latim para serem debatidas entre os acadêmicos, conforme o costume da época, não desejava desencadear um movimento na história da igreja. Era o pároco que, com preocupado, via como as almas dos fiéis eram desnorteadas por um grande escândalo, descaradamente apregoado em nome da santa Igreja: a venda do perdão de Deus, como se fosse mercadoria, por meio de cartas de indulgência, cujo lucro se destinava ao término da basílica de São Pedro e à cruzada contra os turcos. Seu principal proclamador era o dominicano Tetzel. Eis algumas das teses apresentadas por Lutero: - Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., pretendia falar da vida interior do cristão que deveria ser um contínuo e ininterrupto arrependimento (Tese I) - Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório (Tese 27) - Todo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indigência (Tese 36) - Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências e o próprio papa oferecessem sua alma como garantia (Tese 52) As proposições sobre as indulgências eram completadas por algumas outras, que continham o que viria a ser fundamental na doutrina luterana: - Aos olhos de Deus, não há na criatura senão concupiscências; - Ninguém se salva senão pela graça de Deus através da fé. O efeito dessas teses foi tão inesperado, que elas não ficaram entre os letrados; traduzidas ao alemão, em poucas semanas se espalharam por toda a Alemanha e outras partes da Europa, chegando ao conhecimento do povo em geral.

Reação de Roma

Em 1518, Roma tratou de liquidar o caso do monge de Wittenberg. Lutero foi chamado para responder processo em Roma, dentro de sessenta dias. Mas, por interferência de Frederico, o Sábio, Príncipe da Saxônia, o Papa consentiu que a questão fosse tratada em Augsburgo, pelo Cardeal Cajetano. Este exigia simplesmente que Lutero se retratasse, o que este, naturalmente, não fez. Tinha Lutero nessa época o apoio do capítulo da Ordem dos Agostinhos e do corpo docente da Universidade de Wittenberg. Cajetano declararia depois dos três encontros com Lutero: "Ele tem olhos que brilham, e raciocínio que esconcertam".
O Papa temia suscitar oposição cerrada entre os príncipes alemães. Valeu-se, para que isso não acontecesse, da diplomacia. Condecorou o protetor de Lutero, Frederico, o Sábio, com a "Ordem da Rosa Áurea da Virtude" para afastá-lo de Lutero, e enviou o conselheiro Karl von Miltitz. Este conseguiu, com brandura, queLutero escrevesse uma carta ao papa, declarando sua fiel submissão; mas reafirmou, também, sua doutrina da justificação pela fé somente, sem os méritos de obras. Expôs e defendeu sua posição num debate com o Dr. João Eck em Leipzig. O que precipitou o rumo das coisas foi sua declaração de que nem todas as doutrinas de João Hus (queimado como herege em Constança, em 1415) eram falsas, e que os concílios são passíveis de erros em suas decisões. Isto o colocou à margem da igreja papal, que se fundamentava sobre a infalibilidade do papa e dos concílios.

Primeiros Escritos

Em 1520 escreveu três livros fundamentais mostrando o antagonismo do sistema de salvação papal e o ensino bíblico: "À Sua Majestade Imperial e à Nobreza Cristã sobre a Renovação da Vida Cristã",- "Sobre a Escravidão Babilônica da Igreja" e "Da Liberdade Cristã" ' Alguns de seus pensamentos-chave aí registrados são estes: - "0 cristão é um livre senhor sobre todas as coisas e não submisso a ninguém - pela fé"; "o cristão é servidor de todas as coisas e submisso a todos - pelo amor". "Não fazem as boas obras um bom cristão, mas um bom cristão faz boas obras".

Excomunhão

A resposta do Papa foi a bula de excomunhão Exsurge Domine. Tinha ainda 60 dias para retratar-se do que havia escrito e ensinado. Em 03 de janeiro de 1521 esgotou-se o prazo dado na bula, sendo então proferido o anátema definitivo, pela bula Decet Romanum Pontificem.

Dieta de Worms

Em 1521 reunia-se a primeira Dieta ou Assembléia do império, presidida pelo jovem imperador Carlos V, eleito em 1520, em sucessão a Maximiliano, para dirigir o reino "em que o sol não se punha". Lutero, intimado, compareceu diante da assembléia em 17 e I S de abril de 15 2 1. Perguntado se renunciava ao que tinha escrito, respondeu: "Não posso, nem quero retratar-me, a menos que seja convencido do erro por meio da palavra bíblica ou por outros argumentos claros. Aqui estou; não posso de outra maneira! Que Deus me ajude. Amém".

Tradução do Novo Testamento

Proscrito pelo imperador, foi posto em segurança pelo duque Frederico, através de um seqüestro simulado de cavaleiros embuçados, durante sua viagem de retomo, e escondido no Castelo de Wartburgo, nas proximidades de Eisenach. Sua principal realização nesse período foi a tradução do Novo Testamento grego para um alemão fluente de grande aceitação popular. Os primeiros 5 mil exemplares esgotaram-se em 3 meses. Em cerca de dez anos houve 58 edições. Em 1522, com risco de vida, reassumiu as funções de professor em Wittenberg. Juntamente com Felipe Melanchthon (cognominado Praeceptor Germaniae - educador da Alemanha), seu grande amigo e colaborador, instruiu centenas de estudantes alemães, boêmios, poloneses, finlandeses, escandinavos.

Guerra dos Camponeses

Marcou o ano de 1525 a Guerra dos Camponeses - uma revolução armada em que os camponeses, sob federação, reivindicaram mais liberdade aos latifundiários. Em seus objetivos políticos sociais idealizaram Martinho Lutero como chefe. Confundiram reivindicações políticas com aspirações religiosas. Lutero, embora compreendendo suas necessidades, viu-se forçado a distanciar-se do movimento porque não era política a missão dele. A carnificina, com batalha final em Frankenhausen, trouxe prejuízos ao movimento da Reforma. Mas esta, a despeito de todos os abusos praticados em seu nome, se expandia. Lutero procurava consolidar as igrejas e escolas que haviam aderido à Reforma em território alemão e países vizinhos. Neste mesmo ano (I 525) casou-se com uma ex-freira, Catarina de Bora, de cujo casamento lhes nasceram 6 falhos.

Culto e Liturgia

De 1527 a 1529 esteve empenhado na organização da Igreja Evangélica. Compositor e poeta, compôs trinta e sete hinos. Cabe-lhe a celebridade de popularizar o Lied eclesiástico. Era também conhecido como o "Rouxinol de Wittenberg". Traduziu a ordem da missa para o alemão - Deutsche Messe 1526 - a partir do que os cultos passaram a ser celebra. dos na língua do povo, e não no latim que ninguém entendia.

Os dois Catecismos

Em 1529 redigiu dois manuais de instrução, até hoje em uso nas igrejas luteranas: "Catecismo Menor" e "Catecismo Maior" Os dois volumes apresentam, em seis partes, um sumário da doutrina cristã. O primeiro é escrito, especialmente, para as crianças; o segundo, para os pais. Justificando, o Reformador afirma: "A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este Catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias". Numa outra oportunidade afirma: "Eu também sou doutor e pregador, e, na verdade, tenho de continuar diariamente a ler e estudar, e ainda assim não me saio como quisera, e devo permanecer criança e aluno do Catecismo".

Somente a Escritura

No mesmo ano realizou-se, no mês de outubro, um encontro entre Ulrico Zwínglio e Lutero para um debate doutrinário, denominado Colóquio de Marburgo, urna controvérsia eucarística. O pregador Zwínglio, que vivia na Suíça, também reconhecera a apostasia da igreja romana, pregai)do a Palavra e testemunhando contra as indulgências. Diferia, no entanto, da doutrina de Lutero e a discrepância básica resumia-se na pergunta: Os artigos de fé devem basear-se exclusivamente na Palavra de Deus ou também na razão humana? Não chegaram a um acordo, visto que a resposta de Lutero não admitia dúvida: A Escritura, e nada além dela, é fonte de artigos de fé, como também, mais tarde, a Fórmula de Concórdia o expressa: "Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única regra e norma segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas igualmente todas as doutrinas e todos os mestres".

Confissão de Augsburgo

Auxiliou o duque João Frederico a delinear sua estratégia em relação à Dieta de Augsburgo (l53O), convocada Pelo imperador para superar o cisma- Acompanhou a redação, por Felipe Melanchthon, duma defesa oficial, que veio a chamar-se Confissão de Augsburgo.

O documento - a primeira e mais notável das confissões evangélicas - foi lido em público à assembléia imperial, em nome de príncipes e cidades partidárias da Reforma, a 25 de junho de 1530. Era Composto o documento de duas partes: uma, dogmática; outra, apologética. Argumentavam na Confissão que, quanto à doutrina, continuavam fiéis ao que a igreja vinha ensinando à base das Escrituras Sagradas, conforme os Credos Apostólico e Niceno; com respeito ao culto, mantinham os ritos antigos consentâneos ao evangelho, cancelando apenas aqueles costumes, ritos e cerimônias que obscureciam a glória de Jesus Cristo como o único Mediador entre Deus e Os homens. Reivindicaram, por conseguinte, o direito de conviver em Paz com o papa e os bispos no seio da igreja do império. O imperador, ouvida a Confissão, determinou que os teólogos de Roma elaborassem a Confutação Católica à confissão de Augsburgo. A 03 de agosto fez-se a leitura desta. Não terminava ainda a apresentação de confissões religiosas, e Lutero e Melanchthon responderam à Confutação com a Apologia da Confissão de Augsburgo, de alto valor teológico, mas da qual a Dieta não quis tomar conhecimento. A Dieta lhes concedeu o prazo até 15 de abril de 1531 para voltarem ao seio da igreja romana e exigiu rigoroso cumprimento do Édito de Worms. Embora desaconselhados por Lutero, constituiu-se em fevereiro de 1531 uma poderosa agremiação política dos príncipes luteranos, denominada "Lida de Esmalcalde". Porém, em vista do perigo dos turcos às portas do império, em Viena, o imperador dependia do auxilio militar dos príncipes evangélicos; por isso, pela Paz de Nüremberg, para a qual Lutero muito contribuiu, em 1532, permitiu aos adeptos da Confissão de Augsburgo a persistirem nas suas doutrinas e concedia-lhes ainda outros privilégios. Essa tolerância seria dada até a realização de um concílio da igreja.

Tradução do Antigo Testamento

Não houve, assim, apesar dos esforços, uma maneira de restabelecer a unidade na igreja e no império. Em 1534 Lutero terminava uma tarefa em que havia trabalhado mais de 10 anos: a tradução do Antigo Testamento para o alemão. No mesmo ano pode-se publicar, então, a Bíblia completa. Em 1536 Lutero redigiu, por solicitação do duque João da Saxônia, artigos para serem apresentados num "Concilio geral livre" convocado pelo Papa. Os Artigos de Esmalcalde, porém, não chegaram a ser apresentados. Os líderes evangélicos concluíram que o concilio não seria livre e se negaram a participar do Concílio de Trento (l545 - 1563), que desencadeou a contra-reforma, no pontificado de Paulo III.

Paz de Augsburgo

A Paz de Augsburgo, em 1555, atendeu, de certa forma, aos reclamos dos evangélicos. Substituiu a tolerância religiosa nestes termos: os príncipes e cidadãos do império respeitariam a filiaçao religiosa de cada um, e o povo teria a opção de adotar a confissão religiosa do respectivo domínio ou de emigrar a território que tivesse a confissão desejada.
Martinho Lutero faleceu aos 62 anos de idade, em 18 de fevereiro de 1546, em sua cidade natal, Eisleben, depois de solucionar um litígio entre os condes de Mansfeld. Com grande cortejo fúnebre e ao som de todos os sinos, Lutero foi sepultado sob as lajes da igreja do Castelo de Wittenberg, onde sempre pregava o evangelho.

Contra-Reforma

A Contra-reforma, liderada pela ordem dos jesuítas, reconquistou vários territórios que tinham aderido à Reforma. Não obstante, a doutrina, o culto e a piedade preconizados por Lutero se enraizaram na Alemanha, nos países bálticos, nos países escandinavos e na Finlândia. Através doutros reformadores, foram acolhidos na França, Inglaterra, Escócia e Países ' Baixos. Em todos estes países, a Reforma ocasionou extraordinário desenvolvimento cultural, notadamente na educação, ciência, economia e política. Pela emigração, os "Luteranos" se espalharam por todos os continentes. Contam, hoje, cerca de 70 milhões. Frade, sacerdote, professor, doutor em Teologia, pregador considerado o primeiro de seu tempo, escritor vigoroso e de grande riqueza lexicografia, fixador da língua alemã, poeta e músico, Lutero abalou o mundo de seus dias e sobre ele se tem pronunciado. ciado o juízo dos séculos.

Pronunciamentos sobre Lutero

O historiador Schaff diz que "este foi o maior homem que a Alemanha produziu e um dos maiores vultos da história". Goethe dá o seu testemunho nestes termos: 'Dificilmente compreendemos o que devemos a Lutero e à Reforma em geral. Ficamos livres dos grilhões da estreiteza espiritual (... ) compreendemos o cristianismo em sua pureza". .Heinrich -Heine, o poeta excelso, exclama: "Honra a Lutero, a quem devemos a reconquista dos nossos direitos mais sagrados, e de cujos benefícios vivemos hoje em dia. Através de Lutero adquirimos a liberdade religiosa. Criou a palavra para o pensamento. Criou a língua alemã, através da tradução da Bíblia": Dollinger, historiador católico liberal, diz: "Lutero deu aos alemães o que nenhum outro jamais dera a seu povo: a língua, a Bíblia, a hinologia..." É reconhecido c omo "pai da alfabetização". Dirigiu-se aos pais através de profusas publicações, encarecendo-lhe a escola e a educação dos filhos como necessidade inadiável, para a pátria e a igreja verem melhores dias. Um escritor moderno declarou: "A Lutero deve a Alemanha seu esplendido sistema educacional - em suas origens e concepções. Porque ele foi o primeiro a reclamar uma educação universal, uma educação do povo todo, sem consideração de classe". Deixou à posteridade, em sua fecundidade literária, dezenas de volumes contendo obras doutrinárias, apologéticas, exegéticas, homiléticas, pastorais e pedagógicas. Funck-Brentano, célebre historiador contemporâneo assim se expressa: "Qualquer que seja o julgamento formulado em torno da doutrina religiosa de Martinho Lutero, é preciso reconhecer nele uma das mais poderosas personalidades que o mundo conheceu. Sua energia, seu valor, sua poderosa ação - que decorriam em grande parte da intensidade de suas convicções - estão acima de todo elogio. Calculou-se que seriam precisos a um homem dez anos de vida para simples cópia das cartas, orações e inumeráveis escritos do reformador, e Lutero não só redigiu suas obras, mas pensou-as, deu-lhes estudo e reflexões, corrigiu-as, e isso entre ocupações múltiplas, quase sempre absorventes e das mais diversas, suas prédicas, sua atividade social e política, os cuidados e o tempo que consagrou aos antigos e à família" (Martim Lutero, pág. 22, Ed Veccki). Dezenas de testemunhos dessa natureza poder-se-ia acrescentar à sua pessoa. Os exemplos citados, porém, exemplificam o veredito sobre sua pesso e a obra deixada até os nossos dias atesta a sua grandiosidade.



ROSA DE LUTERO



Símbolos são figuras que expressam verdades e convicções. Uma Cruz, um Coração, uma Rosa Messiânica, um Fundo Azul e um Anel Dourado formam o BRASÃO DE LUTERO.
O coração se apega a Cristo, centro da fé e da vida cristã. A fé se reflete em alegria, consolação, paz e esperança, aguardando a realização das promessas de felicidade sem fim, que ainda serão cumpridas.
A ROSA DE LUTERO tornou-se um símbolo visual da REFORMA e do LUTERANISMO.

1.12.04

Biografia de Albert Einstein

Albert Einstein

Einstein: cientista e humanista

Autor da Lei da Relatividade e Prêmio Nobel de Física de 1922, Albert Einstein foi eleito Personalidade do Século XX pela revista Time. Considerado o pai da Física Atômica, seu nome é consenso na comunidade científica mundial e ninguém duvida de que suas teorias revolucionaram a ciência abrindo perspectivas até então inimagináveis

Não há ninguém no mundo que não tenha ouvido o nome de Einstein. Seja como humanista, cientista ou homem, todos falam de maneira corriqueira sobre a Teoria da Relatividade. No entanto, nem sempre foi assim. Houve mesmo momentos, no início de sua vida profissional, em que nem emprego como professor ele conseguia, apesar de seu diploma e de seus excelentes resultados acadêmicos.

Segundo a revista Time, que traz em sua edição de 10 de janeiro deste ano uma ampla reportagem sobre o físico, Einstein conseguiu seu primeiro emprego graças a uma recomendação do pai de Marcel Grossman, um de seus melhores amigos. Foi, então, em 1901, contratado como assistente técnico do Departamento de Patentes da Suíça. Quatro anos mais tarde, obtinha o seu doutorado.

Judeu assumido, apesar de ter sido criado em um lar no qual o judaísmo jamais fora praticado e, posteriormente, simpatizante do sionismo, Einstein sempre acreditou em D’us. Sempre defendeu a idéia de o cosmo ser uma obra harmoniosa, fruto de uma inteligência suprema, responsável pela organização da matéria e da vida.

Foi elogiado por um grão-rabino da França, Jacob Kaplan, que admirou a sua capacidade de conciliar a rigorosa pesquisa sobre o universo com a convicção da existência de uma força criadora superior. Sua ligação com o sionismo e o Estado de Israel levou o então primeiro-ministro David Ben-Gurion, em 1952, a convidá-lo a suceder Chaim Weizmann na presidência do Estado Judeu, convite que o físico recusou alegando não estar à altura do cargo. Anteriormente, havia participado ao lado de Weizmann da campanha para arrecadação de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Einstein conseguiu ser a rara combinação de um gênio que possui um profundo senso de moral e é totalmente indiferente às convenções. Dono de uma personalidade controversa, segundo os seus amigos mais próximos, um tanto quanto temperamental principalmente em suas relações pessoais, Einstein foi o símbolo de tudo o que era novo, original e incerto na era moderna.

O jovem Einstein

Albert Einstein nasceu em Ulm, Alemanha, em 1879. Em sua certidão de nascimento constam as seguintes informações: "Nº 224. Ulm, 14 de março de 1879. Hoje, o comerciante Hermann Einstein, residente em Ulm, Bahnhofstrasse, 135, judeu, pessoa conhecida, compareceu perante o escrivão abaixo e declarou que uma criança do sexo masculino, que recebeu o nome de Albert, nasceu em Ulm, na sua residência, filho de Pauline Einstein, sua esposa, com o sobrenome Koch de solteira, judia, no dia 14 de março de 1879, às 11h30. Lido, confirmado e assinado: Hermann Einstein. O escrivão, Hartman". A casa de Bahnhofstrasse foi destruída durante um ataque aéreo em 1944, mas o registro de nascimento ainda se encontra nos arquivos de sua cidade
natal.

Albert foi o primeiro dos filhos de Hermann e Pauline, depois do qual nasceu Maria, em 18 de novembro de 1881. Segundo Abraham Pais, autor da obra "Sutil é o Senhor…A Ciência e a Vida de Albert Einstein", provavelmente ela foi o ser humano a quem Einstein se sentiu mais ligado ao longo de sua vida. Chamava-a, carinhosamente, de Maja. Criados no seio de uma família predominantemente liberal, Einstein e sua irmã não receberam educação religiosa no lar e lhes foi transmitida uma visão pragmática face à religião

Em um ensaio biográfico de Maja sobre o irmão, terminado em 1924, e mencionado na obra de Pais, há muitas informações sobre os primeiros anos de Einstein. São recordações familiares entre as quais ela menciona a preocupação da mãe, quando Einstein nascera, por causa da grande e angulosa parte posterior da cabeça do bebê; e da primeira reação de uma das avós ao ver o então mais jovem membro da família: "Viel zu dick! Viel zu dick" ("É pesado demais"). Maja fala também dos primeiros receios familiares de que a criança pudesse ser retardada, por causa do tempo excessivo que levou para começar a falar.

Segundo a obra de Pais, com base em uma das primeiras memórias de infância do próprio Einstein, quando tinha entre dois e três anos, ele queria dizer frases completas. Ensaiava a frase para si mesmo, dizendo-a em voz baixa. Se lhe parecesse boa, pronunciava-a em voz alta. Pais afirma, também, que Einstein era muito calmo quando pequeno, preferindo brincar sozinho. "Todavia era temperamental. Podia explodir de cólera. Nesses momentos, a face empalidecia, a ponta de nariz embranquecia e podia descontrolar-se. O pequeno e querido Albert chegou a arremessar objetos na irmã em várias ocasiões, mas os ataques de cólera cessaram por volta dos sete anos", lembra Maja em seu ensaio. Ainda em sua infância, aprendeu a tocar violino, tornando-se um amante da música, mas jamais um músico brilhante.

Seis meses após o nascimento de Einstein, a família mudou-se para Munique, onde ele iniciou sua vida escolar posteriormente no Luitpold Gymnasiun, no qual permaneceu até os 15 anos. Em todos esses anos, obteve sempre, ou quase sempre, as notas mais altas em Matemática e em Latim. Sobre este período, sua irmã escreveu: "No conjunto, Einstein, no entanto, não gostou daqueles anos de escolaridade; professores autoritários, estudantes servis, ensino livresco - nada disso lhe caía bem. Além do mais, tinha uma natural antipatia por (…) ginástica e esportes (…). Tinha tonturas e cansava-se facilmente. Sentia-se isolado e fazia poucos amigos na escola".

Alguns anos mais tarde, seus pais foram para Milão, Itália, mas ele continuou seus estudos na Suíça e, em 1896, ingressou na Escola Politécnica Federal, em Zurique, onde estudou Física e Matemática. Foi neste ano que decidiu desistir de sua cidadania alemã, pagando então três marcos por um documento, autenticado em Ulm, que declarava que já não era mais cidadão alemão. Em 1901, ao formar-se, adquiriu a cidadania suíça e começaram suas dificuldades para conseguir lecionar. Foi quando obteve o emprego no Departamento de Patentes em Berna. Simultaneamente à sua vida profissional e científica, Einstein encontrou tempo para sua vida pessoal. Em 1903 casou com Mileva Maric, ex-colega de estudos, apesar da oposição da família. Teve dois filhos, Hans Albert e Eduard, divorciando-se. O mais velho tornou-se um importante professor de Hidráulica na Universidade da Califórnia e o mais jovem, formado em Música e Literatura, morreu em um hospital psiquiátrico na Suíça. Em 1919, Einstein e Mileva divorciaram-se e ele casou-se com sua prima, Elsa Einstein, que faleceu em 1936.

Início do sucesso

Em 1909, Einstein tornou-se professor Extraordinário em Zurique e, dois anos mais tarde, professor de Física Teórica em Praga. Em 1912, passou a ocupar o mesmo cargo em Zurique. Em 1914, foi indicado diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Física e professor da Universidade de Berlim, tornando-se, novamente, cidadão alemão no mesmo ano. Em 1920, durante uma de suas aulas em Berlim, foram realizadas manifestações anti-semitas, fato que o levou a deter-se com mais atenção aos fatos que então ocorriam na Alemanha.

Um ano mais tarde, fez sua primeira visita aos Estados Unidos cujo objetivo principal era arrecadar fundos para a construção da Universidade Hebraica de Jerusalém. Na ocasião, recebeu a Medalha Barnard e deu várias palestras. Em 1922, recebeu o Prêmio Nobel de Física, não pela Teoria da Relatividade, mas por um trabalho de 1905 sobre os efeitos fotoelétricos. Ele não participou da cerimônia de premiação pois estava no Japão. Ao longo de sua vida, visitou vários países, incluindo alguns da América Latina.

Em 1933, Einstein renunciou mais uma vez a cidadânia alemã por razões políticas e emigrou para os Estados Unidos, onde assumiu a função de professor de Física Teórica na Universidade de Princeton. Tornou-se cidadão americano em 1940, mas manteve a cidadania suíça. Aposentou-se em 1945.

Ao longo de sua vida, Einstein atuou em prol da paz. Em 1944, por exemplo, autografou o seu trabalho de 1905 e permitiu que fosse leiloado para ajudar as vítimas da guerra. Cerca de seis milhões de dólares foram arrecadados e o manuscrito encontra-se atualmente na Livraria do Congresso.

Doou os manuscritos de seus trabalhos científicos para a Universidade Hebraica de Jerusalém, da qual foi presidente de 1925 a 1928. Recusou um convite para retornar ao cargo em 1933, por discordar da forma como era administrada. Uma semana antes de sua morte assinou sua última carta. Foi endereçada a Bertrand Russel na qual concordava em que seu nome fosse incluído em um manifesto pedindo a todas as nações que abandonassem as armas nucleares. Uma posição totalmente diferente da que possuía em 1939, quando defendeu o desenvolvimento da bomba atômica.

Einstein morreu no dia 18 de abril de 1955 em Princeton, Nova Jersey. Seu corpo foi cremado e seu cérebro doado a Thomas Harvey, patologista do Hospital de Princeton. Deixou várias histórias sobre sua vida e personalidade, muitas da quais, apesar de repetidas inúmeras vezes como se fossem verdadeiras, não passam de simples histórias, como por exemplo, o fato de que não conseguiu passar em matemática quando ainda era jovem; ou então que não era capaz de lembrar o endereço de sua casa ou de contar o troco correto da passagem de ônibus…

Em 1996, a Fundação Filantrópica Jacob E. Safra e a família Safra doaram ao Museu de Israel os manuscritos de Albert Einstein sobre a Teoria Especial da Relatividade, datados de 1912.

Idéias e teorias

Einstein sempre teve uma visão clara sobre os problemas da Física e a determinação de encontrar soluções. Tinha uma estratégia própria e era capaz de visualizar as etapas para atingir seus objetivos. Para ele, cada êxito era apenas mais um passo para o próximo avanço. Ele descobriu, apenas pensando sobre isso, a estrutura essencial do cosmos. Os pilares do mundo atual – a bomba, viagens espaciais, eletrônica, entre outros – têm a marca de suas impressões digitais.

Desde que começou a se dedicar à ciência, o então jovem físico percebeu algumas inadequações nas idéias de Newton e desenvolveu uma teoria especial da relatividade em uma tentativa de reconciliar as leis de mecânica com o campo da eletromagnética. Lidou com problemas clássicos de mecânica estatística os quais se fundiam com a teoria quântica, entre outros temas.

Durante sua permanência no Departamento de Patentes da Suíça, aproveitando o tempo livre que tinha, produziu uma grande parte dos seus trabalhos científicos que lhe garantiram posterior notoriedade. Em 1903 e 1904 publicou artigos sobre os fundamentos da mecânica estatística. Em 1905 terminou um trabalho que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Física em 1922, além de finalizar o texto que lhe deu o título de Doutor pela Universidade de Zurique. Em finais de 1906, acabou um artigo fundamental sobre calores específicos e, no ano seguinte, deu as primeiras contribuições importantes para a Teoria da Relatividade geral.

Durante os anos 20, Einstein trabalhou no campo da unificação das teorias, embora prosseguisse com seus estudos sobre as probabilidades de interpretação da teoria quântica. Deu continuidade a estas pesquisas após emigrar da Alemanha para os Estados Unidos. Contribuiu também para o desenvolvimento da mecânica estatística. Ao aposentar-se continuou a trabalhar rumo à unificação dos conceitos básicos de física assumindo uma posição geometricamente oposta a da maioria dos físicos.

Seus principais trabalhos são: "Teoria Especial da Relatividade", 1905; "Teoria Geral da Relatividade", 1916; "Investigações sobre a Teoria do Movimento Browniano", 1926; e "Evolução da Física", 1938. Entre seus trabalhos não científicos destacam-se "Sobre Sionismo", 1930; "Minha Filosofia", 1934; e "Meus últimos anos", 1950.

Einstein recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Ciência, Medicina e Filosofia de diferentes universidade americanas e européias. Durante os anos 20, lecionou na Europa, América e Leste Europeu e recebeu os títulos de Fellowship e Membro-Honorário da várias instituições científicas renomadas de todo o mundo. Recebeu vários prêmios entre os quais O Nobel de Física em 1922; a Medalha Copley da Sociedade Real de Londres, em 1925; e a Medalha Franklin, do Instituto Franklin, em 1936.

Frases de Einstein

"A paixão pelo conhecimento em si mesmo, a paixão da justiça até o fanatismo e a paixão da independência pessoal exprimem as tradições do povo judeu e considero minha pertença a esta comunidade como um dom do destino.

Aqueles que hoje se desencadeiam contra os ideais de razão e de liberdade individual e que, com os meios do terror, querem reduzir os homens a escravos imbecis do Estado, nos consideram com justiça como seus irreconciliáveis adversários. A História já nos impôs um terrível combate. Mas, por longa que seja nossa defesa do ideal de verdade, de justiça e de liberdade, continuamos a existir como um dos mais antigos povos civilizados, e sobretudo realizamos no espírito da tradição um trabalho criador para a melhoria da humanidade".

"A História confiou-nos nobre e importante missão sob a forma de uma colaboração ativa para construir a Palestina… Temos a possibilidade de instalar focos de civilização nos quais todo o povo judeu pode reconhecer sua obra. Esperamos profundamente estabelecer na Palestina um lugar para as famílias e para uma civilização nacional própria, que permita despertar o Oriente Médio para uma vida econômica e intelectual".

"Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso, Mas, ‘fazer tais perguntas tem sentido?’ Respondo: ‘Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver".


Bibliografia

Pais, Abraham, "Sutil é o Senhor…A Ciência e a Vida de Albert Einstein"
Einstein, Albert, Como Vejo o Mundo
Revista Time, 10/01/2000
Manuscritos de 1912 da Teoria Especial da Relatividade de Einstein